sexta-feira, 10 de maio de 2013

Eu poderia falar nesse texto sobre como adorei Barcelona. Sobre como o clima era agradável, como é tudo lindo, como as cores e paladares me abasteceram os pulmões. Poderia descrever como a agitação cultural da cidade me encheu de ideias e como fiquei impressionada com a força da cultura catalã. Sobre o que aprendi sobre arquitetura integral e sobre as loucuras do Gaudí, graças ao meu guia querido e poeta das nuvens. Eu imaginava uma cidade vermelha, do sangue das touradas, e descobri uma cidade azul e verde, conurbada em natureza e entusiasmo.

Mas, apesar de tudo isso, decidi escrever sobre uma palavra que reaprendi por lá, o encantamento. É que a cada vez que um espanhol me foi apresentado, eles diziam: "encantado". Não diziam "prazer" ou "nice to meet you", porque, afinal de contas, isso quase sempre é uma grande mentira. Mas eles se dizem encantados. E acho, verdadeiramente, que é assim que a gente devia se sentir ao conhecer uma pessoa, um lugar, uma comida, um cheiro. Encantado.

Me mostrando a sua Barcelona, Gabriel me disse que gostaria de ver a cidade com os meus olhos, de quem a via pela primeira vez. Eu respondi que ele poderia fazer isso, e pensei que era só abrir os olhos todos os dias. É o que tenho feito aqui em Bussum, aqui na Holanda, aqui na vida. Em Goiânia, por onde passei todos os meus anos até então, eu tinha me esquecido da minha capacidade de encantamento e, agora, a reaprendi. Talvez porque numa experiência feito essa a gente se sinta instigado a apreciar. Talvez também seja a convivência com as crianças que, ainda de olhos e peito abertos, continuam sempre dispostas a ver.

Nos últimos dias de Holanda, descobri tanta espécie de flor como jamais pensei. Tanta cor nova, tanto tudo-novo a cada giro das rodas da minha bicicleta. Descobri ainda, todos os tons de laranja existentes, numa festa linda chamada Koninginnedag. Holandesa que não sou, poderia ter apenas me divertido e aproveitado as festas, os mercados de rua, as pessoas fantasiadas e tudo mais, mas havia uma coisa no ar que não me interrompia o encantamento. Os holandeses festejam, não só a rainha (ou, agora, o rei - leia mais no genial Ducs Amsterdam), mas o orgulho que sentem de serem filhos dessa terra. Nunca vi nada assim no Brasil. Ninguém se vestiria de verde-amarelo fora dos jogos da Seleção, pelo simples fato de que a gente se esquece de celebrar o lugar incrível de onde viemos. Quando os holandeses em plena Dam Square gritavam "Bedankt, Bea", eles agradeciam não pelas excentricidades de ter uma família real, mas pelo lugar laranja e mágico onde estão.

Ok. Vocês podem dizer que estou sendo equivocada e que os holandeses sequer se lembravam de patriotismo algum enquanto dançavam loucamente nos barcos-festa que cruzavam os canais de Amsterdam. Concordo. Mas está intrínseco, entendem? Pergunte a eles qualquer coisa sobre a Holanda e você vai ver o peito estufado, pronto pra briga. Na última semana, recebi uma carta do governo questionando o motivo de eu não ter completado meus estudos. É que sou registrada na cidade, mas não constam registros escolares ou coisa assim. Então, eles vêm bater na nossa porta pra saber por quê. E não é só isso, eles te dizem "olha, você não estudou, mas a gente quer te dar uma oportunidade de concluir a escola e, também, de arrumar um emprego". Dá para entender porque eles podem se orgulhar, e não estou falando só de tulipas e cervejas.

Não vou tatuar um mapa do Brasil em mim ou pregar um patriotismo esquecido nos anos de meus avós (se é que ele existiu!). Não quero uma família real no Brasil, nem achar que o que acontece aqui é mais bonito que lá. Imagino os queixos caídos dos holandeses se presenciassem nossos carnavais, nossas serenatas, nossos ritos. Eles não fazem ideia do que é uma praia de verdade! Mas, recuperados os instintos de me encantar, não posso mais deixá-los partir.

Quero carregar comigo tudo que acumulo por aqui, mas preencher ainda mais a bagagem com tudo que meus olhos já se cansaram de ver. Quero sentir os olhos exaustos que me encontram todos os dias, apreciar as velhas histórias que já sei de cor.

Quero, em espanhol, holandês ou português, a chance de abrir os olhos e me encantar todos os dias.

9 comentários:

Anônimo disse...

Lindíssimo esse texto. Adorei! Parabéns,Você escreve muito bem.

Andréia Fernanda disse...

Adoro teu blog e o jeito que você escreve.
Parabéns. :)

JBosco Gouthier disse...

depois comento, aprendi!

Lucas Garcia disse...

tantas palavras que no final deixam a gente sem palavras

Mariana Barbosa de Amorim disse...

seus textos sempre me encantam!

luandinha =) disse...

adoro ler os seus posts, sempre me fazem sorrir. encantada :)
e mais louca ainda pra conhecer barcelona!

Anônimo disse...

Dora, no outro post, tu comentaste que seu namorado vive na França. Sei que é uma questão pessoal, mas poderia nos dizer se foi no intercambio que o conheceu?

Thamy Gibson disse...

owwnn déborah!!! lá vai vc de novo me deixando sem palavras!! :) muito muito muito lindinho esse seu post! adorei!!

Nadja disse...

Que lindo demaiiiiiis Deh!!! Adorei... sabe que festa que eu curto demais aqui no Brasil? É época de copa... sério, clichezaço brasileiro, mas eu amo., Amo sair na rua de verde e amarelo depois de um jogo e ver todo mundo igual... amo sentir que é um momento que todo mundo se sente da mesma forma, sem os preconceitos básicos do dia a dia.
Cada ano que passa, isto fica mais distante, é aquela história de violência e medo... mas ainda existe, ainda encontro locais onde o amor é puro e a felicidade também e é compartilhada.

Da mesma forma, aí em laranja, e aqui em verde e amarelo...

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