domingo, 3 de fevereiro de 2013

Uma das coisas que sempre me interessou sobre os holandeses era a fama de eles serem super cabeça aberta. Claro, era um estereótipo. E como com todo estereótipo, eu tinha cá as minhas dúvidas sobre ele. Algumas das coisas que me disseram sobre a Holanda antes de eu vir mostraram-se totalmente enganosas. Mas, por sorte, essa fama de "open minded" não me decepcionou.

Na véspera da minha vinda, uma amiga da família disse para os meus pais: "Eu não deixaria minha filha ir pra Holanda nunca! Aquele lugar é uma loucura, só perdição." E essa é mesmo a Holanda - dos turistas.

A Holanda pra turista ver é basicamente a Red Light District em Amsterdam. É um coffee shop a cada cinco passos, são as luzes vermelhas das mulheres que se exibem e se prostituem dentro das janelinhas de vidro, são as baladas, as cervejas, e... só. No máximo, alguém vai se lembrar das casinhas coladas umas às outras. Mas apesar de essa ser a imagem vendida lá fora, os holandeses nem sequer se orgulham dessas coisas. Claro que tudo isso só funciona por uma razão da qual, aí sim, eles se gabam bastante: aqui tudo é feito direitinho, organizado e legalizado, sem dar chances pra virar bagunça, como poderia acontecer em lugares com uma cultura diferente da deles.

O problema é que os holandeses têm tanto mais para mostrar, para oferecer ao turista, que é até chato que seja essa a imagem "comercial" do país. Para acabar com isso, alguns grupos políticos daqui até tentam criar leis para acabar com os coffe shops e com a própria Red Light, que são super atrativos da capital. No último réveillon, o prefeito de Amsterdam, que é dessa ala mais conservadora, impediu, inclusive, que fossem feitas festas públicas na rua, com shows e tudo mais que pudesse atrapalhar o lindo sono das famílias holandesas. E apesar de esse cara ser um extremista, no geral, eles não se orgulham nem um pouco de ser a "terra da perdição", eles não fumam maconha loucamente, eles não não não e não para todos os estereótipos. Mas os holandeses não te julgam se você fizer qualquer uma dessas coisas. E, para mim, é aí que está o xis da questão.

No Brasil, a gente julga porque o cara do lado tá ouvindo uma música ruim, ou porque bebe demais, ou porque tá usando uma calça xadrez com blusa listrada, ou porque decidiu que é bissexual. Claro que isso é uma coisa absolutamente individual, e o julgamento quem constrói é a gente mesmo, com nossos preconceitos internos. Mas, por aqui, é bem naquela de ninguém vai se importar com o que você fizer mesmo.

Bussum, a cidade onde moro, é conhecida como a "Beverly Hills da Holanda", porque é um lugar onde mora muita gente rica, muito artista, coisas assim. Mas eu passo por eles todos os dias e nem sei! Não só pelo fato de que não sou daqui, mas porque eles não precisam desfilar em carros luxuosos e casas gigantescas. Em alguns bairros as casas são maiores, mais bem decoradas, mas ok, é só isso. Você não vê aquela disputa de quem tem a casa mais bonita do condomínio fechado ou quem tem o carro da moda. E, claro, de casacos de neve todo mundo parece que está vestido mais ou menos igual, não tem aquela discrepância de quem está usando uma calça da Calvin Klein ou da feirinha!

Eles também não são assim tão superiores a ponto de não julgar. Uma das minhas recentes descobertas, por exemplo, foi de que eles não são nem um pouco abertos quando o assunto é tatuagem. Ok, você pode ser preto, branco, azul, gay, hetero, usar roupa rasgada ou não, mas tatuagem pra eles é uma coisa "trash", como definiu uma holandesa que conheci ontem. O pai dela é todo tatuado, então ela cresceu achando isso normal. Mas contou que, na prática, não pode deixar nenhuma das suas três tatuagens à mostra enquanto está trabalhando e que dificilmente seria contratada por uma grande empresa daqui por conta disso.

Claro que por aqui existe gente esnobe, gente preconceituosa, gente chata. Isso existe em qualquer lugar. Mas eu nunca ouvi um pai brasileiro dizer com tanta naturalidade: "Poxa, meu filho tem uma tendência meio gay". E, diante da minha cara de espanto, ainda completar, rindo: "Hahaha, eu não me importo. O que vale é que ele seja um cara divertido, sabe? Prefiro que ele seja conhecido como 'aquele cara legal' do quê como 'aquele cara super inteligente' ou qualquer coisa assim. Quero que ele seja feliz - o resto, por mim, tanto faz".

Sou dessas que comenta se a menina do lado tem um cabelo muito feio e que anda desconfiada e com medo se tem alguém meio mal encarado andando por perto. Confesso. Não me esqueço de uma aula de antropologia que tive na faculdade, em que o professor falava sobre preconceitos e afirmou que o primeiro passo para se livrar de um era ter a consciência dele, sem a hipocrisia de dizer: "Sou muito bacana, não tenho preconceito com nada". Eu julgo e aposto que você também.

E essa é uma das coisas holandesas que quero carregar comigo sempre. É o sentimento de que, se a pessoa é feliz daquele jeito, tá tudo certo, tudo bem. O resto, por mim, tanto faz.

*Crédito da imagem: Google

6 comentários:

Letícia disse...

Sabe aquele texto que você me passou hoje dizendo que é maravilhoso e que você queria ter escrito? Sem hipérbole nenhuma: o seu tá muito melhor que aquele!

Amei e assino embaixo de cada palavra que você escreveu.

<3

Lucas Garcia disse...

É bem verdade mesmo, mas esse pai falando isso aí realmente impressiona qualquer brasileiro open minded! Ponto pro Thijs! :)

Mariana Barbosa de Amorim disse...

eu AMEI esse texto! a ideia de mentalidade aberta foi o grande motivo de eu ter investido no Au Pair aí. os brasileiros tem muito a aprender com os holandeses, e acho que com os europeus de forma geral (sem generalizar, hiehihue). eu aprendi muito com a Biologia e a vida acadêmica de forma geral sobre como o preconceito e os julgamentos são apenas atrasos de vida. espero poder aprender muito mais e poder escrever textos lindos assim sobre a cultura estrangeira!

Laysa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Laysa disse...

This openmindness caught my mind too, I guess Brazilian people or Algerian should learn from that for sure but somehow I like the way it is here or in Brazil. I think it's related to our temperament, you know we people from the south, we have a "hot blood" as we say here! we speak too much, we love fighting for shits, criticizing and gossiping make part of our daily life! and honestly I love it! I mean it's not harmful, it's funny acctually! When I'm in Brazil for example or in Europe, while walking arround I see a person wearing something totally weird, I kind of smile, and think damn I wish one of my friends were here, we'd probably make fun of it for a while! but I just smile and keep going because I don't think someone else out of my culture would understand it! they'd just think I'm being rude and mean or whatever! it's not the point! it's just that it's humor, I'd never be harmful with someone because he's a man wearing a hot red dress that I'd never wear! I'll just smile and think how sexy he is! and that's all ^^
Anyway! all this to say, yeah Dutch people may be openminded but I'd never change Algerian craziness, they should become more openminded sure, but they should keep this "talkative mood" that I love so much!

luandinha =) disse...

realmente essa coisa dos holandeses é de se admirar! e a minha host family me adorou e tudo o mais, quando eu falei que tinha tattoos e piercings quase fui dispensada, acredita? haha mas deu tudo certo!

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