Mas devo dizer que, apesar de maravilhosa, uma das coisas que mais marcou essa viagem foi o fato de eu estar passando mal. E muito, devo dizer. É até engraçado, porque em todas as minhas viagens até agora algo deu errado. Eu já passei mal, já me atrasei, já cancelaram meu trem, já entrei no trem errado, já já já e já milhares de coisas. E eu nunca me dei ao trabalho de contar nada disso por aqui, porque no final, é sempre pequeno perto de tudo de lindo que meus olhos viram. Mas na vida real, eu chego de viagem e já digo pras amigas: senta que lá vem história! - porque sempre tem alguma mini-tragédia pra contar.
Dessa vez, eu confesso que passei a viagem inteira resmungando, porque não dava pra acreditar que eu tinha chegado até lá e iria "desperdiçar" o momento daquele jeito. Eu tive de tudo um pouco: desmaio, sinusite, dor, diarreia, vômito, blábláblá. Consegui aproveitar bastante, mas aquela não era eu no meu estado normal e aquilo me irritou profundamente. E quando eu voltei: pam! Tive que me cuidar sozinha - e agora, finalmente, chegamos no x da questão desse texto.
Meus hosts tinham viajado também e as crianças chegariam só no dia seguinte pra ficar comigo. E não dava mais para esperar, porque nenhuma mágica ia me fazer ficar boa do dia pra noite, mas especialmente, porque não tinha minha família pra me medicar ou plantão da Unimed pra me atender a qualquer hora. Eu fiz uma jantinha-de-doente e passei a noite sozinha, fui ao médico e comprei remédios sozinha. Isso tudo, claro, em holandês, sem saber como funcionava nada do meu seguro, e obviamente, de bike.
No final - fiquem calmos! - deu tudo certo, eu sobrevivi e alguns dias depois já estava bem melhor. Mas fica aquela coisa de "me virei", sabe? Você se vira, mesmo que não saiba como isso aconteceu. É como diz o ditado, a necessidade faz o sapo pular. Você se vira, você aprende, e os dias vão passando numa velocidade que não se explica.
Na última semana eu completei quatro meses de Holanda. Quatro meses que são muito pouco pra quem ainda tem tanto pra ver, mas que já são tanto se analisadas as saudades do Brasil e os tantos laços criados por aqui. Em quatro meses, eu já consigo pedalar na chuva ou na neve e até com a bakfiets lotada e atéé (admirem-se!) ocupar uma das mãos com outra coisa que não seja a direção. Em quatro meses, eu já consigo aderir ao dutch-way-of-life e me planejar com mais antecedência e a ser mais objetiva. Em quatro meses, eu já amei e odiei minha host family, mas construí com eles um sentimento forte e sem nome, mas que eu sei que nunca vai ter fim.
Em quatro meses, quem sou eu chorando ao ver as fotos de todos os amigos juntos na formatura da minha melhor amiga? Quem sou eu trocando fraldas com uma mão só? Quem sou eu me curando da dor física ou da dor muda que é a saudade? Quem sou eu me apresentando como Dora? Quem sou eu pintando os cabelos de uma amiga numa tarde de sábado? Quem sou eu criando todos esses laços do outro lado do mundo? Quem sou eu descobrindo todas as vantagens e desvantagens de ser quem eu sou - não quem eu deveria ou poderia ser.
Quatro meses e ainda é só um terço. Um terço do ano ou de toda a chance que eu tenho pra descobrir: o mundo, a minha casa, a minha paz, a minha cara. Abro os braços pra me receber todos os dias.