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quarta-feira, 10 de abril de 2013

Algumas coisas são impossíveis de contabilizar. Não dá pra contar quanta riqueza eu estou ganhando ou perdendo aqui. E o termo é riqueza mesmo, pela duplicidade de sentidos que ele implica. Eu sempre acho graça quando alguém questiona viagens ou intercâmbios, dizendo que "o fulano perdeu um semestre na faculdade porque estava na Conchinchina", ou "o beltrano abandonou um bom trabalho pra ir pra FimDoMundoTown", ou "o quê diabos essa menina acha que vai conseguir tentando aprender holandês?".

Será que a gente perde mesmo?

Claro que acho que não, se não eu não estaria aqui me encaixando em todas as críticas possíveis. Mas a questão é que acredito profundamente que isso vai muito além de não-perder. E se há alguma coisa que eu quero poder não contabilizar mesmo é o quanto vou ter ganhado ao final deste ano. Das minhas últimas jornadas, por exemplo, trouxe comigo uma moeda tcheca e o amor pela França. Pera lá, eu explico.

No feriado de Páscoa (ah! aqui a gente tem o domingo, mas também a segunda-feira de feriado), botei a mochila nas costas e fui pra Praga, a capital da República Tcheca. A cidade é deslumbrante, diferente de tudo o que eu já tinha visto até então, não só pela arquitetura maravilhosa, mas por peculiaridades como a moeda e a língua. Por lá, o seu dinheiro se multiplica, já que, quando você paga 30 coroas numa cerveja, a conversão faz plim! e você descobre que aquela foi a cerveja (maior e) mais barata da sua vida (cerca de 1,4 euros) - inclusive, falando nisso, por essas e outras os tchecos consomem o maior volume per capita de cerveja no mundo! A língua tcheca também é genial, uma coisa de bêbado (como diria a Helô, minha companhia querida nesse pedaço do Leste europeu), absurda e escrita com acentos circunflexos de ponta cabeça, além de outros sinais gráficos que eu praticamente desconhecia (e olha que eu moro num lugar onde se fala holandês!). Saiba mais e divirta-se clicando aqui (atenção! clica onde tem escrito "listen").

A Lennon Wall (eu faria um texto inteiro só pra ela, porque não dá pra explicar o impacto que tanta cor e diversidade me causaram!), a Charles Bridge e suas luzes, a Dancing House, os mercadinhos, o relógio astronômico... A cidade toda é linda, apesar de estar terrivelmente lotada de turistas que, como eu, queriam tentar extrair um pouco da atmosfera daquele lugar. Assim como senti em Berlim, a cidade é pura história e isso é notável em cada canto, em cada pedaço de revolução, em cada mudança política pela qual o povo da Boêmia passou. Eu até comentei que o mínimo que os tchecos podem fazer é ser mesmo poetas e filósofos ou qualquer outra categoria "intelectual", que é como uma retribuição por viver num lugar daqueles.

Umas semaninhas antes, coloquei o pé na estrada de novo em direção a Paris. E uma semana depois de Praga, novamente Reims. Se você visitar o blog mais para trás, vai ver que as duas são cidades repetidas, e pode até pensar que "figurinha repetida não completa o álbum", mas nesse caso, o ditado não tem razão. Nas duas vezes, o fato de o Lucas (o namorado!) estar morando na França foi a desculpa perfeita para fazer as malas mais uma vez. Mas caminhando com ele por uma das pontes que cortam o Sena, eu não podia deixar de dizer do meu amor pela França. Eu já sabia que isso aconteceria, afinal, não é coincidência esse meu sobrenome e a minha paixão pela língua francesa. Mas agora, aqui, assistindo as paisagens dos campos verdes que cercam a região de Champagne-Ardenne ou suspirando ao ver as luzes da Torre Eiffel se acenderem (eu vou sempre suspirar por ela!), eu percebo que não há mais saída. A França ganhou meu coração e, possivelmente, eu repetirei as figurinhas muitas outras vezes.

Meus hosts brincam que no final deste ano, eu vou ter conhecido mais lugares do que eles, que nasceram e moraram a vida toda nessa Europa-linda-de-meu-deus. Uns amigos holandeses (os que me deram carinho e carona rumo à Reims) disseram o mesmo e, na verdade, eu já conheço mais coisas do que eles. E, talvez, se eles fossem morar um ano no Brasil  conheceriam mais paisagens incríveis do que eu jamais vi na minha própria terra. E olha que eu já vi um bocado de Brasil, devo dizer! Inclusive, foi daí que veio essa minha vontade enorme de abraçar o mundo, porque ela me foi ensinada no berço - nas inúmeras viagens de carro, avião, ônibus, barco ou o que quer que ligasse dentro do meu pai o alarme de "vambora!". 

Mas ainda me cabe mais tanta coisa... Quero muito mais moedas, fotos, postais, amores-geográficos e lembranças infinitas, porque, pelo menos por enquanto, é isso que mata a minha fome.

E eu tenho muita, muita fome.

quarta-feira, 20 de março de 2013


“Why do you go away? So that you can come back. So that you can see the place you came from with new eyes and extra colors. And the people there see you differently, too. Coming back to where you started is not the same as never leaving.”

(Terry Pratchett)

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Eu fico esperando a hora de postar, como se minhas palavras só fossem ter graça diante de uma viagem incrível ou um apontamento interessante. Mas hoje resolvi que não, nem sempre.

Do último post pra cá, eu tive sim uma viagem linda. Fui pro Reino Unido, numa viagem de um final de semana só, mas conheci Edimburgo (a da foto), Durham e Newcastle Upon Tyne - respectivamente, a capital da Escócia e duas cidadezinhas fofas no norte da Inglaterra. E o que eu vi foi tudo aquilo que a gente lê sobre eles e acha que é exagero dos livros, filmes e seriados: a universidade de Newcastle, os táxis, os telefones públicos vermelhos, o sotaque maluco. Edimburgo é uma cidade peculiar, toda pintada em tons de verde musgo e coberta pelo som de uma gaita de fole que não dá pra saber se toca de verdade ou só dentro da gente. Durham é estar dentro dos cenários do Harry Potter e entender um pouquinho de onde veio toda a imaginação borbulhante da JK Rowling. Newcastle é se sentir em casa por estar na casa de alguém que é tão de casa. Explico: a companhia da vez era a Fernanda, minha prima que nunca precisou de sangue igual pra me ser tão querida.

Mas devo dizer que, apesar de maravilhosa, uma das coisas que mais marcou essa viagem foi o fato de eu estar passando mal. E muito, devo dizer. É até engraçado, porque em todas as minhas viagens até agora algo deu errado. Eu já passei mal, já me atrasei, já cancelaram meu trem, já entrei no trem errado, já já já e já milhares de coisas. E eu nunca me dei ao trabalho de contar nada disso por aqui, porque no final, é sempre pequeno perto de tudo de lindo que meus olhos viram. Mas na vida real, eu chego de viagem e já digo pras amigas: senta que lá vem história! - porque sempre tem alguma mini-tragédia pra contar.

Dessa vez, eu confesso que passei a viagem inteira resmungando, porque não dava pra acreditar que eu tinha chegado até lá e iria "desperdiçar" o momento daquele jeito. Eu tive de tudo um pouco: desmaio, sinusite, dor, diarreia, vômito, blábláblá. Consegui aproveitar bastante, mas aquela não era eu no meu estado normal e aquilo me irritou profundamente. E quando eu voltei: pam! Tive que me cuidar sozinha - e agora, finalmente, chegamos no x da questão desse texto.

Meus hosts tinham viajado também e as crianças chegariam só no dia seguinte pra ficar comigo. E não dava mais para esperar, porque nenhuma mágica ia me fazer ficar boa do dia pra noite, mas especialmente, porque não tinha minha família pra me medicar ou plantão da Unimed pra me atender a qualquer hora. Eu fiz uma jantinha-de-doente e passei a noite sozinha, fui ao médico e comprei remédios sozinha. Isso tudo, claro, em holandês, sem saber como funcionava nada do meu seguro, e obviamente, de bike.

No final - fiquem calmos! - deu tudo certo, eu sobrevivi e alguns dias depois já estava bem melhor. Mas fica aquela coisa de "me virei", sabe? Você se vira, mesmo que não saiba como isso aconteceu. É como diz o ditado, a necessidade faz o sapo pular. Você se vira, você aprende, e os dias vão passando numa velocidade que não se explica.

Na última semana eu completei quatro meses de Holanda. Quatro meses que são muito pouco pra quem ainda tem tanto pra ver, mas que já são tanto se analisadas as saudades do Brasil e os tantos laços criados por aqui. Em quatro meses, eu já consigo pedalar na chuva ou na neve e até com a bakfiets lotada e atéé (admirem-se!) ocupar uma das mãos com outra coisa que não seja a direção. Em quatro meses, eu já consigo aderir ao dutch-way-of-life e me planejar com mais antecedência e a ser mais objetiva. Em quatro meses, eu já amei e odiei minha host family, mas construí com eles um sentimento forte e sem nome, mas que eu sei que nunca vai ter fim.

Em quatro meses, quem sou eu chorando ao ver as fotos de todos os amigos juntos na formatura da minha melhor amiga? Quem sou eu trocando fraldas com uma mão só? Quem sou eu me curando da dor física ou da dor muda que é a saudade? Quem sou eu me apresentando como Dora? Quem sou eu pintando os cabelos de uma amiga numa tarde de sábado? Quem sou eu criando todos esses laços do outro lado do mundo? Quem sou eu descobrindo todas as vantagens e desvantagens de ser quem eu sou - não quem eu deveria ou poderia ser.

Quatro meses e ainda é só um terço. Um terço do ano ou de toda a chance que eu tenho pra descobrir: o mundo, a minha casa, a minha paz, a minha cara. Abro os braços pra me receber todos os dias.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Eu tava bipolar em relação a esse post: ao mesmo tempo louca pra escrever e evitando isso ao máximo. Porque há uma possibilidade bem grande de chorar tudo de novo antes que o texto e a palavra acabem. Mas vou apostar na possibilidade oposta, de que as palavras e as lembranças saibam se guardar de um jeito mais gostoso que todo o resto.

Nessa última quinta-feira, me despedi da minha família pela segunda vez. E aí eu começo contando pelo final, de como achei que nunca mais ia parar de chorar quando me vi acenando sozinha e infinitamente para a Isa, Wilma e meu pai no aeroporto de Amsterdam. Eu juro que achei que nunca mais ia parar de chorar na vida. Mas parei, e não demorou tanto quanto parecia. Parei, porque - poxa vida!, quantas outras intercambistas têm a chance de matar as saudades no meio do caminho como eu tive? E ainda mais, quem é que tem a chance de ter uma família tão incrível quanto a minha?

Eles passaram uns 18 dias viajando pela Europa - Barcelona, Roma, Paris, Reims, Bruxelas, Bussum, Amsterdam. Gastaram muito mais que podiam, adoeceram de tanto frio e de tanto andar, e eu já tenho certeza que esses terão sido alguns dos dias mais felizes do meu ano laranja. Ninguém mais poderia me ofertar tanto sorriso, tanto amor.

Nosso primeiro encontro foi em Roma. Peguei meu final de semana de folga e meu primeiro avião aqui para encontrá-los no lugar mais quentinho dos últimos meses. Que delícia ver o sol! Eu não conseguia parar de me encantar com o céu azul e o solzinho que até me deixava tirar um pouco dos casacos. Tínhamos marcado de nos encontrar em Termini, a estação central de lá, e eu duvidei que meu pai não teria um ataque cardíaco de me imaginar pegando uma bike, um trem, um avião e um ônibus para encontrá-los. Mas ele sobreviveu a isso e a todos os outros meios de transporte e baldiações e caminhos com neve que me viu atravessando! Eu estava meio perdida naquela estação gigante e resolvi atravessar de um lado para o outro para tentar achar algum rosto menos italiano. Foi então que vi um homem de chapéu, andando engraçado, se sacudindo de um lado para o outro, e que não poderia ser ninguém menos que meu pai. Não me lembro mais o quê, mas sei que comecei a dar gritinhos e sai correndo para o abraço mais apertado e esperado da vida. Meu coração se encheu de combustível vezes três, a cada abraço.

Daí em diante, só sorri. Comi pizzas, massas, panetone, gelattos incríveis. Joguei moedinhas com a Isa na Fontana di Trevi, visitei o Coliseu (Jader, entrei por você!!), as ruínas do Fórum Romano, o Panteão, o Vaticano (na foto aí de cima), a Basílica de São Pedro, e todas aquelas ruas e monumentos sem fim. Roma é, de fato, uma cidade para se maravilhar (ou, para "comer, rezar, amar", se preferirem). Você vira uma humilde esquina, seguindo o caminho do mapinha, e pá! Do nada te aparece uma construção gigantesca, cheia de detalhes e de nada mais-nada menos que mais de dois mil anos de existência.

Quase perdi o voo de volta (não confie no transporte público italiano!), mas deu tudo certo no final e cheguei para mais uma semana de trabalho, enquanto eles partiam para Paris, onde fui encontrá-los novamente na outra sexta-feira. Andamos o dia todo, pude ver meu parisiense-favorito novamente (salve, Pedro!) e me apaixonei ainda mais pela cidade, agora acompanhada da guia mais bacana e divertida de todas e que consegue amar Paris a cada esquina, mesmo passando mal. E sim, finalmente, meus caros: fui na Torre Eiffel! (aplausos aqui..)


No dia seguinte, fomos pra Reims, a cidade do champagne e do Luquinhas. Além de uma Catedral de Notre Dame (essa da foto ao lado!) ainda mais bonita que a de Paris, a cidade tem um charme enorme e é muito mais bacana do que meu namorado humilde-em-descrições me deixava imaginar. Visitamos a cave do Champagne Pommery, a universidade e a casa do Lucas, e conseguimos a peripécia de fazer a família toda jantar um delicioso kebab. De lá, na manhã seguinte, partimos para cerca de cinco horas em Bruxelas - a menor parada do nosso roteiro. Apesar de estar quase morrendo congelada, conseguimos ver alguns pontos turísticos como a Grand Place (da foto abaixo!), o Manneken Pis e o Parque de Bruxelas, além de claro, todas as gostosuras belgas como chocolates, waffles, batatas fritas e cervejas.

De lá, trouxe meus lindos deslumbradinhos com a neve para essas terras que já estou chamando de minhas. Trabalhei só na segunda-feira, e tive o resto da semana toda de folga, já que meus hosts são incríveis e se solidarizaram com as minhas visitas. Andamos longamente pela neve em Amsterdam (-8 graus, minha gente!), jantamos com a super-querida família da Helô, fomos ao Madame Tussauds, às lojas de queijo, comemos comida tipicamente holandesa (vai vir um post só pra isso, eu juro), congelamos os dedos dos pés inúmeras vezes, compramos presentes e, o mais bacana de tudo, eles vieram na minha pequena Bussum conhecer a minha casa, minha rotina e a minha host family. Preciso dizer quanto amor explodia de dentro de mim?

Juntar essas duas famílias foi inacreditável! Ver a Wilma segurando a Valentine, a Isa se divertindo com as piadinhas do Thjis, meu pai fazendo mágicas para o Lucas e a Noor impressionando todo mundo com um jantar super lindo e chique, preparado especialmente praquele encontro foi... - sem palavras. Eles se entrosaram bem, todos se adoraram apesar da dificuldade linguística, e no fim, meu pai ainda conseguiu soltar umas emocionadas frases de agradecimento, completadas com a promessa dessa minha família dutch de que vai continuar cuidando assim, tão bem de mim. Se eu já não tinha dúvidas quanto ao afeto, agora é também uma questão de honra.

Eu não poderia estar mais feliz. Foi como estar de férias, como juntar meus sonhos todos numa mesma caixinha. Viajar junto faz as pessoas se conhecerem melhor, realça os defeitos e qualidades, e faz a gente se ver melhor também. A minha cumplicidade com a minha irmã, meu respeito e carinho pela minha madrasta, meu amor ilimitado pelo meu pai serão sempre uma parte essencial da bengala em que eu me apoio todos os dias. Quando tá difícil ou quando tá legal.

Não dá pra descrever o tamanho da minha saudade de casa, e do Brasil. De cada um de vocês que se deu ao trabalho de chegar até o final desse post imenso. Mas também não dá pra descrever o quanto de amor e gratidão estão em mim agora, especialmente por esses três, que fizeram meus dias tão maravilhosos durante toda a vida e ainda mais nessas últimas semanas. Obrigada por cada croissant, cada palhaçada, cada foto, cada centavo de euro, cada conversa, cada cada cada...

Como diz meu pai, já não quero mais pensar em "até outubro!" - outubro tá longe e dói. Por enquanto, prefiro pensar assim "tot ziens", "até a próxima!".

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013


Depois de uns dias de folga, voltei a trabalhar hoje e não conseguia parar de repetir: putz, já é janeiro. Dezembro chegou e passou feito brisa, tamanha a expectativa que eu tinha sobre ele. O clima de férias começou com um jantar de Natal que eu fiz em casa pras amigas daqui de Bussum. Fiz comida bonitinha, petiscos, uma finesse! E o mais engraçado é que eu estava trabalhando nesse dia: as crianças dormiam no andar de cima, enquanto a gente se empanturrava lá embaixo.

O convidado especial da noite foi o Lucas - não o meu pequeno, mas o namorado. E, como sempre, ele ganhou todos os corações possíveis. Acho que gastei quase um mês para conseguir que o Lucas (pequeno) me desse um pedacinho do abacaxi que ele comia, ou me desse beijo de boa noite, coisas assim. O Groot-Lucas (Lucas-Grande, como a gente ensinou o pequeno a chamar!), em compensação, já chegou na intimidade, ganhando comidinha na boca e tudo mais. Foi amor a primeira vista e os dois agora são melhores amigos.

Depois de experimentar um pouquinho da minha vida de au pair (já que ele trabalhou arduamente comigo durante o tempo que esteve aqui), eu e o Lucas fomos pra Berlim. A primeira coisa que eu disse quando voltei de lá foi que eu já queria voltar. Minhas amigas fizeram piada, dizendo que eu disse a mesma coisa de Paris. Mas não dá pra ser diferente...

Bom, o ponto negativo da viagem foi o Natal. Não pela data em si, mas pelos feriados (na Alemanha, é feriado de Natal nos dias 24 e 26 - aqui na Holanda, dias 25 e 26) que fecharam tudo na cidade. TUDO, Brasil. Essa Europa tem disso, não existe essa de cidade que nunca dorme, feito São Paulo ou NY. Em compensação, tirando esse detalhe de a ceia ter sido um kebab de rua, foi maravilhoso.

Berlim borbulha história. Cada esquina é uma página daquele teu livro do ensino médio, que você não deu bola direito e de repente faria tudo pra lembrar dos detalhes. Holocausto e Guerra Fria são só nomes próprios pra um sentimento que não tem nome. Caminhar pelo Campo de Concentração de Sachsenhausen é de embrulhar o estômago, é um calafrio na alma. Sem dúvidas, a energia mais sinistra que já senti na vida. E é impressionante a força da reintegração de uma cidade dividida por um muro, que era concreto, mas, mais ainda, moral.

Berlim é um redescobrir-se constante - entre os blocos do Memorial do Holocausto, entre os restos do Muro, nas cervejas, nas esquinas pouco iluminadas, nos homenzinhos do semáforo, nas conversa de quartos de hotel.

Voltei pra passar o Reveillon em casa, na Holanda, mas novamente em boa companhia. E devo dizer, que foi só o que salvou. Tive dias ótimos e fiz o que quase nunca faço, que é turistar de fato em Amsterdam, mas a "virada" em si foi o caos. Me avisaram antes e agora me sinto na obrigação de passar o aviso pra frente: não existe Amsterdam de verdade no Reveillon. A cidade se transformou no inferno na terra, com todos os seus males acentuados e jogados na nossa cara como se fosse um filme em 3D. As lojas fecham, os trens param, não tem festa pública (como a gente encontra em toda e qualquer cidadezinha do Brasil), os fogos são mixurucas, as festas e pubs ficam super caros e o frio e a chuva não sabem respeitar sequer os primeiros minutos do ano que começa.

Teria sido mais uma das minhas tragédias cômicas na Europa, se eu não tivesse um abraço-amigo pra fazer a contagem regressiva e estourar um champagne em plena Damrak à meia noite. Salve, Gabriel! Por ter sido o tempo todo uma excelente companhia e um exemplo da calma que eu preciso aprender a ter.

Outro fato interessante desses últimos dias foi a brasilidade. Berlim e Amsterdam explodiam em brasileiros - a cada museu, a cada sussurro, a cada rua atravessada. E a brasilidade, ah... a brasilidade salta sobre os nossos ombros. É impossível não conversar, não ficar amigo num segundo, não descobrir a vida toda do outro no segundo seguinte, não sorrir de ouvir a língua materna, não sentir esse sorriso interno que só a gente tem.

A chuva, que não deixou nem uma pontinha de mim à seco, levou com ela o 2012. E dessa vez, não tive o que pedir pro ano que entrou. Quero só agradecer. E quero a surpresa do dia-a-dia, como me tem sido ensinado por aqui - nesse ano laranja que começou não em primeiro de janeiro doismiletreze, mas em vinte de outubro de doismiledoze.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Crédito: Letícia Pomaleski - mais esperta que eu, foi fotografar
Depois de alguns dias sofrendo na expectativa e conferindo a previsão do tempo a cada duas horas, hoje - de fato - nevou. Não fui pro meio da neve ser feliz, nem tirei fotos, nem fiz um boneco com nariz de cenoura. Fiquei olhando a chuvinha virar gelo da janela, plácida. Aos poucos, a mesa que fica no jardim foi mudando de cor, até parecer que vestia uma capa de chuva totalmente branca. Não me atrevi a sair pra pedalar e confesso que pedi pra todos os santos que a neve tivesse diminuído até a hora da minha aula. A prece deve ter sido mesmo forte, porque algumas horinhas depois... fim. A chuva fina de todos os dias veio e derreteu meu jardim branco.

Eu devo ter repetido mil vezes no último final de semana que estava com medinho da neve. E quando ela foi embora, poxa, eu fiquei desapontada. Tem um num-sei-o-quê de paz de espírito na forma com que aquilo acontece. Ainda bem que a previsão do tempo me mostra mais dias assim ainda essa semana. E, afinal, é só o começo. Winter is coming, agora é inquestionável.

Enquanto ele não chega de vez, eu vou fazendo os dias por aqui.

Fui pra Paris passar um final de semana e, quem diria, vi o Mickey, mas não fui na Torre Eiffel. Explico: não contava com isso, mas passei um dia na EuroDisney (que tava toda lindinha e decorada de Natal!). E além de ter me divertido horrores por lá, andei muito, comi maravilhosamente bem, fui num samba, vi o carrossel da Amelie, a Shakespeare and Company e a pirâmide do Louvre, senti o vento correr o Sena, passeei no Christmas Market da Champs Elysees e, sabe do melhor? Reencontrei duas pessoas maravilhosas e que me fizeram me apaixonar: por eles e pela cidade. Porque o amor pode estar num kebab que se come depressa, ou em dividir a casa a vida e as canções. A minha Paris vai ser pra sempre mais bonita que a dos outros.

De lá pra cá, a vida ganhou novo gás e mais saudades. Conheci novas pessoas e lugares aqui na Holanda mesmo. Fui em duas exposições bacanérrimas em Amsterdam (alô, Eye-lindo e Toetanchamon-divo!) e vi um espetáculo maravilhoso, em plena Dam (a praça famosa e cheia de turistas de Ams), debaixo de um frio como nunca tinha sentido igual. Fui numa balada de verdade (orgulhem-se de mim, amigos!), numa boate gay com uma festa temática de Sinterklaas. Conheci Haarlem, que é a capital da província de Noord-Holland (que é o "estado" em que se situa tanto Amsterdam, como a minha cidade) e onde se fala o holandês mais bem falado do país. E dormi na casa da Letícia, como fazem mesmo as amigas - fofocando até tarde, quebrando galhos e descobrindo que tudo pode ter mais graça quando dá pra dividir com quem se quer bem, com gente do bem.

E no fim, sabe o quê é? Quanto mais eu vejo do mundo, mais me apaixono pelas pessoas.

terça-feira, 13 de novembro de 2012


Desde que cheguei penso em escrever sobre Amsterdam, mas ainda não me sentia “pronta” pra isso. Ainda não me sinto, é verdade, e talvez por isso esse seja só o primeiro de vários textos que vão sempre retomar o assunto.

Ainda não visitei os pontos turísticos e óbvios da cidade, ainda não tirei fotos no clássico I Amsterdam, ainda não fui em nenhum único museu que seja. Mas agora me sinto mais perto da cidade, porque pude senti-la em meus próprios pés e pulmões. Respirei o ar gelado que corta as ruas principais com seus canais infinitos, o ar engordurado das ruas feitas pra turistas e os ares encantados das ruazinhas laterais repletas de coffeeshops.

Amsterdam (ou Amstedã ou Amsterdão, como preferir) é capital e maior cidade dos Países Baixos. E, para a minha alegria, fica situada a apenas 23 minutos (de trem!) da cidade em que moro, Bussum. Por conta disso, tive o prazer de ir até lá já algumas vezes em tão pouco tempo. E posso dizer, sem dúvida, que em Amsterdam a gente vê de tudo um pouco. Mulheres em vitrines vermelhas e folhas de maconha em banners coloridos são só a capa que colocam pra gente ver de longe, assim como fazem com nossos futebol e carnaval.

Todas as raças e credos misturados, vozes de todos os sons e culturas, comidas de todas as cores. Amsterdam é morar dentro de um barco no meio do canal, é ter portas abaixo do nível da rua e outras portas estreitas que terminam em predinhos amontoados de sabe-se-lá quantos andares. Amsterdam é ver o Nemo já de longe e o mercado flutuante de flores de perto. Amsterdam é o Artis, é arquitetura e design, é Anne Frank, é Van Gogh. É batata frita no meio da rua e é não conseguir ler nenhum nome de rua sequer. Amsterdam é o zunido das bicicletas e trams e trens e carros que seguem ininterruptos – imunes a mim, e meus olhos de comer o mundo.
 

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