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sábado, 19 de outubro de 2013

Não me lembro qual foi a última vez que dormi. As últimas semanas, dias, horas vieram feito um furacão. Quatrocentas e vinte e sete emoções por segundo. E agora, acabou.

Acabou o ano laranja, as inúmeras viagens, a correria com as crianças. Quase acabou o blog.


Passei o último final de semana em Paris e me dei conta que aquela era a minha quinta vez na cidade. Complicado admitir, mas a verdade é que a Cidade Luz tem um lugarzinho aqui dentro quase tão grande quanto o de Amsterdam. E talvez pra acirrar a disputa eu tenha insistido tanto naquele último "walking tour" na cidade dos canais. Fazia um tempo horrível na Holanda, que durou o final de semana todo. Mas aí eu me enfiei com facilidade naqueles bequinhos e apontei cada canto e cada rua de nome difícil como se tivesse vivido sempre ali. Amsterdam tem gosto de lar, e acho que é assim mesmo, porque por mais brasileira que eu seja, meu tantinho holandês vai pra sempre brilhar de orgulho por cada uma das coisas que eu vi por lá.


Recebi visitas lindas, ganhei presentes, afeto e gratidão. Na última noite, me despedi da Letícia com um nó na garganta e uma porção de lágrimas. Era só um "tot straks" - dizia eu repetidamente pro meu coração. Mas aí, sem mais melancolia, coloquei meus pés descalços na grama molhada do jardim pra olhar pro alto mais uma vez e admirar o céu de Bussum. Ainda nessa mesma noite, numa despedida, uma vizinha aconselhou antes de sair: "don't make it too big". And I didn't. O rush do aeroporto na manhã seguinte me impediu qualquer cena dramática que eu sabia antecipadamente que iria fazer. Lembro do olhar sonolento da Valentine, como que perguntando "o que é que tá acontecendo aqui?", e o Lucas se recusando a me dar um abraço decente, porque ele sim não estava entendendo nada, "ela não deve estar indo tão longe". Meus olhos marejados faziam companhia aos da Noor e da Isa. A eterna falta de palavras quando se tem tanto a dizer. Mas foi só. I'm trying hard not to make it too big, é o que eu sempre faço, não é?! Mas bem que o moço do controle de passaporte deve ter me achado estranha por chorar daquele jeito quando já não tinha mais ninguém olhando...


Depois que cheguei, não tive mais tempo pra chorar. Tem uma coisa impagável na vida que se chama "ser amado". E isso é algo que a gente sente no olhar. Eu vi amor nos olhos e na respiração de cada uma daquelas pessoas incríveis que foram me receber. Que encheram meu velho quarto de vida, que celebraram cada detalhe, que por alguma razão mágica me assistiam e por esse simples fato me faziam entender que eu estava sim, de volta ao lar. E com motivos assim, eu ainda não tive desculpas pra me entristecer.

A meta agora é levar a vida, pousar o avião, recordar sentidos, rever milhares de vezes as velhas fotos. Os olhos cansados, o peso nos ombros, o peito cheio. 
Não entrar em alerta ao ouvir o choro de uma criança. Não comer pão no almoço. Não ir até ali de bike, ou até acolá de trem. Não me preocupar em vestir dez peças de roupa. Não precisar dizer sempre: sorry, ik niet spreek Nederlands. 
Tentar recomeçar. Mais uma e quantas outras forem precisas. Sorrir pro futuro. Encontrar outras cores.

domingo, 1 de setembro de 2013

Hoje eu vi um bocado de gente comemorando nas redes sociais o final do mês de agosto. E eu queria ir lá em cada um deles e falar: sério mesmo?

Agosto pra mim teve duas caras. E ele tava me mostrando isso todo dia até que explodiu na minha frente quando a gente virou a folhinha pra setembro. Há um ano, nessa mesma época, eu estava preparando minhas coisas, arrumando malas, comprando presentes e me despedindo de um monte de gente. E agora estou aqui, fazendo exatamente as mesmas coisas, só que do ângulo contrário.

Agosto foi o mês que eu escolhi pra fazer tudo que me faltava na listinha laranja que um dia eu escrevi mentalmente. Ainda faltam alguns dias até voltar para o Brasil, mas setembro vai ser partido porque vou viajar quase o tempo todo. Saio de viagem com os hosts, engato nas minhas próprias férias e aí já é quase outubro. Mas disso eu falo pra vocês lá na frente...

Por enquanto, basta dizer que eu fui presenteada com o agosto mais longo de todos. Pra começar, me dei um castelo de presente de aniversário. Era um dia antes e eu, minha mochila e minha bike atravessamos doze quilômetros de uma liberdade que não me lembro de ter sentido outra igual. Eu ria, chorava e cantava bem alto pra celebrar sabe-se lá o quê. Talvez, a vida. Talvez, as escolhas sem sentido que levam a gente aos lugares que enchem os olhos e o coração. Naquele dia, o castelo de Muiderslot também me encheu as pernas de dores e os ombros de orgulho.

A continuação foi com um aniversário que me durou 34h, adicionados os devidos fusos e as devidas demonstrações de afeto. E quanto afeto! Não dá pra calcular, pra descrever, não cabe em qualquer medida que já inventaram. Não consigo dizer quanto amor coube em mim e, principalmente, quanta gratidão. Cada sorriso que carreguei naquele dia vai ficar guardado comigo pra sempre.

Menos de uma semana depois, e lá estava eu de novo, com aquele mesmo calorzinho no peito, aquela mesma sensação, quando meus olhos atravessaram o Rio Danúbio e me mostraram Budapeste muito mais linda do que eu podia imaginar. Os preços incríveis, a arquitetura, o verão nas pessoas, a companhia mais do que adequada, a língua bizarra, aquela atmosfera de gente jovem, moderna e feliz. E meu fôlego se acabando no amarelo. Budapeste me ganhou pra sempre com seus heróis, seus kürtőskalács, seus telhados coloridos e o som da risada da Lelê.

Foi também agosto que eu escolhi pra fazer o resto do turismo holandês que não dava pra ficar sem. Deventer, com a maior feira de livros da Europa; Den Haag, com seu Madurodam, o Binnenhof e a praia gelada; o Zaanse Schans e todos os clichês possíveis da Holanda, incluindo aí muitos moinhos (esse aí da foto abaixo, ó), vaquinhas, sapatinhos de madeira, queijos e stropwaffles; as cervejarias de Amsterdam; Delft, com a porcelana azul e branca, a história da família real, a igrejinha torta refletida nos canais e o (dito) melhor sanduíche do país; e, por fim, Rotterdam, a menos holandesa possível, com seu porto deslumbrante e a arquitetura da sobrevivência, com direito a pontes mega modernas e as Casas Cubos.


Agosto me deu muitos quilômetros a mais no meu cartão do transporte público, um tantão de dinheiro a menos, sapatos cada vez mais gastos e uma vontade de ficar mais um pouquinho pra decorar cada detalhe, cada esquina, cada nome impossível de pronunciar. 
As duas caras de agosto me mostraram que "partir" é uma coisa mesmo muito duvidosa. Partir e chegar é quase a mesma coisa. Só que coração não sabe nada sobre questões de referencial.

Hoje, primeiro dia do mês de setembro, eu vesti minha coragem e fiz as malas. Não pra voltar pra casa, mas pra mudar de casa. A primeira de três mudanças, dentro de poucos meses. Joguei um tanto de coisa fora, doei um outro tanto, guardei com carinho um tanto a mais. E aprendi que o apego deve estar com o que a gente carrega dentro da gente. Mais do que todos os souvenires que comprei ou as milhares de fotos que tirei, o que trago dentro de mim é que pesa mais. É aquele tal calorzinho do peito, a tal sensação de liberdade impagável, o amor incalculável - lembra? Olhando meu quarto semi vazio, entulhado de restos e de caixas, eu consigo agora sorrir o que já chorei. O tempo de agosto acabou. As lembranças vêm comigo.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Antes de qualquer coisa, eu sinto que devo pedir desculpas aos amigos e demais leitores que passam por aqui. Especialmente aos que dizem: poxa, cadê post novo? Não vou mentir dando qualquer explicações, mas confesso que já comecei esse novo texto uma porção de vezes e não saía.

Do último post pra agora, uma coisa essencial mudou: a contagem. Parece engraçado, mas até agora eu contava pra frente - completei um mês, três meses, quatro... Só que agora a contagem ficou invertida - faltam quatro meses pra voltar pra casa. 

Mas ainda falta tanto pra fazer! Ainda faltam tantos lugares que eu queria ir, tanta coisa pra experimentar. O tempo encurtou mesmo e de repente eu quis fazer cada segundo valer ainda mais a pena. As últimas semanas, por exemplo, foram um turbilhão de atividades, gente chegando, gente saindo. Particularmente, devo dizer, acho que sou a au pair mais sortuda do mundo, porque nunca houve alguém para receber tanta visita gostosa quanto eu. 

E isso ajuda tanto! Sentir o calor da nossa gente, o gostinho de casa, o som da nossa língua, tudo isso faz ficar mais fácil. Até porque essas presenças nos trazem, acima de tudo, muito afeto! E fazem pensar que, por mais que ainda falte tanto aqui, é por conta desse afeto que ainda dá vontade de voltar pra casa.

Uns dias atrás eu disse pra minha irmã que não, nem o frio, nem as dificuldades, nem a língua, nem nada disso dá vontade de voltar. Mas ao mesmo tempo, também não dá vontade de ficar. Não dessa vez. Não hoje. Não assim.

Mas como diz a minha host, ainda não está na hora de pensar nisso. Por enquanto, posso me contentar em sorrir com o dia ensolarado as dez da noite, em me preocupar com a bicicleta estragada, em me empolgar ao fazer as malas mais uma vez, em nunca me cansar de resmungar sobre meus resfriados e afins, em me deixar corroer de ansiedade com as novas visitas que estão pra chegar. Me contentar e me encharcar da rotina. Deixar respingar tudo em mim. 


Ps: Estive pensando em uma porção de perguntas que os amigos e aspirantes a au pair sempre me fazem e pensei em fazer um post estilo "FAQ", com as coisas que vocês mais querem saber. Alguma curiosidade a mais, clique aqui nos comentários e manda bala! :)

quarta-feira, 29 de maio de 2013

- Faz uma matéria pra gente sobre a Holanda?
- Faço, ué, mas qual pauta? Você quer que eu fale sobre o quê?
- Sobre a Holanda.

Impossível compactar. Reduzi aos clichês do meu coração.
Leia mais em:
http://blogacontece.com.br/um-tour-por-nederland-famosa-holanda/

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Eu poderia falar nesse texto sobre como adorei Barcelona. Sobre como o clima era agradável, como é tudo lindo, como as cores e paladares me abasteceram os pulmões. Poderia descrever como a agitação cultural da cidade me encheu de ideias e como fiquei impressionada com a força da cultura catalã. Sobre o que aprendi sobre arquitetura integral e sobre as loucuras do Gaudí, graças ao meu guia querido e poeta das nuvens. Eu imaginava uma cidade vermelha, do sangue das touradas, e descobri uma cidade azul e verde, conurbada em natureza e entusiasmo.

Mas, apesar de tudo isso, decidi escrever sobre uma palavra que reaprendi por lá, o encantamento. É que a cada vez que um espanhol me foi apresentado, eles diziam: "encantado". Não diziam "prazer" ou "nice to meet you", porque, afinal de contas, isso quase sempre é uma grande mentira. Mas eles se dizem encantados. E acho, verdadeiramente, que é assim que a gente devia se sentir ao conhecer uma pessoa, um lugar, uma comida, um cheiro. Encantado.

Me mostrando a sua Barcelona, Gabriel me disse que gostaria de ver a cidade com os meus olhos, de quem a via pela primeira vez. Eu respondi que ele poderia fazer isso, e pensei que era só abrir os olhos todos os dias. É o que tenho feito aqui em Bussum, aqui na Holanda, aqui na vida. Em Goiânia, por onde passei todos os meus anos até então, eu tinha me esquecido da minha capacidade de encantamento e, agora, a reaprendi. Talvez porque numa experiência feito essa a gente se sinta instigado a apreciar. Talvez também seja a convivência com as crianças que, ainda de olhos e peito abertos, continuam sempre dispostas a ver.

Nos últimos dias de Holanda, descobri tanta espécie de flor como jamais pensei. Tanta cor nova, tanto tudo-novo a cada giro das rodas da minha bicicleta. Descobri ainda, todos os tons de laranja existentes, numa festa linda chamada Koninginnedag. Holandesa que não sou, poderia ter apenas me divertido e aproveitado as festas, os mercados de rua, as pessoas fantasiadas e tudo mais, mas havia uma coisa no ar que não me interrompia o encantamento. Os holandeses festejam, não só a rainha (ou, agora, o rei - leia mais no genial Ducs Amsterdam), mas o orgulho que sentem de serem filhos dessa terra. Nunca vi nada assim no Brasil. Ninguém se vestiria de verde-amarelo fora dos jogos da Seleção, pelo simples fato de que a gente se esquece de celebrar o lugar incrível de onde viemos. Quando os holandeses em plena Dam Square gritavam "Bedankt, Bea", eles agradeciam não pelas excentricidades de ter uma família real, mas pelo lugar laranja e mágico onde estão.

Ok. Vocês podem dizer que estou sendo equivocada e que os holandeses sequer se lembravam de patriotismo algum enquanto dançavam loucamente nos barcos-festa que cruzavam os canais de Amsterdam. Concordo. Mas está intrínseco, entendem? Pergunte a eles qualquer coisa sobre a Holanda e você vai ver o peito estufado, pronto pra briga. Na última semana, recebi uma carta do governo questionando o motivo de eu não ter completado meus estudos. É que sou registrada na cidade, mas não constam registros escolares ou coisa assim. Então, eles vêm bater na nossa porta pra saber por quê. E não é só isso, eles te dizem "olha, você não estudou, mas a gente quer te dar uma oportunidade de concluir a escola e, também, de arrumar um emprego". Dá para entender porque eles podem se orgulhar, e não estou falando só de tulipas e cervejas.

Não vou tatuar um mapa do Brasil em mim ou pregar um patriotismo esquecido nos anos de meus avós (se é que ele existiu!). Não quero uma família real no Brasil, nem achar que o que acontece aqui é mais bonito que lá. Imagino os queixos caídos dos holandeses se presenciassem nossos carnavais, nossas serenatas, nossos ritos. Eles não fazem ideia do que é uma praia de verdade! Mas, recuperados os instintos de me encantar, não posso mais deixá-los partir.

Quero carregar comigo tudo que acumulo por aqui, mas preencher ainda mais a bagagem com tudo que meus olhos já se cansaram de ver. Quero sentir os olhos exaustos que me encontram todos os dias, apreciar as velhas histórias que já sei de cor.

Quero, em espanhol, holandês ou português, a chance de abrir os olhos e me encantar todos os dias.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Duas coisas mudaram a minha percepção e acenderam meus sentidos nessa última semana.

Pra começar: o sol. No último final de semana, tive a impressão de que os holandeses festejavam o bom tempo (20 graus, diga-se de passagem). Foram pra praia, vestiram-se com cores mais alegres e saíram para sentar-se na porta de casa como fariam as velhinhas de Goiás Velho. Ao longo de toda a semana, deixamos as crianças brincarem tranquilamente como se a rua toda fosse parte da nossa casa. No sábado, fui com a host family ao Keukenhof - que apesar de ser um clichezão turístico para eles, foi encantador para mim. Nunca imaginei que houvessem tantos tipos de flores e tantas cores reunidas num só lugar. 

Mas, claro, estamos na Holanda, e a primavera não estava só lá. Foi incrível como, de repente, a cidade inteira se coloriu. A árvore do nosso quintal se vestiu de rosa e o caminho até a escola ganhou uma passarela de florzinhas rasteiras em vários tons de roxo. Por falar em caminho, me deixei perder por novos caminhos e descobri (com a Lê - companheira de aventuras) uma Bussum completamente nova, que ainda não me tinha sido apresentada. 

Sei que já falei aqui sobre como a veracidade das estações aqui na Europa me comove, mas não canso de dizer como isso é absolutamente mágico. Do dia para a noite, plam! foi como se tivéssemos nos mudado para uma nova cidade. (Ou será que foi o sol que me abriu novamente os olhos?) Eu amei o inverno, claro. Era tudo novidade e é tudo tão lindo e branquinho e parece que a vida passa até mais devagar. Mas agora entendo perfeitamente porque o brasileiro é (no geral) um povo tão sorridente e animado. Foi só abrir um solzinho, que toda a Holanda começou a sorrir.

O segundo fato aconteceu ainda hoje. Acordei por volta das cinco da manhã ouvindo os gritos do meu menino. Apesar de o meu quarto ser no andar de cima do deles, sempre consigo ouvir quando os dois choram a noite, afinal, passo o dia todo com o "radar" ligado e ele não consegue entender quando "estou off". A diferença aí foi que, nessa madrugada, o Lucas não chorava pela mãe, mas por mim. Foi tudo tão rápido que acho que ainda estava dormindo quando me vi ali, em pé na ponta da escada, decidida a acudir o choro do meu menino. Ele chamava com toda a força: Dooora, Dorraaa, Dooorrraa! Num minuto o choro cessou e eu voltei pra cama, sabendo que tinha sido só um pesadelo, nada de mais, coisa de criança. Demorei mais um bom tempo para pegar no sono de novo, esperando qualquer som ou movimentação que me mostrasse que ele havia acordado outra vez ou que precisava de mim.

"Meu menino". Onde foi que eu consegui parir um menino tão loiro assim ou uma neném de olhos tão azuis? Nem com um milagre da genética... Onde foi que me ensinaram a ter o sono frágil, a resolver todos os problemas do mundo com abraços e beijinhos, a cuidar como se eles fossem parte de mim? Logo eu, que nunca soube cuidar nem de bicho ou de planta... Virei mãe sem gestação e descobri, num segundo, como é ter o maior amor do mundo.

É difícil ter que tirar o sentimento de tudo que estou vivendo e a linha tênue que faz isso aqui em casa já se dissolveu há tempos. Isso não acontece com todo mundo, não é toda au pair que cai nessa cilada. Erro meu. Talvez o maior erro que cometi até agora. Não me lembrem que daqui a seis meses vou deixá-los para trás. Abandono de lar - isso é crime, não é? Deixar um pedaço do coração do outro lado do oceano.

Pode ser que esses dois fatos só tenham significado tanto porque estão aqui: bem no meio do meu ano, bem no dia em que completo seis meses fora de tudo que me havia de confortável e digno do meu amor. Esses acontecimentos vieram só me mostrar a cara da metade. Eu tenho uma metade em cada uma das mãos e penso em toda a mudança que me passou por dentro e por fora nos últimos seis meses - tudo me parece uma loucura! Você, leitor, pode estar cansado dessa minha contagem obcecada, mas é que não faz mesmo sentido, o tempo nunca me foi tão intenso e tão solúvel. 

Seis. Zes. Outros seis. Andere zes.


Obrigada a todo mundo que caminhou comigo até aqui. Que leu meus textos, que se encorajou ou que perdeu a vontade, que curtiu minhas fotos ou criticou minhas vontades. Mas, principalmente, obrigada aos que aprenderam (ou relembraram) junto comigo o significado de saudade. Uma palavra sem tradução e do tamanho do mundo. Uma palavra que me ajuda a ter tanto orgulho da língua portuguesa. A minha palavra preferida em holandês é geluk, que eu já gostava antes mesmo de ter aprendido a pronúncia. Espero que vocês continuem comigo, de longe ou de perto, de muito ou de pouquinho. E que geluk continue sendo, pelos próximos seis meses, a minha maior conquista nesse ano laranja.

domingo, 24 de março de 2013

O clima aqui na Holanda é sempre a deixa perfeita pra puxar assunto com aquele amigo sumido ou de quem quer saber de como andam as minhas coisas por aqui. É o velho papo de elevador. E, bem, cá está um post papo de elevador...

A frase que eu mais disse na última semana, com certeza, foi: já deu, inverno! E a verdade é bem essa mesmo, eu cansei do inverno. Ok, a primavera chegou, mas cadê? O frio cansa e entristece. 

Tudo bem, existem algumas vantagens. A neve é linda e dá pra fazer guerrinha e boneco de neve e todas aquelas coisas de filme. Você também pode só ficar deitado debaixo das cobertas assistindo um filme e tomando chocolate quente. Mas aí não é vida real. (plam!) Na vida real, você tem que fazer todas as suas atividades cotidianas, mesmo que neve, que chova, ou que vente a trocentos quilômetros por hora. Na vida real, você não pode colocar o dedo mindinho pra fora de casa sem estar vestindo mil peças de roupa (e isso não tem nada da elegância que todo mundo imagina). Na vida real, fazer boneco de neve é difícil e você nem vai querer tentar fazer, porque não seria louco de ficar fora de casa por livre e espontânea vontade durante o tempo necessário pra tamanha engenharia. Na vida real, o locker da sua bike congela, sua roupa molha, e você já nem se lembra mais como são as suas pernas, de tanto tempo que passou sem vê-las. Na vida real, você anda com a bike sacolejando pelo vento até uma estação de trem, e quando sai do trem é recebido por uma fantástica chuva de bolinhas de gelo - isso quando não escorrega, cai e ganha uma cicatriz pra eternidade.

Você pode estar me achando uma rabugenta nesse momento, mas não é, não. É um consenso. Nos últimos dias, até a minha host (lindamente nativa e que vivia rindo de mim pelos meus dilemas com o frio) confessou que esse é o inverno mais longo de que ela se lembra. No outro dia, a nossa vizinha admitiu que não via a hora de o sol aparecer e todo mundo poder ser feliz e se divertir na rua, sem o risco de morrer congelado. Ok? Não sou só eu. Eles são só mais um pouquinho acostumados do que eu, que vim direto da panela fervente que é Goiás.

A expectativa pela chegada da primavera era visível. Tivemos umas temperaturas amenas, florzinhas selvagens começaram a colorir toda a cidade, e - de repente - todo mundo estava nas ruas, sorrindo, brincando nos parques e playgrounds, se entupindo de sorvetes. Mas foi tudo pegadinha do malandro, e não durou mais que uns 4 dias. (a reação foi bem essa aqui, ó) Eu, por minha vez, continuo fazendo uma força enorme pra manter a pose em cima da bike, manter os dedos descongelados, e a vida normal, mesmo quando a vontade é passar os dias todos como o de hoje - rodeada de cobertas e chás quentes. E claro, tô fazendo promessa pra São Pedro tirar o pé das minhas viagens e melhorar as coisas por essas bandas.

Por outro lado, uma das coisas mais incríveis por aqui é essa sazonalidade. A Europa tem mesmo as quatro estações do ano (nada das fake-estações brasileiras e muito menos do verão constante em Goiânia, que no máximo varia para "com chuva" ou "sem chuva") e tudo muda diante delas. As roupas, as comidas, os costumes, o clima. Aqui na Holanda, em específico, chega a ser curioso.

As barraquinhas de olliebollen você só encontra no final do ano e o stamppot é comida-de-inverno (mais informações num futuro post sobre a culinária holandesa!). Trocou a estação? Magicamente as coisas desaparecem e o restaurantinho de stamppot que eu adorava virou sorveteria. Inclusive, quanto sorvete apareceu de repente por aqui! E olha que, por enquanto, eu só vi o outono e o inverno.

Acho que, no fundo, todo o meu descontentamento com o inverno é só isso: ansiedade. Talvez seja só a sazonalidade do meu coração. Do tipo de quem já aprendeu a lição e quer logo passar pra próxima. De quem quer ver logo os campos floridos de tulipa e as crianças brincando nas ruas. De quem sabe que o tempo é curto pra tudo que se tem pra absorver, pra todos os sabores que se tem pra provar.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Eu fico esperando a hora de postar, como se minhas palavras só fossem ter graça diante de uma viagem incrível ou um apontamento interessante. Mas hoje resolvi que não, nem sempre.

Do último post pra cá, eu tive sim uma viagem linda. Fui pro Reino Unido, numa viagem de um final de semana só, mas conheci Edimburgo (a da foto), Durham e Newcastle Upon Tyne - respectivamente, a capital da Escócia e duas cidadezinhas fofas no norte da Inglaterra. E o que eu vi foi tudo aquilo que a gente lê sobre eles e acha que é exagero dos livros, filmes e seriados: a universidade de Newcastle, os táxis, os telefones públicos vermelhos, o sotaque maluco. Edimburgo é uma cidade peculiar, toda pintada em tons de verde musgo e coberta pelo som de uma gaita de fole que não dá pra saber se toca de verdade ou só dentro da gente. Durham é estar dentro dos cenários do Harry Potter e entender um pouquinho de onde veio toda a imaginação borbulhante da JK Rowling. Newcastle é se sentir em casa por estar na casa de alguém que é tão de casa. Explico: a companhia da vez era a Fernanda, minha prima que nunca precisou de sangue igual pra me ser tão querida.

Mas devo dizer que, apesar de maravilhosa, uma das coisas que mais marcou essa viagem foi o fato de eu estar passando mal. E muito, devo dizer. É até engraçado, porque em todas as minhas viagens até agora algo deu errado. Eu já passei mal, já me atrasei, já cancelaram meu trem, já entrei no trem errado, já já já e já milhares de coisas. E eu nunca me dei ao trabalho de contar nada disso por aqui, porque no final, é sempre pequeno perto de tudo de lindo que meus olhos viram. Mas na vida real, eu chego de viagem e já digo pras amigas: senta que lá vem história! - porque sempre tem alguma mini-tragédia pra contar.

Dessa vez, eu confesso que passei a viagem inteira resmungando, porque não dava pra acreditar que eu tinha chegado até lá e iria "desperdiçar" o momento daquele jeito. Eu tive de tudo um pouco: desmaio, sinusite, dor, diarreia, vômito, blábláblá. Consegui aproveitar bastante, mas aquela não era eu no meu estado normal e aquilo me irritou profundamente. E quando eu voltei: pam! Tive que me cuidar sozinha - e agora, finalmente, chegamos no x da questão desse texto.

Meus hosts tinham viajado também e as crianças chegariam só no dia seguinte pra ficar comigo. E não dava mais para esperar, porque nenhuma mágica ia me fazer ficar boa do dia pra noite, mas especialmente, porque não tinha minha família pra me medicar ou plantão da Unimed pra me atender a qualquer hora. Eu fiz uma jantinha-de-doente e passei a noite sozinha, fui ao médico e comprei remédios sozinha. Isso tudo, claro, em holandês, sem saber como funcionava nada do meu seguro, e obviamente, de bike.

No final - fiquem calmos! - deu tudo certo, eu sobrevivi e alguns dias depois já estava bem melhor. Mas fica aquela coisa de "me virei", sabe? Você se vira, mesmo que não saiba como isso aconteceu. É como diz o ditado, a necessidade faz o sapo pular. Você se vira, você aprende, e os dias vão passando numa velocidade que não se explica.

Na última semana eu completei quatro meses de Holanda. Quatro meses que são muito pouco pra quem ainda tem tanto pra ver, mas que já são tanto se analisadas as saudades do Brasil e os tantos laços criados por aqui. Em quatro meses, eu já consigo pedalar na chuva ou na neve e até com a bakfiets lotada e atéé (admirem-se!) ocupar uma das mãos com outra coisa que não seja a direção. Em quatro meses, eu já consigo aderir ao dutch-way-of-life e me planejar com mais antecedência e a ser mais objetiva. Em quatro meses, eu já amei e odiei minha host family, mas construí com eles um sentimento forte e sem nome, mas que eu sei que nunca vai ter fim.

Em quatro meses, quem sou eu chorando ao ver as fotos de todos os amigos juntos na formatura da minha melhor amiga? Quem sou eu trocando fraldas com uma mão só? Quem sou eu me curando da dor física ou da dor muda que é a saudade? Quem sou eu me apresentando como Dora? Quem sou eu pintando os cabelos de uma amiga numa tarde de sábado? Quem sou eu criando todos esses laços do outro lado do mundo? Quem sou eu descobrindo todas as vantagens e desvantagens de ser quem eu sou - não quem eu deveria ou poderia ser.

Quatro meses e ainda é só um terço. Um terço do ano ou de toda a chance que eu tenho pra descobrir: o mundo, a minha casa, a minha paz, a minha cara. Abro os braços pra me receber todos os dias.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Uma das coisas que sempre me interessou sobre os holandeses era a fama de eles serem super cabeça aberta. Claro, era um estereótipo. E como com todo estereótipo, eu tinha cá as minhas dúvidas sobre ele. Algumas das coisas que me disseram sobre a Holanda antes de eu vir mostraram-se totalmente enganosas. Mas, por sorte, essa fama de "open minded" não me decepcionou.

Na véspera da minha vinda, uma amiga da família disse para os meus pais: "Eu não deixaria minha filha ir pra Holanda nunca! Aquele lugar é uma loucura, só perdição." E essa é mesmo a Holanda - dos turistas.

A Holanda pra turista ver é basicamente a Red Light District em Amsterdam. É um coffee shop a cada cinco passos, são as luzes vermelhas das mulheres que se exibem e se prostituem dentro das janelinhas de vidro, são as baladas, as cervejas, e... só. No máximo, alguém vai se lembrar das casinhas coladas umas às outras. Mas apesar de essa ser a imagem vendida lá fora, os holandeses nem sequer se orgulham dessas coisas. Claro que tudo isso só funciona por uma razão da qual, aí sim, eles se gabam bastante: aqui tudo é feito direitinho, organizado e legalizado, sem dar chances pra virar bagunça, como poderia acontecer em lugares com uma cultura diferente da deles.

O problema é que os holandeses têm tanto mais para mostrar, para oferecer ao turista, que é até chato que seja essa a imagem "comercial" do país. Para acabar com isso, alguns grupos políticos daqui até tentam criar leis para acabar com os coffe shops e com a própria Red Light, que são super atrativos da capital. No último réveillon, o prefeito de Amsterdam, que é dessa ala mais conservadora, impediu, inclusive, que fossem feitas festas públicas na rua, com shows e tudo mais que pudesse atrapalhar o lindo sono das famílias holandesas. E apesar de esse cara ser um extremista, no geral, eles não se orgulham nem um pouco de ser a "terra da perdição", eles não fumam maconha loucamente, eles não não não e não para todos os estereótipos. Mas os holandeses não te julgam se você fizer qualquer uma dessas coisas. E, para mim, é aí que está o xis da questão.

No Brasil, a gente julga porque o cara do lado tá ouvindo uma música ruim, ou porque bebe demais, ou porque tá usando uma calça xadrez com blusa listrada, ou porque decidiu que é bissexual. Claro que isso é uma coisa absolutamente individual, e o julgamento quem constrói é a gente mesmo, com nossos preconceitos internos. Mas, por aqui, é bem naquela de ninguém vai se importar com o que você fizer mesmo.

Bussum, a cidade onde moro, é conhecida como a "Beverly Hills da Holanda", porque é um lugar onde mora muita gente rica, muito artista, coisas assim. Mas eu passo por eles todos os dias e nem sei! Não só pelo fato de que não sou daqui, mas porque eles não precisam desfilar em carros luxuosos e casas gigantescas. Em alguns bairros as casas são maiores, mais bem decoradas, mas ok, é só isso. Você não vê aquela disputa de quem tem a casa mais bonita do condomínio fechado ou quem tem o carro da moda. E, claro, de casacos de neve todo mundo parece que está vestido mais ou menos igual, não tem aquela discrepância de quem está usando uma calça da Calvin Klein ou da feirinha!

Eles também não são assim tão superiores a ponto de não julgar. Uma das minhas recentes descobertas, por exemplo, foi de que eles não são nem um pouco abertos quando o assunto é tatuagem. Ok, você pode ser preto, branco, azul, gay, hetero, usar roupa rasgada ou não, mas tatuagem pra eles é uma coisa "trash", como definiu uma holandesa que conheci ontem. O pai dela é todo tatuado, então ela cresceu achando isso normal. Mas contou que, na prática, não pode deixar nenhuma das suas três tatuagens à mostra enquanto está trabalhando e que dificilmente seria contratada por uma grande empresa daqui por conta disso.

Claro que por aqui existe gente esnobe, gente preconceituosa, gente chata. Isso existe em qualquer lugar. Mas eu nunca ouvi um pai brasileiro dizer com tanta naturalidade: "Poxa, meu filho tem uma tendência meio gay". E, diante da minha cara de espanto, ainda completar, rindo: "Hahaha, eu não me importo. O que vale é que ele seja um cara divertido, sabe? Prefiro que ele seja conhecido como 'aquele cara legal' do quê como 'aquele cara super inteligente' ou qualquer coisa assim. Quero que ele seja feliz - o resto, por mim, tanto faz".

Sou dessas que comenta se a menina do lado tem um cabelo muito feio e que anda desconfiada e com medo se tem alguém meio mal encarado andando por perto. Confesso. Não me esqueço de uma aula de antropologia que tive na faculdade, em que o professor falava sobre preconceitos e afirmou que o primeiro passo para se livrar de um era ter a consciência dele, sem a hipocrisia de dizer: "Sou muito bacana, não tenho preconceito com nada". Eu julgo e aposto que você também.

E essa é uma das coisas holandesas que quero carregar comigo sempre. É o sentimento de que, se a pessoa é feliz daquele jeito, tá tudo certo, tudo bem. O resto, por mim, tanto faz.

*Crédito da imagem: Google

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012


Na viagem à Paris fui pega de surpresa com o primeiro Christmas Market da minha vida. Estávamos andando pela Champs Elysees e eu já estava maravilhada o suficiente, quando a rua se encheu de luzinhas e barraquinhas. E, claro, churros. Todo mundo que passava por mim, carregava um pacotinho com doces: waffles, churros, algodão doce, crepes, maçã do amor. Foi mais que suficiente pra ganhar meu coração.

Daí para frente, descobri que os mercados de Natal são tradicionais aqui na Europa. Tem pra todo canto. E é divertido, porque cada um tem sua características. Alguns são super famosos e recebem turistas que vão até a cidade especialmente para sentir o clima natalino, como é o caso de Maastricht, aqui na Holanda, e Dusseldorf, na Alemanha. Alguns são mais divertidos e criativos e vendem todo tipo de buginganga e coisinhas criativas. Soube de mercados exclusivos de produtos orgânicos, outro exclusivos de flores e decorações para o Natal, e enfim, descobri que no fundo é uma desculpa para o pessoal montar uma feirinha mesmo.

Como não sou boba nem nada, resolvi botar minhas botas pra trabalhar e fui ver de perto o KerstMarkt (em holandês) de Maastricht. A cidade é a mais longe que eu poderia escolher dentro da Holandinha, o extremo sul do país, e fica a nada mais nada menos do que três horas (de trem!) da minha - já que eu moro no norte do país. Ainda no caminho percebi que a coisa não era brincadeira: o trem vinha tão cheio que fizemos quase o trajeto todo em pé ou sentados nas escadinhas entre os vagões. 

Eu tinha me preparado toda com mapas e anotações pra não errar o caminho da estação para o mercado, que fica na Vrijthof, a praça principal da cidade (que é bem grandinha, diga-se de passagem). Mas não precisei. Sabe aquela coisa de efeito boiada, de que é só seguir o fluxo da multidão? Pois então! Todo o caminho até a praça já transpirava Natal: as luzes, árvores, presentinhos decorando postes e até mesmo as lojas comuns, todas tocavam aquelas típicas canções natalinas que grudam nos ouvidos da gente. Numa dessas, assistimos até um coral natalino que cantava dentro de uma livraria. (Vale a pena ver umas fotos aqui!)

O KerstMarkt de Maastricht desapontou no quesito compras. Tínhamos deixado alguns presentes para comprar lá, mas foi em vão, porque quase não se viam banquinhas legais de fato. Em compensação, tinha pista de patinação no gelo (um abraço aqui para os que, assim como eu, não tem o menor talento), roda gigante, brinquedos pra criança pequena e criança grande que nem a gente, uma decoração linda e comidinhas tudo-de-bom (waffles com calda de cereja: te-quero-pra-sempre!).

No fim, eu só contei isso tudo para dizer que, finalmente, o Natal me pegou. Sempre fui dessas chatas que não curte muito as festas de fim de ano e que sempre arruma um motivo pra reclamar. Algumas vezes eu até tive os motivos, outras não e reclamei mesmo assim. Sempre detestei com todas as minhas forças essas canções natalinas. Acho que seria capaz de enforcar a Simone e o Ivan Lins ou quem mais me resolvesse cantar aquilo. Morria de raiva das luzinhas no prédio da frente que iluminavam meu quarto e me atrapalhavam a dormir. Tive alguns natais maravilhosos, claro, e isso aconteceu unicamente porque eu tenho uma família maravilhosa. Mas, mesmo assim, a minha implicância não passava.

Dessa vez, preciso admitir que passou. Os enfeites da árvore de Natal da minha casa são de chocolate e foram escolhidos a dedo por uma criança que nem sabe pra quê que isso serve, mas que ficou feliz mesmo assim. Apesar do inverno, Bussum e todos os lugares por que passei nos últimos dias se encheram de cor e alegria enfeitados de luzinhas e árvores de Natal (ah, elas são naturais, é importante explicar!) e eu pude, finalmente, oferecer meus sorrisos todos pra elas. 

Acho que mudei de ideia sobre o Natal. E talvez seja porque os bons motivos pra se ter um feliz Natal estão (quase) todos longe de mim. A saudade abre o coração da gente.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Crédito: Letícia Pomaleski - mais esperta que eu, foi fotografar
Depois de alguns dias sofrendo na expectativa e conferindo a previsão do tempo a cada duas horas, hoje - de fato - nevou. Não fui pro meio da neve ser feliz, nem tirei fotos, nem fiz um boneco com nariz de cenoura. Fiquei olhando a chuvinha virar gelo da janela, plácida. Aos poucos, a mesa que fica no jardim foi mudando de cor, até parecer que vestia uma capa de chuva totalmente branca. Não me atrevi a sair pra pedalar e confesso que pedi pra todos os santos que a neve tivesse diminuído até a hora da minha aula. A prece deve ter sido mesmo forte, porque algumas horinhas depois... fim. A chuva fina de todos os dias veio e derreteu meu jardim branco.

Eu devo ter repetido mil vezes no último final de semana que estava com medinho da neve. E quando ela foi embora, poxa, eu fiquei desapontada. Tem um num-sei-o-quê de paz de espírito na forma com que aquilo acontece. Ainda bem que a previsão do tempo me mostra mais dias assim ainda essa semana. E, afinal, é só o começo. Winter is coming, agora é inquestionável.

Enquanto ele não chega de vez, eu vou fazendo os dias por aqui.

Fui pra Paris passar um final de semana e, quem diria, vi o Mickey, mas não fui na Torre Eiffel. Explico: não contava com isso, mas passei um dia na EuroDisney (que tava toda lindinha e decorada de Natal!). E além de ter me divertido horrores por lá, andei muito, comi maravilhosamente bem, fui num samba, vi o carrossel da Amelie, a Shakespeare and Company e a pirâmide do Louvre, senti o vento correr o Sena, passeei no Christmas Market da Champs Elysees e, sabe do melhor? Reencontrei duas pessoas maravilhosas e que me fizeram me apaixonar: por eles e pela cidade. Porque o amor pode estar num kebab que se come depressa, ou em dividir a casa a vida e as canções. A minha Paris vai ser pra sempre mais bonita que a dos outros.

De lá pra cá, a vida ganhou novo gás e mais saudades. Conheci novas pessoas e lugares aqui na Holanda mesmo. Fui em duas exposições bacanérrimas em Amsterdam (alô, Eye-lindo e Toetanchamon-divo!) e vi um espetáculo maravilhoso, em plena Dam (a praça famosa e cheia de turistas de Ams), debaixo de um frio como nunca tinha sentido igual. Fui numa balada de verdade (orgulhem-se de mim, amigos!), numa boate gay com uma festa temática de Sinterklaas. Conheci Haarlem, que é a capital da província de Noord-Holland (que é o "estado" em que se situa tanto Amsterdam, como a minha cidade) e onde se fala o holandês mais bem falado do país. E dormi na casa da Letícia, como fazem mesmo as amigas - fofocando até tarde, quebrando galhos e descobrindo que tudo pode ter mais graça quando dá pra dividir com quem se quer bem, com gente do bem.

E no fim, sabe o quê é? Quanto mais eu vejo do mundo, mais me apaixono pelas pessoas.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Eu poderia fazer um post lindo e emotivo falando do último final de semana em Paris (calma, ele virá). Eu poderia falar sobre o amor, sobre o tempo, sobre a comida, ou sobre remédios e consolos infantis. Eu poderia até mesmo nem falar nada, mas hoje foi preciso.

Meu primeiro mês de Holanda foi comemorado logo cedo, por volta das oito da manhã. Um pequenino loiro e sonolento me presenteou, meio a contragosto, e com o sorriso escondido mais gostoso da vida.

Não é sempre fácil. A saudade aperta a cada segundo, tudo é lembrança do Brasil e de cada uma das pessoas maravilhosas que me preenchem os dias. E passou-se só um mês. Seja sempre bem vinda, vida.

terça-feira, 13 de novembro de 2012


Desde que cheguei penso em escrever sobre Amsterdam, mas ainda não me sentia “pronta” pra isso. Ainda não me sinto, é verdade, e talvez por isso esse seja só o primeiro de vários textos que vão sempre retomar o assunto.

Ainda não visitei os pontos turísticos e óbvios da cidade, ainda não tirei fotos no clássico I Amsterdam, ainda não fui em nenhum único museu que seja. Mas agora me sinto mais perto da cidade, porque pude senti-la em meus próprios pés e pulmões. Respirei o ar gelado que corta as ruas principais com seus canais infinitos, o ar engordurado das ruas feitas pra turistas e os ares encantados das ruazinhas laterais repletas de coffeeshops.

Amsterdam (ou Amstedã ou Amsterdão, como preferir) é capital e maior cidade dos Países Baixos. E, para a minha alegria, fica situada a apenas 23 minutos (de trem!) da cidade em que moro, Bussum. Por conta disso, tive o prazer de ir até lá já algumas vezes em tão pouco tempo. E posso dizer, sem dúvida, que em Amsterdam a gente vê de tudo um pouco. Mulheres em vitrines vermelhas e folhas de maconha em banners coloridos são só a capa que colocam pra gente ver de longe, assim como fazem com nossos futebol e carnaval.

Todas as raças e credos misturados, vozes de todos os sons e culturas, comidas de todas as cores. Amsterdam é morar dentro de um barco no meio do canal, é ter portas abaixo do nível da rua e outras portas estreitas que terminam em predinhos amontoados de sabe-se-lá quantos andares. Amsterdam é ver o Nemo já de longe e o mercado flutuante de flores de perto. Amsterdam é o Artis, é arquitetura e design, é Anne Frank, é Van Gogh. É batata frita no meio da rua e é não conseguir ler nenhum nome de rua sequer. Amsterdam é o zunido das bicicletas e trams e trens e carros que seguem ininterruptos – imunes a mim, e meus olhos de comer o mundo.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Quando o G tem som de R e as palavras têm o maior número de letras já visto na história da humanidade (dados imprecisos aqui, by the way), as coisas começam a ficar um pouco complicadas. Ok, eu já vim sabendo disso e nunca pensei que seria fácil aprender holandês. A língua é conhecida como a “língua do diabo” e, sério, formar uma frase complexa em holandês (ou dutch ou nederlands, como preferir) é algo assustador.

Meu inglês até dá pro gasto, e aqui eu devo dizer que essa é mesmo uma surpresa. Um salve pra Nath, que não se cansa em me perguntar: mas coooomo você consegue falar tudo em inglês?! Também não sei. A língua flui, e a gente acaba se comunicando. Às vezes trava tudo, às vezes a gente esquece, às vezes vai na mímica ou no Google Tradutor mesmo. E a cada dia que passa eu tenho mais certeza que não aprendi nada de gramática durante a minha vida estudantil. Alô Isadora, teacher de bolso!

Mesmo assim, eu não podia escolher a opção mais fácil, claro, que era aprofundar meus estudos da língua inglesa na Holanda. A bonita aqui sempre tem que escolher o esquisitinho e decidiu estudar holandês. Aproveitei meus longos dias livres na véspera da viagem e consegui aprender umas palavrinhas. Nada de frases, pessoal, pera lá! Palavras soltas e úteis para crianças, nomes de uma ou outra comida e (o que eu fiz de melhor!) aprendi a contar de zero a dez. A minha host, fofa como sempre, me mandou um bocado dessas palavras pra que eu fosse treinando e eu confesso que me esforcei na frente do computador durante dias.

Mas, apesar de bem útil, isso tudo virou piada no momento em que cheguei aqui. Os hosts sempre falam em inglês quando eu estou por perto, para não me “excluir”. E o meu menininho, bom, ele fala língua de criança, então a gente acaba se entendendo. Mas num telefonema, na rua, ou qualquer coisa da vida real lá está ele: o lindo dutch com sons jamais imaginados pela minha amada língua portuguesa.

O problema aumentou com o fato de eu ter perdido quatro aulas, como contei por aqui. As lições são uma vez por semana, e eu cheguei na semana em que a turma já estava na terceira aula. Depois perdi mais outra já estando aqui.  Fiquei com remorso e resolvi estudar um pouco no último final de semana. Eu, os livros e, mais uma vez, o Google Tradutor. Foram horas assim e pareceu que não sai do lugar, não consegui terminar nem o primeiro capítulo.

Pelo menos, com o que aprendi nessa primeira lição, eu já saberia chegar na sala de aula e me apresentar mais ou menos assim: “Ik ben Déborah Gouthier. Ik ben braziliaans en mijn moedertaal is Portugees.”

E na noite de ontem, lá fui eu na minha linda bike desbravar as ruas idênticas de Bussum para a primeira aula. Fora o frio congelando o cérebro e ter ficado levemente perdida, a primeira confusão aconteceu logo na porta (sempre as portas!). A escola é imensa e não tem nenhuma recepção ou secretaria. Uma hora ou outra eu via uma luzinha acesa e um menino tocando guitarra, uma menina tocando harpa, e umas senhorinhas fazendo sei lá o quê. Mas isso eu só fui descobrir depois, porque tive que esperar as tais senhorinhas chegarem para entrar sorrateiramente junto com elas, já que era preciso digitar um código (que eu, naturalmente, ainda não tinha) para abrir a porta.

Ok, me achei. A turma era relativamente grande e dava para ver de cara que era cada um com uma nacionalidade diferente (eu perdi esse dia, no caso, então vou demorar para saber). Me apresentei (em inglês, ufa!) e o professor me acalmou dizendo que não era tão mal assim eu ter perdido o conteúdo. Mostrei pra ele até onde eu tinha estudado e ele fez uma cara incrédula, mas aí é que ele se enganou. Não contava com a minha astúcia! Porque, quando a aula de fato começou, descobri que eles só estavam duas páginas na minha frente. Ou seja, mais um final de semana trancafiada estudando e tudo vai dar certo.

O mais engraçado mesmo era o próprio professor. Um cara alto (como todo mundo aqui!) e com cara de bravo, mas que é todo cheio de piadinhas (típicas dos holandeses). E que, possivelmente, fala um inglês pior que o meu. Ele vai misturando holandês com inglês, que é uma coisa de louco. Acho que aprendo a língua antes de entender direito o que é que ele fala.

Tot ziens!

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Uma das primeiras coisas que a gente lembra quando fala da Holanda é a bicicleta. Aliás, as bicicletas, porque são milhares delas. O país tem a maior taxa de ciclistas por habitante do mundo, é um dos lugares mais seguros para se pedalar e tem também o maior número de ciclovias por quilômetro quadrado. (Para saber mais, veja aqui!)

As pessoas nascem sabendo andar de bicicleta por aqui, ou quase isso. Meu menininho, o Lucas, ainda não tem 3 anos e já vive correndo por aí numa mini-bike. Por conta disso, os adultos adquirem uma capacidade ímpar e invejável: eles são capazes de segurar um copo de chá em uma mão, enviar um sms com a outra, carregar uma criança (ou quantas forem) no banco de trás e uma sacola imensa na cestinha da frente. É sério isso, juro que não estou exagerando em nada.

A esperta aqui resolveu desenferrujar a bicicleta quando decidiu vir pra cá. Andei umas três vezes e achei que estava arrasando: “é como andar de bicicleta, a gente nunca esquece!”. Só que não.

Em menos de uma semana: dei um bolo em outra au pair porque estava “presa” dentro de casa; acordei a host depois das 23h porque não conseguia abrir a porta e estava "presa" fora de casa; cai no meio da rua em Amsterdam com carrinho de bebê e tudo dentro (inclusive o bebê!). Mas nada – eu disse nada! – se compara às bicicletas.

A primeira tentativa foi no domingo à noite. Sim, noite. Estava escuro e frio quando eu resolvi sair com a bike pela primeira vez. A mesma au pair que eu tinha dado o bolo durante a tarde veio me buscar pra gente dar uma volta. Bom, era esse o plano. Mas eu passei uns dez ou quinze minutos na porta de casa tentando subir na minha linda bicicleta. Ela é um pouco alta para mim, mesmo já estando ajustada na menor altura, e, além disso, as bikes aqui não têm freio. E eu sou dessas que já sobe com a mão no freio, de tão medrosa. Para freiar aqui, é preciso pedalar para trás – e a minha sorte foi que a Talita avisou isso em tempo. Quando eu, finalmente, consegui ficar em cima da bike, eu sabia que nunca mais poderia descer dali.

Acabei descendo, claro, mas de uma forma não muito elegante, eu diria. Tivemos que parar em um sinal vermelho e lá fomos nós para outros longos minutos até que eu conseguisse subir de novo...

E como nada é tão ruim que não possa piorar, na volta para casa eu não consegui trancar a bike. O sistema é o seguinte: você coloca a chave na bike para ela andar e a chavinha fica lá. Quando é hora de trancá-la, você precisar tirar a tal chave de lá (e, por favor, leve com você). Mas eu, absolutamente não conseguia. Tinha uma manha de apertar um botãozinho até o final, só que ninguém teve a caridade de me avisar isso. Ou seja, fiquei outros 20 minutos parada sozinha na porta de casa, num frio ainda pior, até sentei na calçada para ver se pensava melhor. Resolvi colocar a bike pra dentro com chave e tudo e rezar para todos os meus santos brasileiros não deixarem acontecer nada.

Foi exatamente aí que eu resolvi entrar em casa e também não consegui abrir a porta e acabei acordando a host e blablablá.

No dia em que fui andar com a host e as crianças, as coisas foram um pouco melhores, mas até a bakfiets (que eles consideram a coisa mais fácil do mundo) me fez trombar na calçada e coisas assim. Stupid me! Eu não tenho mesmo muito talento para isso, é fato. A parte bonitinha foi o menininho acenando pra mim lá da frente e gritando: Go, Dora, gooo! Fiz os hosts me zoarem muito e acabei ganhando o dia.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Quatro dias em um lugar novo, uma língua nova, uma família nova. Com tudo novo assim, já me parece um mês. Acho que decidi fazer o blog mesmo principalmente por causa desses quatro dias, porque aconteceram tantas coisas que... bem, vamos começar pelo começo.

Com um voo de mais de 10 horas, cheguei no aeroporto de Amsterdam no último sábado, dia 19. Depois de uma meia hora para apresentar o passaporte e pegar as malas, desembarquei já suando como uma lady. Para compensar, a primeira coisa que vi do outro lado do portão foi a minha host Noor com a neném Valentine. Elas abriram um sorrisão ao me ver e eu só conseguia pensar em quão alta ela era. Nesse meio tempo, vieram também o host Thjis e o menininho mais loiro da minha vida, o Lucas. Eles tinham comprado um balão de boas vindas e flores pra me receber, uns fofos. (*ps: aprendam os nomes para facilitar meu trabalho, obrigada!)

Do aeroporto fomos pra casa, em Bussum. A cidade é bem pequenininha e fica bem perto de Amsterdam, coisa de 15 minutos de carro. Parece uma cidade de boneca, com as casinhas parecidas, crianças brincando nas ruas e, claro, bikes! Dezenas delas... Outra coisa que super vale ressaltar é o outono. Sim goianos, o outono existe e é uma coisa linda de se ver. O Thjis me zoou bastante porque eu fico tirando fotos das árvores, mas não dá pra me controlar. É uma mistura de amarelo, laranja, marrom e verde, as folhas caídas no chão, tudo lindo.

Meu quarto também é lindo, por falar nisso. Espaçoso, confortável e decorado especialmente para mim. Com porta retratos, flores, luminárias e uma cama que dá vontade de ficar pra sempre. No mais, a casa é relativamente simples. Isso é uma coisa engraçada por aqui, porque eles realmente não se importam em demonstrar a riqueza. Não tem essa competição de quem tem o carro mais bonito ou a casa maior, como no Brasil.

Os hosts são definitivamente uns queridos. O Thjis é um fanfarrão, faz piada toda hora e está sempre de bom humor, mesmo estando meio gripado desde que cheguei. Ele trabalha muito, então curte as crianças ao máximo quando está por aqui. Já a Noor, bom, ela é muito mãe. Super tranquila, tenta fazer tudo pra que meu tempo aqui seja o mais agradável possível. Ela tirou essa semana de folga pra ficar comigo, então eu estou podendo observar e aprender tudo. Ela conversa muito comigo, quer saber dos meus amigos e família no Brasil, toda bonitinha, e é também muuuito paciente por aguentar todas as minhas pequenas dúvidas.

As crianças... O Lucas tem 2 anos e a Valentine tem 5 meses. Ela sorri o tempo todo, quase não chora, é uma preguiçosinha e já está no maior dengo comigo. Participei da sua primeira “degustação de papinha”, e ela é tão boazinha que nem estranhou! Já ele ainda me evita um pouco, pede pela mãe, faz uma birrinha aqui ou acolá, mas acho que seremos grandes amigos. Ele não fala inglês ainda, então isso dificulta um pouco, já que minha conversa com ele é quase uma adivinhação. Mas temos nossos momentos:

- o primeiro dia foi o mais difícil, ele não queria mesmo saber de mim. Saía correndo, só dizia não, não, não. Maaas, na hora que eu ia para o meu quarto pra dormir, só ouvi ele perguntando alguma coisa para a mãe e ela saiu correndo atrás de mim. É que ele queria me dar um beijinho de boa noite <3

- os hosts tentaram ensiná-lo a falar meu nome e deram várias opções: Deh, Debra, Déborah, enfim. E ele só dizia que não, não, não. Numa outra hora, espontaneamente, ele disse: Papa, Mama, Tine, Lucas en Dora! Então, a partir daí, eu sou a Dôôra. Os pais até tentaram corrigir, mas foi tão bonitinho que até eles já me chamam assim. Dora é o desenho preferido dele e o nome da minha avó.

Tem como não morrer de amor?
 

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