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quarta-feira, 18 de setembro de 2013

O que é que se escreve quando não se tem muito a dizer? Ou quando a gente pode dizer tudo e não consegue dizer nada?
Escrevo esse texto sentada numa cama confortável que não é minha nem de ninguém, escutando o vento sacudir as folhas que eu vejo dançarem pela  janela. O céu azul me faz esquecer que o frio está de volta, mas ainda não chegou até mim. O sul da França tem dessas vantagens - além de uma paisagem de tirar o fôlego, vinhos incríveis e os melhores pães, figos e croissants que já comi.

Escrevo esse texto me lembrando de todas paisagens que me surgiram pelas janelas deste último ano. Me lembrando das histórias que a vovó me contou sobre uma família que não conheci e que talvez também tenha tido seus belos dias de céu azul e baguetes francesas.

Escrevo esse texto me lembrando dela e de todas as histórias que ela contou e eu não contabilizei, talvez na certeza de que as ouviria novamente. Histórias que vão ficar perdidas aos pedaços, feito quebra cabeças, nas nossas memórias. Ou que foram com ela povoar o céu.

Escrevo esse texto com os ouvidos atentos e o olfato treinado, por mais distantes que estejam os olhos. Sigo de longe os sorrisos das crianças que não são minhas, mas que também são. Por algum tempo, eu as criei - como disse a mãe. As dores saem todas de dentro de mim, e o carinho capaz de curar tudo vem de um lugar que eu não sabia que existia. Ouço suas canções e passinhos desengonçados para sempre.

Escrevo esse texto pensando em todas as pessoas que conheci. Nos sorrisos que recebi, em tudo que me doei. Nos meus pedaços que deixei cair pelo caminho. Está na hora de voltar, mas não acho que irei catá-los. Não refaço o mesmo trajeto, porque agora as esquinas dobram pra lados contrários. Não entendo de chegadas ou destinos. Me especializei na arte de fazer e refazer malas, desci em uma porção de aeroportos, fui de ônibus, trem, skate, metrô. Mas ainda me confundo sobre arrivals e departures. Pra onde segue o coração da gente?

Agora falta só um mês. 

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Essa noite eu sonhei pela primeira vez que estava de volta ao Brasil. Sonho pouco ou quase nunca me lembro dos sonhos, sabe-se lá, mas dessa vez acordei com ele limpo e vivo na minha memória. Eram cenas cotidianas e banais da nova velha vida que me espera pra daqui dois meses. O apartamento novo, o restaurante da sogra, a casa da vó.

Todas as despedidas do mês de julho me despertaram pro fato de que - pam! já tá aí. E por mais que agora, mais do que nunca, eu sinta como se meu coração estivesse sempre lá, eu vejo quantos pedaços dele eu respinguei por aqui.

Na última semana, eu estava conversando com a minha host e comecei a comentar sobre todas as coisas que eu não fiz. As viagens que eu queria ter feito e não deu tempo, os estudos que eu não me dediquei, os outros cursos que eu poderia ter feito - porque seria bom para o meu currículo, pra minha vida, pra encher minha mala de carga. E entre um gole e outro do vinho branco que eu sei que ela adora, ela me olhou com uma cara realmente espantada e disse: - Girl, are you crazy?!

Ela não precisaria ter continuado, mas foi bom ouvir. No seu jeito dutch, ela me lembrou do mais importante: todas as coisas que eu fiz. "Well, you are just 22 and look at all the things you did". E aí me deu uma fagulhinha no peito que eu assimilei como orgulho de mim mesma. Por todas as coisas que eu fiz. Pode não ter saído como eu planejava, pode ter sido muito diferente dos meus sonhos de menina, pode ser que agora depois de tanto andar eu esteja mais perdida do que nunca, mas quem se importa?

Amanhã eu faço aniversário e ainda não me decidi o que sentir sobre isso. Sempre foi uma data meio tensa pra mim, mas nos últimos anos, as pessoas maravilhosas que eu trago comigo me mostraram que esse é sim um dia de celebrar e, acima de tudo, de me sentir bem. E eu senti um medo danado porque, nesse ano, nenhuma dessas pessoas estaria comigo (digo, fisicamente). Mas aí me aparecem uma amiga que desiste de viajar e de tudo o mais só pra estar comigo, uma host family inacreditável que programou cada segundo do meu dia com coisas legais, e uma família-postiça que me mostrou que também tem um cantinho do Brasil aqui na Holanda (e aí não tô só falando de comer pastel e tomar guaraná, mas do afeto que só a nossa gente tem). Pra ser sortuda assim, eu acho que estou mesmo fazendo alguma coisa certa na vida...

Da minha herança dutch, eu aprendi a arte de me programar e sei exatamente como vão ser meus dias até o último diazinho nessas terras, lá em outubro. E tentei encaixar nele todas as coisas que ainda faltam, os lugarejos holandeses, os museus, as viagens que eu tanto queria. Passei meus últimos dias trabalhando intensamente na logística desses outros dias. Não porque eu tenha me tornado uma louca controladora, nem porque me pese o que ainda não fiz. Mas porque quero levar comigo o máximo de cada lugar.

Eu olho pra trás, e pros lados, e me sinto uma velha. Não pelo peso das coisas, ou pelas minhas dores nas costas, ou porque fujo dos convites pra baladas - mas porque eu coleciono histórias. E isso, e os sorrisos que vem com elas, são as coisas mais importantes pra mim.

Mais cedo naquele mesmo dia da conversa com a minha host, fui comprar um café e consegui concluir quase todo o diálogo em holandês com o senhorzinho que trabalhava na loja. Quase no final, fui pega no pulo e não entendi o gracejo dele, então tive que explicar que meu holandês não era lá essas coisas. Ele sorriu contente e repetiu em inglês. Eu sorri de volta e já ia saindo da loja quando ele me chamou e disse: "Just keep being who you are". Horas mais tarde, no final da noite, a minha host já um pouco animada pelo vinho se despediu de mim pra ir dormir e me deixou por mais alguns minutos sozinha no jardim. Ela já estava em pé na porta quando se voltou pra mim e disse: "Just keep being who you are".

Eles não sabiam um do outro. E nem eu de mim. Mas acho que, mais do que nunca, posso me orgulhar em seguir o conselho deles.


sexta-feira, 19 de abril de 2013

Duas coisas mudaram a minha percepção e acenderam meus sentidos nessa última semana.

Pra começar: o sol. No último final de semana, tive a impressão de que os holandeses festejavam o bom tempo (20 graus, diga-se de passagem). Foram pra praia, vestiram-se com cores mais alegres e saíram para sentar-se na porta de casa como fariam as velhinhas de Goiás Velho. Ao longo de toda a semana, deixamos as crianças brincarem tranquilamente como se a rua toda fosse parte da nossa casa. No sábado, fui com a host family ao Keukenhof - que apesar de ser um clichezão turístico para eles, foi encantador para mim. Nunca imaginei que houvessem tantos tipos de flores e tantas cores reunidas num só lugar. 

Mas, claro, estamos na Holanda, e a primavera não estava só lá. Foi incrível como, de repente, a cidade inteira se coloriu. A árvore do nosso quintal se vestiu de rosa e o caminho até a escola ganhou uma passarela de florzinhas rasteiras em vários tons de roxo. Por falar em caminho, me deixei perder por novos caminhos e descobri (com a Lê - companheira de aventuras) uma Bussum completamente nova, que ainda não me tinha sido apresentada. 

Sei que já falei aqui sobre como a veracidade das estações aqui na Europa me comove, mas não canso de dizer como isso é absolutamente mágico. Do dia para a noite, plam! foi como se tivéssemos nos mudado para uma nova cidade. (Ou será que foi o sol que me abriu novamente os olhos?) Eu amei o inverno, claro. Era tudo novidade e é tudo tão lindo e branquinho e parece que a vida passa até mais devagar. Mas agora entendo perfeitamente porque o brasileiro é (no geral) um povo tão sorridente e animado. Foi só abrir um solzinho, que toda a Holanda começou a sorrir.

O segundo fato aconteceu ainda hoje. Acordei por volta das cinco da manhã ouvindo os gritos do meu menino. Apesar de o meu quarto ser no andar de cima do deles, sempre consigo ouvir quando os dois choram a noite, afinal, passo o dia todo com o "radar" ligado e ele não consegue entender quando "estou off". A diferença aí foi que, nessa madrugada, o Lucas não chorava pela mãe, mas por mim. Foi tudo tão rápido que acho que ainda estava dormindo quando me vi ali, em pé na ponta da escada, decidida a acudir o choro do meu menino. Ele chamava com toda a força: Dooora, Dorraaa, Dooorrraa! Num minuto o choro cessou e eu voltei pra cama, sabendo que tinha sido só um pesadelo, nada de mais, coisa de criança. Demorei mais um bom tempo para pegar no sono de novo, esperando qualquer som ou movimentação que me mostrasse que ele havia acordado outra vez ou que precisava de mim.

"Meu menino". Onde foi que eu consegui parir um menino tão loiro assim ou uma neném de olhos tão azuis? Nem com um milagre da genética... Onde foi que me ensinaram a ter o sono frágil, a resolver todos os problemas do mundo com abraços e beijinhos, a cuidar como se eles fossem parte de mim? Logo eu, que nunca soube cuidar nem de bicho ou de planta... Virei mãe sem gestação e descobri, num segundo, como é ter o maior amor do mundo.

É difícil ter que tirar o sentimento de tudo que estou vivendo e a linha tênue que faz isso aqui em casa já se dissolveu há tempos. Isso não acontece com todo mundo, não é toda au pair que cai nessa cilada. Erro meu. Talvez o maior erro que cometi até agora. Não me lembrem que daqui a seis meses vou deixá-los para trás. Abandono de lar - isso é crime, não é? Deixar um pedaço do coração do outro lado do oceano.

Pode ser que esses dois fatos só tenham significado tanto porque estão aqui: bem no meio do meu ano, bem no dia em que completo seis meses fora de tudo que me havia de confortável e digno do meu amor. Esses acontecimentos vieram só me mostrar a cara da metade. Eu tenho uma metade em cada uma das mãos e penso em toda a mudança que me passou por dentro e por fora nos últimos seis meses - tudo me parece uma loucura! Você, leitor, pode estar cansado dessa minha contagem obcecada, mas é que não faz mesmo sentido, o tempo nunca me foi tão intenso e tão solúvel. 

Seis. Zes. Outros seis. Andere zes.


Obrigada a todo mundo que caminhou comigo até aqui. Que leu meus textos, que se encorajou ou que perdeu a vontade, que curtiu minhas fotos ou criticou minhas vontades. Mas, principalmente, obrigada aos que aprenderam (ou relembraram) junto comigo o significado de saudade. Uma palavra sem tradução e do tamanho do mundo. Uma palavra que me ajuda a ter tanto orgulho da língua portuguesa. A minha palavra preferida em holandês é geluk, que eu já gostava antes mesmo de ter aprendido a pronúncia. Espero que vocês continuem comigo, de longe ou de perto, de muito ou de pouquinho. E que geluk continue sendo, pelos próximos seis meses, a minha maior conquista nesse ano laranja.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Quatro dias em um lugar novo, uma língua nova, uma família nova. Com tudo novo assim, já me parece um mês. Acho que decidi fazer o blog mesmo principalmente por causa desses quatro dias, porque aconteceram tantas coisas que... bem, vamos começar pelo começo.

Com um voo de mais de 10 horas, cheguei no aeroporto de Amsterdam no último sábado, dia 19. Depois de uma meia hora para apresentar o passaporte e pegar as malas, desembarquei já suando como uma lady. Para compensar, a primeira coisa que vi do outro lado do portão foi a minha host Noor com a neném Valentine. Elas abriram um sorrisão ao me ver e eu só conseguia pensar em quão alta ela era. Nesse meio tempo, vieram também o host Thjis e o menininho mais loiro da minha vida, o Lucas. Eles tinham comprado um balão de boas vindas e flores pra me receber, uns fofos. (*ps: aprendam os nomes para facilitar meu trabalho, obrigada!)

Do aeroporto fomos pra casa, em Bussum. A cidade é bem pequenininha e fica bem perto de Amsterdam, coisa de 15 minutos de carro. Parece uma cidade de boneca, com as casinhas parecidas, crianças brincando nas ruas e, claro, bikes! Dezenas delas... Outra coisa que super vale ressaltar é o outono. Sim goianos, o outono existe e é uma coisa linda de se ver. O Thjis me zoou bastante porque eu fico tirando fotos das árvores, mas não dá pra me controlar. É uma mistura de amarelo, laranja, marrom e verde, as folhas caídas no chão, tudo lindo.

Meu quarto também é lindo, por falar nisso. Espaçoso, confortável e decorado especialmente para mim. Com porta retratos, flores, luminárias e uma cama que dá vontade de ficar pra sempre. No mais, a casa é relativamente simples. Isso é uma coisa engraçada por aqui, porque eles realmente não se importam em demonstrar a riqueza. Não tem essa competição de quem tem o carro mais bonito ou a casa maior, como no Brasil.

Os hosts são definitivamente uns queridos. O Thjis é um fanfarrão, faz piada toda hora e está sempre de bom humor, mesmo estando meio gripado desde que cheguei. Ele trabalha muito, então curte as crianças ao máximo quando está por aqui. Já a Noor, bom, ela é muito mãe. Super tranquila, tenta fazer tudo pra que meu tempo aqui seja o mais agradável possível. Ela tirou essa semana de folga pra ficar comigo, então eu estou podendo observar e aprender tudo. Ela conversa muito comigo, quer saber dos meus amigos e família no Brasil, toda bonitinha, e é também muuuito paciente por aguentar todas as minhas pequenas dúvidas.

As crianças... O Lucas tem 2 anos e a Valentine tem 5 meses. Ela sorri o tempo todo, quase não chora, é uma preguiçosinha e já está no maior dengo comigo. Participei da sua primeira “degustação de papinha”, e ela é tão boazinha que nem estranhou! Já ele ainda me evita um pouco, pede pela mãe, faz uma birrinha aqui ou acolá, mas acho que seremos grandes amigos. Ele não fala inglês ainda, então isso dificulta um pouco, já que minha conversa com ele é quase uma adivinhação. Mas temos nossos momentos:

- o primeiro dia foi o mais difícil, ele não queria mesmo saber de mim. Saía correndo, só dizia não, não, não. Maaas, na hora que eu ia para o meu quarto pra dormir, só ouvi ele perguntando alguma coisa para a mãe e ela saiu correndo atrás de mim. É que ele queria me dar um beijinho de boa noite <3

- os hosts tentaram ensiná-lo a falar meu nome e deram várias opções: Deh, Debra, Déborah, enfim. E ele só dizia que não, não, não. Numa outra hora, espontaneamente, ele disse: Papa, Mama, Tine, Lucas en Dora! Então, a partir daí, eu sou a Dôôra. Os pais até tentaram corrigir, mas foi tão bonitinho que até eles já me chamam assim. Dora é o desenho preferido dele e o nome da minha avó.

Tem como não morrer de amor?

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Algumas coisas acontecem com a gente por acaso. Outras não. Algumas dessas coisas a gente planeja tanto, que - no fim - sai tudo diferente. E foi assim que veio esse blog. Ele já teve uma porção de nomes e propósitos e, principalmente, uma porção de padrinhos (o que vocês me pedem chorando e eu não faço sorrindo?!).

Por conta de tudo isso, ele nasce hoje, sem propósito específico. Eu vou apenas contar histórias. Afinal de contas, desde que me entendo por gente isso sempre foi o que eu soube fazer de melhor. Recontar as novelas, relembrar momentos, relatar fatos.
Os fatos agora mudam de cenário. As novelas não serão mais as de sempre, mas as historinhas de Dora e Diego ou qualquer outro desenho infantil; os calores do Brasil serão o lindo outono ou o constante inverno holandês; e, como nunca me foi de costume, a personagem principal serei eu. A ideia, por fim, é divertir vocês e contar um pouquinho de tudo que vem acontecendo do lado de cá do mundo, nessa minha vida em laranja.

Welkom!
 

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