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quarta-feira, 18 de setembro de 2013

O que é que se escreve quando não se tem muito a dizer? Ou quando a gente pode dizer tudo e não consegue dizer nada?
Escrevo esse texto sentada numa cama confortável que não é minha nem de ninguém, escutando o vento sacudir as folhas que eu vejo dançarem pela  janela. O céu azul me faz esquecer que o frio está de volta, mas ainda não chegou até mim. O sul da França tem dessas vantagens - além de uma paisagem de tirar o fôlego, vinhos incríveis e os melhores pães, figos e croissants que já comi.

Escrevo esse texto me lembrando de todas paisagens que me surgiram pelas janelas deste último ano. Me lembrando das histórias que a vovó me contou sobre uma família que não conheci e que talvez também tenha tido seus belos dias de céu azul e baguetes francesas.

Escrevo esse texto me lembrando dela e de todas as histórias que ela contou e eu não contabilizei, talvez na certeza de que as ouviria novamente. Histórias que vão ficar perdidas aos pedaços, feito quebra cabeças, nas nossas memórias. Ou que foram com ela povoar o céu.

Escrevo esse texto com os ouvidos atentos e o olfato treinado, por mais distantes que estejam os olhos. Sigo de longe os sorrisos das crianças que não são minhas, mas que também são. Por algum tempo, eu as criei - como disse a mãe. As dores saem todas de dentro de mim, e o carinho capaz de curar tudo vem de um lugar que eu não sabia que existia. Ouço suas canções e passinhos desengonçados para sempre.

Escrevo esse texto pensando em todas as pessoas que conheci. Nos sorrisos que recebi, em tudo que me doei. Nos meus pedaços que deixei cair pelo caminho. Está na hora de voltar, mas não acho que irei catá-los. Não refaço o mesmo trajeto, porque agora as esquinas dobram pra lados contrários. Não entendo de chegadas ou destinos. Me especializei na arte de fazer e refazer malas, desci em uma porção de aeroportos, fui de ônibus, trem, skate, metrô. Mas ainda me confundo sobre arrivals e departures. Pra onde segue o coração da gente?

Agora falta só um mês. 

domingo, 1 de setembro de 2013

Hoje eu vi um bocado de gente comemorando nas redes sociais o final do mês de agosto. E eu queria ir lá em cada um deles e falar: sério mesmo?

Agosto pra mim teve duas caras. E ele tava me mostrando isso todo dia até que explodiu na minha frente quando a gente virou a folhinha pra setembro. Há um ano, nessa mesma época, eu estava preparando minhas coisas, arrumando malas, comprando presentes e me despedindo de um monte de gente. E agora estou aqui, fazendo exatamente as mesmas coisas, só que do ângulo contrário.

Agosto foi o mês que eu escolhi pra fazer tudo que me faltava na listinha laranja que um dia eu escrevi mentalmente. Ainda faltam alguns dias até voltar para o Brasil, mas setembro vai ser partido porque vou viajar quase o tempo todo. Saio de viagem com os hosts, engato nas minhas próprias férias e aí já é quase outubro. Mas disso eu falo pra vocês lá na frente...

Por enquanto, basta dizer que eu fui presenteada com o agosto mais longo de todos. Pra começar, me dei um castelo de presente de aniversário. Era um dia antes e eu, minha mochila e minha bike atravessamos doze quilômetros de uma liberdade que não me lembro de ter sentido outra igual. Eu ria, chorava e cantava bem alto pra celebrar sabe-se lá o quê. Talvez, a vida. Talvez, as escolhas sem sentido que levam a gente aos lugares que enchem os olhos e o coração. Naquele dia, o castelo de Muiderslot também me encheu as pernas de dores e os ombros de orgulho.

A continuação foi com um aniversário que me durou 34h, adicionados os devidos fusos e as devidas demonstrações de afeto. E quanto afeto! Não dá pra calcular, pra descrever, não cabe em qualquer medida que já inventaram. Não consigo dizer quanto amor coube em mim e, principalmente, quanta gratidão. Cada sorriso que carreguei naquele dia vai ficar guardado comigo pra sempre.

Menos de uma semana depois, e lá estava eu de novo, com aquele mesmo calorzinho no peito, aquela mesma sensação, quando meus olhos atravessaram o Rio Danúbio e me mostraram Budapeste muito mais linda do que eu podia imaginar. Os preços incríveis, a arquitetura, o verão nas pessoas, a companhia mais do que adequada, a língua bizarra, aquela atmosfera de gente jovem, moderna e feliz. E meu fôlego se acabando no amarelo. Budapeste me ganhou pra sempre com seus heróis, seus kürtőskalács, seus telhados coloridos e o som da risada da Lelê.

Foi também agosto que eu escolhi pra fazer o resto do turismo holandês que não dava pra ficar sem. Deventer, com a maior feira de livros da Europa; Den Haag, com seu Madurodam, o Binnenhof e a praia gelada; o Zaanse Schans e todos os clichês possíveis da Holanda, incluindo aí muitos moinhos (esse aí da foto abaixo, ó), vaquinhas, sapatinhos de madeira, queijos e stropwaffles; as cervejarias de Amsterdam; Delft, com a porcelana azul e branca, a história da família real, a igrejinha torta refletida nos canais e o (dito) melhor sanduíche do país; e, por fim, Rotterdam, a menos holandesa possível, com seu porto deslumbrante e a arquitetura da sobrevivência, com direito a pontes mega modernas e as Casas Cubos.


Agosto me deu muitos quilômetros a mais no meu cartão do transporte público, um tantão de dinheiro a menos, sapatos cada vez mais gastos e uma vontade de ficar mais um pouquinho pra decorar cada detalhe, cada esquina, cada nome impossível de pronunciar. 
As duas caras de agosto me mostraram que "partir" é uma coisa mesmo muito duvidosa. Partir e chegar é quase a mesma coisa. Só que coração não sabe nada sobre questões de referencial.

Hoje, primeiro dia do mês de setembro, eu vesti minha coragem e fiz as malas. Não pra voltar pra casa, mas pra mudar de casa. A primeira de três mudanças, dentro de poucos meses. Joguei um tanto de coisa fora, doei um outro tanto, guardei com carinho um tanto a mais. E aprendi que o apego deve estar com o que a gente carrega dentro da gente. Mais do que todos os souvenires que comprei ou as milhares de fotos que tirei, o que trago dentro de mim é que pesa mais. É aquele tal calorzinho do peito, a tal sensação de liberdade impagável, o amor incalculável - lembra? Olhando meu quarto semi vazio, entulhado de restos e de caixas, eu consigo agora sorrir o que já chorei. O tempo de agosto acabou. As lembranças vêm comigo.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Essa noite eu sonhei pela primeira vez que estava de volta ao Brasil. Sonho pouco ou quase nunca me lembro dos sonhos, sabe-se lá, mas dessa vez acordei com ele limpo e vivo na minha memória. Eram cenas cotidianas e banais da nova velha vida que me espera pra daqui dois meses. O apartamento novo, o restaurante da sogra, a casa da vó.

Todas as despedidas do mês de julho me despertaram pro fato de que - pam! já tá aí. E por mais que agora, mais do que nunca, eu sinta como se meu coração estivesse sempre lá, eu vejo quantos pedaços dele eu respinguei por aqui.

Na última semana, eu estava conversando com a minha host e comecei a comentar sobre todas as coisas que eu não fiz. As viagens que eu queria ter feito e não deu tempo, os estudos que eu não me dediquei, os outros cursos que eu poderia ter feito - porque seria bom para o meu currículo, pra minha vida, pra encher minha mala de carga. E entre um gole e outro do vinho branco que eu sei que ela adora, ela me olhou com uma cara realmente espantada e disse: - Girl, are you crazy?!

Ela não precisaria ter continuado, mas foi bom ouvir. No seu jeito dutch, ela me lembrou do mais importante: todas as coisas que eu fiz. "Well, you are just 22 and look at all the things you did". E aí me deu uma fagulhinha no peito que eu assimilei como orgulho de mim mesma. Por todas as coisas que eu fiz. Pode não ter saído como eu planejava, pode ter sido muito diferente dos meus sonhos de menina, pode ser que agora depois de tanto andar eu esteja mais perdida do que nunca, mas quem se importa?

Amanhã eu faço aniversário e ainda não me decidi o que sentir sobre isso. Sempre foi uma data meio tensa pra mim, mas nos últimos anos, as pessoas maravilhosas que eu trago comigo me mostraram que esse é sim um dia de celebrar e, acima de tudo, de me sentir bem. E eu senti um medo danado porque, nesse ano, nenhuma dessas pessoas estaria comigo (digo, fisicamente). Mas aí me aparecem uma amiga que desiste de viajar e de tudo o mais só pra estar comigo, uma host family inacreditável que programou cada segundo do meu dia com coisas legais, e uma família-postiça que me mostrou que também tem um cantinho do Brasil aqui na Holanda (e aí não tô só falando de comer pastel e tomar guaraná, mas do afeto que só a nossa gente tem). Pra ser sortuda assim, eu acho que estou mesmo fazendo alguma coisa certa na vida...

Da minha herança dutch, eu aprendi a arte de me programar e sei exatamente como vão ser meus dias até o último diazinho nessas terras, lá em outubro. E tentei encaixar nele todas as coisas que ainda faltam, os lugarejos holandeses, os museus, as viagens que eu tanto queria. Passei meus últimos dias trabalhando intensamente na logística desses outros dias. Não porque eu tenha me tornado uma louca controladora, nem porque me pese o que ainda não fiz. Mas porque quero levar comigo o máximo de cada lugar.

Eu olho pra trás, e pros lados, e me sinto uma velha. Não pelo peso das coisas, ou pelas minhas dores nas costas, ou porque fujo dos convites pra baladas - mas porque eu coleciono histórias. E isso, e os sorrisos que vem com elas, são as coisas mais importantes pra mim.

Mais cedo naquele mesmo dia da conversa com a minha host, fui comprar um café e consegui concluir quase todo o diálogo em holandês com o senhorzinho que trabalhava na loja. Quase no final, fui pega no pulo e não entendi o gracejo dele, então tive que explicar que meu holandês não era lá essas coisas. Ele sorriu contente e repetiu em inglês. Eu sorri de volta e já ia saindo da loja quando ele me chamou e disse: "Just keep being who you are". Horas mais tarde, no final da noite, a minha host já um pouco animada pelo vinho se despediu de mim pra ir dormir e me deixou por mais alguns minutos sozinha no jardim. Ela já estava em pé na porta quando se voltou pra mim e disse: "Just keep being who you are".

Eles não sabiam um do outro. E nem eu de mim. Mas acho que, mais do que nunca, posso me orgulhar em seguir o conselho deles.


sexta-feira, 5 de julho de 2013

Um lugar é feito de pessoas. Não tem o que me faça acreditar que a gente possa ser feliz sozinho. A minha grande sorte, em todas as minhas andanças, foi que estive sempre bem acompanhada. Talvez por isso cada lugar me tenha sido tão importante, de formas diferentes. Não adianta me perguntarem, não consigo escolher um destino preferido. Mas confesso que a última viagem vai ficar pra sempre num lugar quentinho do meu coração. Passei uma semana de férias, dividas entre Londres e Lisboa, com as melhores e mais antigas amigas que eu trago comigo. Se fosse pra definir em uma palavra, eu diria: surreal.

Entrei na viagem quando a Nana e a Nath, e um casal de tios mais que querido (salve, Rose e Daniel!), pousaram em Amsterdam - com a presença ilustre do meu ex-francês favorito, o namorado. Pude mostrar pra eles um pouquinho dessa minha nova terra, e foi então que percebi quão bairrista eu já sou com a Holanda. Quanto apreço eu tenho por esse lugar! Que alegria é dividir cada detalhe, cada sabor, cada gotinha dutch que já há em mim. Daqui, fomos pra Londres que - poxa! Era nosso sonho de infância, com toda aquela coisa de Harry Potter, Spice Girls e sabe-se-lá mais o quê que se passava no meu imaginário infantil. Mas foi muito mais que qualquer uma dessas coisas. Londres é um "cidadão", uma cidade frenética com o transporte público mais maluco que já vi na vida, aquele sotaque, todo o glamour da realeza, museus incríveis e gratuitos, comida e programas culturais de me tirar o fôlego. É como São Paulo, só que na Europa. E como São Paulo, eu tenho a sensação de que seriam necessários muitos outros dias pra que eu pudesse dizer que conheço alguma coisa. Antes que eu me desse conta, fomos pra Lisboa - e aí foi a vez da Nath dividir a vida dela com a gente, já que ela morou por seis meses lá, há dois anos. Que a cara do Brasil! Estar em Lisboa me explicou tanta coisa dos livros de História, tanto traço da nossa gente. Fiquei abobalhada em falar e ser entendida em português, em sentir calor novamente, em me empanturrar de comida de verdade de manhã, de tarde e de noite. O povo é caloroso como o nosso, a cidade é uma mistura de Rio de Janeiro e Salvador e, pra melhorar, é tudo barato! (Pra compensar a facada que são os pounds londrinos.)

As meninas são minhas amigas desde a infância, de verdade. Desde os dez, onze anos de idade. E isso diz muita coisa, por si só. Ter amigos de longa data proporciona um sentimento encantador de pertencimento. Você sabe exatamente onde está pisando e sabe que aquela pessoa vai saber o que quer dizer a sua cara de ódio ou de deslumbramento. E, no nosso caso, era quase sempre deslumbramento. Me despedi de todos eles com o coração na mão. Que vontade de ficar mais um pouquinho! Ou de voltar nas malas deles, ou de obrigá-los a ficar mais tempo comigo. Nunca um trajeto para um aeroporto me foi tão longo quanto aquele. Deixei parte do meu sorriso de bagagem extra pra voltar pra casa com elas.

E aí, como se já não fosse suficiente, julho chegou. O mês que eu menos queria que viesse. Porque as longas amizades podem ser pertencimento, mas as novas são redescobrimento. E a minha Holanda não teria sido a melhor de todas se não fosse a sorte que eu dei em ter uma host family incrível, mas, principalmente, amigas que fizeram cada um dos meus dias muito melhores.

Antes mesmo de chegar aqui, eu escolhi aleatoriamente algumas meninas também au pairs para tirar dúvidas e puxar papo no facebook. Quando eu cheguei, descobri que a Fabi era muito mais doce e divertida do que a menina que me fez mil encomendas antes mesmo de me conhecer; que a Talita era muito mais forte e abraçável (hehe..) do que a menina que dividiu comigo a ansiedade pelo embarque; e que a Lê, bem, ela não era só a menina que me salvou a pele ao me impedir de vir com a CI, mas a minha outra metade curitibana, a nova melhor amiga que estava guardada pra mim. 

Amanhã a Fabi se casa, no domingo a Talita vai embora, e na quinta a Fabi também. A Lelê fica mais um pouquinho (graçasaobomdeus!), mas vai se aventurar na Espanha por duas semanas e - pela primeira vez em quase nove meses - eu vou ficar sem nenhuma delas em Bussum. E não é que essa "solidão" me amedronte, mas sim a noção de como as nossas vidas vão pra rumos diferentes a partir de agora. 

E aí eu vou carregar comigo os pedacinhos delas, as histórias que vivemos juntas, as risadas sem fim, os piqueniques no chão da casa da Lê, os cafés na Hema. Vou levá-las na minha bagagem, assim como trouxe comigo tanto de tantos outros amigos incríveis. Minha vida não teria cor nenhuma sem vocês.


quarta-feira, 19 de junho de 2013

Antes de qualquer coisa, eu sinto que devo pedir desculpas aos amigos e demais leitores que passam por aqui. Especialmente aos que dizem: poxa, cadê post novo? Não vou mentir dando qualquer explicações, mas confesso que já comecei esse novo texto uma porção de vezes e não saía.

Do último post pra agora, uma coisa essencial mudou: a contagem. Parece engraçado, mas até agora eu contava pra frente - completei um mês, três meses, quatro... Só que agora a contagem ficou invertida - faltam quatro meses pra voltar pra casa. 

Mas ainda falta tanto pra fazer! Ainda faltam tantos lugares que eu queria ir, tanta coisa pra experimentar. O tempo encurtou mesmo e de repente eu quis fazer cada segundo valer ainda mais a pena. As últimas semanas, por exemplo, foram um turbilhão de atividades, gente chegando, gente saindo. Particularmente, devo dizer, acho que sou a au pair mais sortuda do mundo, porque nunca houve alguém para receber tanta visita gostosa quanto eu. 

E isso ajuda tanto! Sentir o calor da nossa gente, o gostinho de casa, o som da nossa língua, tudo isso faz ficar mais fácil. Até porque essas presenças nos trazem, acima de tudo, muito afeto! E fazem pensar que, por mais que ainda falte tanto aqui, é por conta desse afeto que ainda dá vontade de voltar pra casa.

Uns dias atrás eu disse pra minha irmã que não, nem o frio, nem as dificuldades, nem a língua, nem nada disso dá vontade de voltar. Mas ao mesmo tempo, também não dá vontade de ficar. Não dessa vez. Não hoje. Não assim.

Mas como diz a minha host, ainda não está na hora de pensar nisso. Por enquanto, posso me contentar em sorrir com o dia ensolarado as dez da noite, em me preocupar com a bicicleta estragada, em me empolgar ao fazer as malas mais uma vez, em nunca me cansar de resmungar sobre meus resfriados e afins, em me deixar corroer de ansiedade com as novas visitas que estão pra chegar. Me contentar e me encharcar da rotina. Deixar respingar tudo em mim. 


Ps: Estive pensando em uma porção de perguntas que os amigos e aspirantes a au pair sempre me fazem e pensei em fazer um post estilo "FAQ", com as coisas que vocês mais querem saber. Alguma curiosidade a mais, clique aqui nos comentários e manda bala! :)

quarta-feira, 29 de maio de 2013

- Faz uma matéria pra gente sobre a Holanda?
- Faço, ué, mas qual pauta? Você quer que eu fale sobre o quê?
- Sobre a Holanda.

Impossível compactar. Reduzi aos clichês do meu coração.
Leia mais em:
http://blogacontece.com.br/um-tour-por-nederland-famosa-holanda/

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Eu poderia falar nesse texto sobre como adorei Barcelona. Sobre como o clima era agradável, como é tudo lindo, como as cores e paladares me abasteceram os pulmões. Poderia descrever como a agitação cultural da cidade me encheu de ideias e como fiquei impressionada com a força da cultura catalã. Sobre o que aprendi sobre arquitetura integral e sobre as loucuras do Gaudí, graças ao meu guia querido e poeta das nuvens. Eu imaginava uma cidade vermelha, do sangue das touradas, e descobri uma cidade azul e verde, conurbada em natureza e entusiasmo.

Mas, apesar de tudo isso, decidi escrever sobre uma palavra que reaprendi por lá, o encantamento. É que a cada vez que um espanhol me foi apresentado, eles diziam: "encantado". Não diziam "prazer" ou "nice to meet you", porque, afinal de contas, isso quase sempre é uma grande mentira. Mas eles se dizem encantados. E acho, verdadeiramente, que é assim que a gente devia se sentir ao conhecer uma pessoa, um lugar, uma comida, um cheiro. Encantado.

Me mostrando a sua Barcelona, Gabriel me disse que gostaria de ver a cidade com os meus olhos, de quem a via pela primeira vez. Eu respondi que ele poderia fazer isso, e pensei que era só abrir os olhos todos os dias. É o que tenho feito aqui em Bussum, aqui na Holanda, aqui na vida. Em Goiânia, por onde passei todos os meus anos até então, eu tinha me esquecido da minha capacidade de encantamento e, agora, a reaprendi. Talvez porque numa experiência feito essa a gente se sinta instigado a apreciar. Talvez também seja a convivência com as crianças que, ainda de olhos e peito abertos, continuam sempre dispostas a ver.

Nos últimos dias de Holanda, descobri tanta espécie de flor como jamais pensei. Tanta cor nova, tanto tudo-novo a cada giro das rodas da minha bicicleta. Descobri ainda, todos os tons de laranja existentes, numa festa linda chamada Koninginnedag. Holandesa que não sou, poderia ter apenas me divertido e aproveitado as festas, os mercados de rua, as pessoas fantasiadas e tudo mais, mas havia uma coisa no ar que não me interrompia o encantamento. Os holandeses festejam, não só a rainha (ou, agora, o rei - leia mais no genial Ducs Amsterdam), mas o orgulho que sentem de serem filhos dessa terra. Nunca vi nada assim no Brasil. Ninguém se vestiria de verde-amarelo fora dos jogos da Seleção, pelo simples fato de que a gente se esquece de celebrar o lugar incrível de onde viemos. Quando os holandeses em plena Dam Square gritavam "Bedankt, Bea", eles agradeciam não pelas excentricidades de ter uma família real, mas pelo lugar laranja e mágico onde estão.

Ok. Vocês podem dizer que estou sendo equivocada e que os holandeses sequer se lembravam de patriotismo algum enquanto dançavam loucamente nos barcos-festa que cruzavam os canais de Amsterdam. Concordo. Mas está intrínseco, entendem? Pergunte a eles qualquer coisa sobre a Holanda e você vai ver o peito estufado, pronto pra briga. Na última semana, recebi uma carta do governo questionando o motivo de eu não ter completado meus estudos. É que sou registrada na cidade, mas não constam registros escolares ou coisa assim. Então, eles vêm bater na nossa porta pra saber por quê. E não é só isso, eles te dizem "olha, você não estudou, mas a gente quer te dar uma oportunidade de concluir a escola e, também, de arrumar um emprego". Dá para entender porque eles podem se orgulhar, e não estou falando só de tulipas e cervejas.

Não vou tatuar um mapa do Brasil em mim ou pregar um patriotismo esquecido nos anos de meus avós (se é que ele existiu!). Não quero uma família real no Brasil, nem achar que o que acontece aqui é mais bonito que lá. Imagino os queixos caídos dos holandeses se presenciassem nossos carnavais, nossas serenatas, nossos ritos. Eles não fazem ideia do que é uma praia de verdade! Mas, recuperados os instintos de me encantar, não posso mais deixá-los partir.

Quero carregar comigo tudo que acumulo por aqui, mas preencher ainda mais a bagagem com tudo que meus olhos já se cansaram de ver. Quero sentir os olhos exaustos que me encontram todos os dias, apreciar as velhas histórias que já sei de cor.

Quero, em espanhol, holandês ou português, a chance de abrir os olhos e me encantar todos os dias.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Duas coisas mudaram a minha percepção e acenderam meus sentidos nessa última semana.

Pra começar: o sol. No último final de semana, tive a impressão de que os holandeses festejavam o bom tempo (20 graus, diga-se de passagem). Foram pra praia, vestiram-se com cores mais alegres e saíram para sentar-se na porta de casa como fariam as velhinhas de Goiás Velho. Ao longo de toda a semana, deixamos as crianças brincarem tranquilamente como se a rua toda fosse parte da nossa casa. No sábado, fui com a host family ao Keukenhof - que apesar de ser um clichezão turístico para eles, foi encantador para mim. Nunca imaginei que houvessem tantos tipos de flores e tantas cores reunidas num só lugar. 

Mas, claro, estamos na Holanda, e a primavera não estava só lá. Foi incrível como, de repente, a cidade inteira se coloriu. A árvore do nosso quintal se vestiu de rosa e o caminho até a escola ganhou uma passarela de florzinhas rasteiras em vários tons de roxo. Por falar em caminho, me deixei perder por novos caminhos e descobri (com a Lê - companheira de aventuras) uma Bussum completamente nova, que ainda não me tinha sido apresentada. 

Sei que já falei aqui sobre como a veracidade das estações aqui na Europa me comove, mas não canso de dizer como isso é absolutamente mágico. Do dia para a noite, plam! foi como se tivéssemos nos mudado para uma nova cidade. (Ou será que foi o sol que me abriu novamente os olhos?) Eu amei o inverno, claro. Era tudo novidade e é tudo tão lindo e branquinho e parece que a vida passa até mais devagar. Mas agora entendo perfeitamente porque o brasileiro é (no geral) um povo tão sorridente e animado. Foi só abrir um solzinho, que toda a Holanda começou a sorrir.

O segundo fato aconteceu ainda hoje. Acordei por volta das cinco da manhã ouvindo os gritos do meu menino. Apesar de o meu quarto ser no andar de cima do deles, sempre consigo ouvir quando os dois choram a noite, afinal, passo o dia todo com o "radar" ligado e ele não consegue entender quando "estou off". A diferença aí foi que, nessa madrugada, o Lucas não chorava pela mãe, mas por mim. Foi tudo tão rápido que acho que ainda estava dormindo quando me vi ali, em pé na ponta da escada, decidida a acudir o choro do meu menino. Ele chamava com toda a força: Dooora, Dorraaa, Dooorrraa! Num minuto o choro cessou e eu voltei pra cama, sabendo que tinha sido só um pesadelo, nada de mais, coisa de criança. Demorei mais um bom tempo para pegar no sono de novo, esperando qualquer som ou movimentação que me mostrasse que ele havia acordado outra vez ou que precisava de mim.

"Meu menino". Onde foi que eu consegui parir um menino tão loiro assim ou uma neném de olhos tão azuis? Nem com um milagre da genética... Onde foi que me ensinaram a ter o sono frágil, a resolver todos os problemas do mundo com abraços e beijinhos, a cuidar como se eles fossem parte de mim? Logo eu, que nunca soube cuidar nem de bicho ou de planta... Virei mãe sem gestação e descobri, num segundo, como é ter o maior amor do mundo.

É difícil ter que tirar o sentimento de tudo que estou vivendo e a linha tênue que faz isso aqui em casa já se dissolveu há tempos. Isso não acontece com todo mundo, não é toda au pair que cai nessa cilada. Erro meu. Talvez o maior erro que cometi até agora. Não me lembrem que daqui a seis meses vou deixá-los para trás. Abandono de lar - isso é crime, não é? Deixar um pedaço do coração do outro lado do oceano.

Pode ser que esses dois fatos só tenham significado tanto porque estão aqui: bem no meio do meu ano, bem no dia em que completo seis meses fora de tudo que me havia de confortável e digno do meu amor. Esses acontecimentos vieram só me mostrar a cara da metade. Eu tenho uma metade em cada uma das mãos e penso em toda a mudança que me passou por dentro e por fora nos últimos seis meses - tudo me parece uma loucura! Você, leitor, pode estar cansado dessa minha contagem obcecada, mas é que não faz mesmo sentido, o tempo nunca me foi tão intenso e tão solúvel. 

Seis. Zes. Outros seis. Andere zes.


Obrigada a todo mundo que caminhou comigo até aqui. Que leu meus textos, que se encorajou ou que perdeu a vontade, que curtiu minhas fotos ou criticou minhas vontades. Mas, principalmente, obrigada aos que aprenderam (ou relembraram) junto comigo o significado de saudade. Uma palavra sem tradução e do tamanho do mundo. Uma palavra que me ajuda a ter tanto orgulho da língua portuguesa. A minha palavra preferida em holandês é geluk, que eu já gostava antes mesmo de ter aprendido a pronúncia. Espero que vocês continuem comigo, de longe ou de perto, de muito ou de pouquinho. E que geluk continue sendo, pelos próximos seis meses, a minha maior conquista nesse ano laranja.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Algumas coisas são impossíveis de contabilizar. Não dá pra contar quanta riqueza eu estou ganhando ou perdendo aqui. E o termo é riqueza mesmo, pela duplicidade de sentidos que ele implica. Eu sempre acho graça quando alguém questiona viagens ou intercâmbios, dizendo que "o fulano perdeu um semestre na faculdade porque estava na Conchinchina", ou "o beltrano abandonou um bom trabalho pra ir pra FimDoMundoTown", ou "o quê diabos essa menina acha que vai conseguir tentando aprender holandês?".

Será que a gente perde mesmo?

Claro que acho que não, se não eu não estaria aqui me encaixando em todas as críticas possíveis. Mas a questão é que acredito profundamente que isso vai muito além de não-perder. E se há alguma coisa que eu quero poder não contabilizar mesmo é o quanto vou ter ganhado ao final deste ano. Das minhas últimas jornadas, por exemplo, trouxe comigo uma moeda tcheca e o amor pela França. Pera lá, eu explico.

No feriado de Páscoa (ah! aqui a gente tem o domingo, mas também a segunda-feira de feriado), botei a mochila nas costas e fui pra Praga, a capital da República Tcheca. A cidade é deslumbrante, diferente de tudo o que eu já tinha visto até então, não só pela arquitetura maravilhosa, mas por peculiaridades como a moeda e a língua. Por lá, o seu dinheiro se multiplica, já que, quando você paga 30 coroas numa cerveja, a conversão faz plim! e você descobre que aquela foi a cerveja (maior e) mais barata da sua vida (cerca de 1,4 euros) - inclusive, falando nisso, por essas e outras os tchecos consomem o maior volume per capita de cerveja no mundo! A língua tcheca também é genial, uma coisa de bêbado (como diria a Helô, minha companhia querida nesse pedaço do Leste europeu), absurda e escrita com acentos circunflexos de ponta cabeça, além de outros sinais gráficos que eu praticamente desconhecia (e olha que eu moro num lugar onde se fala holandês!). Saiba mais e divirta-se clicando aqui (atenção! clica onde tem escrito "listen").

A Lennon Wall (eu faria um texto inteiro só pra ela, porque não dá pra explicar o impacto que tanta cor e diversidade me causaram!), a Charles Bridge e suas luzes, a Dancing House, os mercadinhos, o relógio astronômico... A cidade toda é linda, apesar de estar terrivelmente lotada de turistas que, como eu, queriam tentar extrair um pouco da atmosfera daquele lugar. Assim como senti em Berlim, a cidade é pura história e isso é notável em cada canto, em cada pedaço de revolução, em cada mudança política pela qual o povo da Boêmia passou. Eu até comentei que o mínimo que os tchecos podem fazer é ser mesmo poetas e filósofos ou qualquer outra categoria "intelectual", que é como uma retribuição por viver num lugar daqueles.

Umas semaninhas antes, coloquei o pé na estrada de novo em direção a Paris. E uma semana depois de Praga, novamente Reims. Se você visitar o blog mais para trás, vai ver que as duas são cidades repetidas, e pode até pensar que "figurinha repetida não completa o álbum", mas nesse caso, o ditado não tem razão. Nas duas vezes, o fato de o Lucas (o namorado!) estar morando na França foi a desculpa perfeita para fazer as malas mais uma vez. Mas caminhando com ele por uma das pontes que cortam o Sena, eu não podia deixar de dizer do meu amor pela França. Eu já sabia que isso aconteceria, afinal, não é coincidência esse meu sobrenome e a minha paixão pela língua francesa. Mas agora, aqui, assistindo as paisagens dos campos verdes que cercam a região de Champagne-Ardenne ou suspirando ao ver as luzes da Torre Eiffel se acenderem (eu vou sempre suspirar por ela!), eu percebo que não há mais saída. A França ganhou meu coração e, possivelmente, eu repetirei as figurinhas muitas outras vezes.

Meus hosts brincam que no final deste ano, eu vou ter conhecido mais lugares do que eles, que nasceram e moraram a vida toda nessa Europa-linda-de-meu-deus. Uns amigos holandeses (os que me deram carinho e carona rumo à Reims) disseram o mesmo e, na verdade, eu já conheço mais coisas do que eles. E, talvez, se eles fossem morar um ano no Brasil  conheceriam mais paisagens incríveis do que eu jamais vi na minha própria terra. E olha que eu já vi um bocado de Brasil, devo dizer! Inclusive, foi daí que veio essa minha vontade enorme de abraçar o mundo, porque ela me foi ensinada no berço - nas inúmeras viagens de carro, avião, ônibus, barco ou o que quer que ligasse dentro do meu pai o alarme de "vambora!". 

Mas ainda me cabe mais tanta coisa... Quero muito mais moedas, fotos, postais, amores-geográficos e lembranças infinitas, porque, pelo menos por enquanto, é isso que mata a minha fome.

E eu tenho muita, muita fome.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Eu tava bipolar em relação a esse post: ao mesmo tempo louca pra escrever e evitando isso ao máximo. Porque há uma possibilidade bem grande de chorar tudo de novo antes que o texto e a palavra acabem. Mas vou apostar na possibilidade oposta, de que as palavras e as lembranças saibam se guardar de um jeito mais gostoso que todo o resto.

Nessa última quinta-feira, me despedi da minha família pela segunda vez. E aí eu começo contando pelo final, de como achei que nunca mais ia parar de chorar quando me vi acenando sozinha e infinitamente para a Isa, Wilma e meu pai no aeroporto de Amsterdam. Eu juro que achei que nunca mais ia parar de chorar na vida. Mas parei, e não demorou tanto quanto parecia. Parei, porque - poxa vida!, quantas outras intercambistas têm a chance de matar as saudades no meio do caminho como eu tive? E ainda mais, quem é que tem a chance de ter uma família tão incrível quanto a minha?

Eles passaram uns 18 dias viajando pela Europa - Barcelona, Roma, Paris, Reims, Bruxelas, Bussum, Amsterdam. Gastaram muito mais que podiam, adoeceram de tanto frio e de tanto andar, e eu já tenho certeza que esses terão sido alguns dos dias mais felizes do meu ano laranja. Ninguém mais poderia me ofertar tanto sorriso, tanto amor.

Nosso primeiro encontro foi em Roma. Peguei meu final de semana de folga e meu primeiro avião aqui para encontrá-los no lugar mais quentinho dos últimos meses. Que delícia ver o sol! Eu não conseguia parar de me encantar com o céu azul e o solzinho que até me deixava tirar um pouco dos casacos. Tínhamos marcado de nos encontrar em Termini, a estação central de lá, e eu duvidei que meu pai não teria um ataque cardíaco de me imaginar pegando uma bike, um trem, um avião e um ônibus para encontrá-los. Mas ele sobreviveu a isso e a todos os outros meios de transporte e baldiações e caminhos com neve que me viu atravessando! Eu estava meio perdida naquela estação gigante e resolvi atravessar de um lado para o outro para tentar achar algum rosto menos italiano. Foi então que vi um homem de chapéu, andando engraçado, se sacudindo de um lado para o outro, e que não poderia ser ninguém menos que meu pai. Não me lembro mais o quê, mas sei que comecei a dar gritinhos e sai correndo para o abraço mais apertado e esperado da vida. Meu coração se encheu de combustível vezes três, a cada abraço.

Daí em diante, só sorri. Comi pizzas, massas, panetone, gelattos incríveis. Joguei moedinhas com a Isa na Fontana di Trevi, visitei o Coliseu (Jader, entrei por você!!), as ruínas do Fórum Romano, o Panteão, o Vaticano (na foto aí de cima), a Basílica de São Pedro, e todas aquelas ruas e monumentos sem fim. Roma é, de fato, uma cidade para se maravilhar (ou, para "comer, rezar, amar", se preferirem). Você vira uma humilde esquina, seguindo o caminho do mapinha, e pá! Do nada te aparece uma construção gigantesca, cheia de detalhes e de nada mais-nada menos que mais de dois mil anos de existência.

Quase perdi o voo de volta (não confie no transporte público italiano!), mas deu tudo certo no final e cheguei para mais uma semana de trabalho, enquanto eles partiam para Paris, onde fui encontrá-los novamente na outra sexta-feira. Andamos o dia todo, pude ver meu parisiense-favorito novamente (salve, Pedro!) e me apaixonei ainda mais pela cidade, agora acompanhada da guia mais bacana e divertida de todas e que consegue amar Paris a cada esquina, mesmo passando mal. E sim, finalmente, meus caros: fui na Torre Eiffel! (aplausos aqui..)


No dia seguinte, fomos pra Reims, a cidade do champagne e do Luquinhas. Além de uma Catedral de Notre Dame (essa da foto ao lado!) ainda mais bonita que a de Paris, a cidade tem um charme enorme e é muito mais bacana do que meu namorado humilde-em-descrições me deixava imaginar. Visitamos a cave do Champagne Pommery, a universidade e a casa do Lucas, e conseguimos a peripécia de fazer a família toda jantar um delicioso kebab. De lá, na manhã seguinte, partimos para cerca de cinco horas em Bruxelas - a menor parada do nosso roteiro. Apesar de estar quase morrendo congelada, conseguimos ver alguns pontos turísticos como a Grand Place (da foto abaixo!), o Manneken Pis e o Parque de Bruxelas, além de claro, todas as gostosuras belgas como chocolates, waffles, batatas fritas e cervejas.

De lá, trouxe meus lindos deslumbradinhos com a neve para essas terras que já estou chamando de minhas. Trabalhei só na segunda-feira, e tive o resto da semana toda de folga, já que meus hosts são incríveis e se solidarizaram com as minhas visitas. Andamos longamente pela neve em Amsterdam (-8 graus, minha gente!), jantamos com a super-querida família da Helô, fomos ao Madame Tussauds, às lojas de queijo, comemos comida tipicamente holandesa (vai vir um post só pra isso, eu juro), congelamos os dedos dos pés inúmeras vezes, compramos presentes e, o mais bacana de tudo, eles vieram na minha pequena Bussum conhecer a minha casa, minha rotina e a minha host family. Preciso dizer quanto amor explodia de dentro de mim?

Juntar essas duas famílias foi inacreditável! Ver a Wilma segurando a Valentine, a Isa se divertindo com as piadinhas do Thjis, meu pai fazendo mágicas para o Lucas e a Noor impressionando todo mundo com um jantar super lindo e chique, preparado especialmente praquele encontro foi... - sem palavras. Eles se entrosaram bem, todos se adoraram apesar da dificuldade linguística, e no fim, meu pai ainda conseguiu soltar umas emocionadas frases de agradecimento, completadas com a promessa dessa minha família dutch de que vai continuar cuidando assim, tão bem de mim. Se eu já não tinha dúvidas quanto ao afeto, agora é também uma questão de honra.

Eu não poderia estar mais feliz. Foi como estar de férias, como juntar meus sonhos todos numa mesma caixinha. Viajar junto faz as pessoas se conhecerem melhor, realça os defeitos e qualidades, e faz a gente se ver melhor também. A minha cumplicidade com a minha irmã, meu respeito e carinho pela minha madrasta, meu amor ilimitado pelo meu pai serão sempre uma parte essencial da bengala em que eu me apoio todos os dias. Quando tá difícil ou quando tá legal.

Não dá pra descrever o tamanho da minha saudade de casa, e do Brasil. De cada um de vocês que se deu ao trabalho de chegar até o final desse post imenso. Mas também não dá pra descrever o quanto de amor e gratidão estão em mim agora, especialmente por esses três, que fizeram meus dias tão maravilhosos durante toda a vida e ainda mais nessas últimas semanas. Obrigada por cada croissant, cada palhaçada, cada foto, cada centavo de euro, cada conversa, cada cada cada...

Como diz meu pai, já não quero mais pensar em "até outubro!" - outubro tá longe e dói. Por enquanto, prefiro pensar assim "tot ziens", "até a próxima!".

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012


Na viagem à Paris fui pega de surpresa com o primeiro Christmas Market da minha vida. Estávamos andando pela Champs Elysees e eu já estava maravilhada o suficiente, quando a rua se encheu de luzinhas e barraquinhas. E, claro, churros. Todo mundo que passava por mim, carregava um pacotinho com doces: waffles, churros, algodão doce, crepes, maçã do amor. Foi mais que suficiente pra ganhar meu coração.

Daí para frente, descobri que os mercados de Natal são tradicionais aqui na Europa. Tem pra todo canto. E é divertido, porque cada um tem sua características. Alguns são super famosos e recebem turistas que vão até a cidade especialmente para sentir o clima natalino, como é o caso de Maastricht, aqui na Holanda, e Dusseldorf, na Alemanha. Alguns são mais divertidos e criativos e vendem todo tipo de buginganga e coisinhas criativas. Soube de mercados exclusivos de produtos orgânicos, outro exclusivos de flores e decorações para o Natal, e enfim, descobri que no fundo é uma desculpa para o pessoal montar uma feirinha mesmo.

Como não sou boba nem nada, resolvi botar minhas botas pra trabalhar e fui ver de perto o KerstMarkt (em holandês) de Maastricht. A cidade é a mais longe que eu poderia escolher dentro da Holandinha, o extremo sul do país, e fica a nada mais nada menos do que três horas (de trem!) da minha - já que eu moro no norte do país. Ainda no caminho percebi que a coisa não era brincadeira: o trem vinha tão cheio que fizemos quase o trajeto todo em pé ou sentados nas escadinhas entre os vagões. 

Eu tinha me preparado toda com mapas e anotações pra não errar o caminho da estação para o mercado, que fica na Vrijthof, a praça principal da cidade (que é bem grandinha, diga-se de passagem). Mas não precisei. Sabe aquela coisa de efeito boiada, de que é só seguir o fluxo da multidão? Pois então! Todo o caminho até a praça já transpirava Natal: as luzes, árvores, presentinhos decorando postes e até mesmo as lojas comuns, todas tocavam aquelas típicas canções natalinas que grudam nos ouvidos da gente. Numa dessas, assistimos até um coral natalino que cantava dentro de uma livraria. (Vale a pena ver umas fotos aqui!)

O KerstMarkt de Maastricht desapontou no quesito compras. Tínhamos deixado alguns presentes para comprar lá, mas foi em vão, porque quase não se viam banquinhas legais de fato. Em compensação, tinha pista de patinação no gelo (um abraço aqui para os que, assim como eu, não tem o menor talento), roda gigante, brinquedos pra criança pequena e criança grande que nem a gente, uma decoração linda e comidinhas tudo-de-bom (waffles com calda de cereja: te-quero-pra-sempre!).

No fim, eu só contei isso tudo para dizer que, finalmente, o Natal me pegou. Sempre fui dessas chatas que não curte muito as festas de fim de ano e que sempre arruma um motivo pra reclamar. Algumas vezes eu até tive os motivos, outras não e reclamei mesmo assim. Sempre detestei com todas as minhas forças essas canções natalinas. Acho que seria capaz de enforcar a Simone e o Ivan Lins ou quem mais me resolvesse cantar aquilo. Morria de raiva das luzinhas no prédio da frente que iluminavam meu quarto e me atrapalhavam a dormir. Tive alguns natais maravilhosos, claro, e isso aconteceu unicamente porque eu tenho uma família maravilhosa. Mas, mesmo assim, a minha implicância não passava.

Dessa vez, preciso admitir que passou. Os enfeites da árvore de Natal da minha casa são de chocolate e foram escolhidos a dedo por uma criança que nem sabe pra quê que isso serve, mas que ficou feliz mesmo assim. Apesar do inverno, Bussum e todos os lugares por que passei nos últimos dias se encheram de cor e alegria enfeitados de luzinhas e árvores de Natal (ah, elas são naturais, é importante explicar!) e eu pude, finalmente, oferecer meus sorrisos todos pra elas. 

Acho que mudei de ideia sobre o Natal. E talvez seja porque os bons motivos pra se ter um feliz Natal estão (quase) todos longe de mim. A saudade abre o coração da gente.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Crédito: Letícia Pomaleski - mais esperta que eu, foi fotografar
Depois de alguns dias sofrendo na expectativa e conferindo a previsão do tempo a cada duas horas, hoje - de fato - nevou. Não fui pro meio da neve ser feliz, nem tirei fotos, nem fiz um boneco com nariz de cenoura. Fiquei olhando a chuvinha virar gelo da janela, plácida. Aos poucos, a mesa que fica no jardim foi mudando de cor, até parecer que vestia uma capa de chuva totalmente branca. Não me atrevi a sair pra pedalar e confesso que pedi pra todos os santos que a neve tivesse diminuído até a hora da minha aula. A prece deve ter sido mesmo forte, porque algumas horinhas depois... fim. A chuva fina de todos os dias veio e derreteu meu jardim branco.

Eu devo ter repetido mil vezes no último final de semana que estava com medinho da neve. E quando ela foi embora, poxa, eu fiquei desapontada. Tem um num-sei-o-quê de paz de espírito na forma com que aquilo acontece. Ainda bem que a previsão do tempo me mostra mais dias assim ainda essa semana. E, afinal, é só o começo. Winter is coming, agora é inquestionável.

Enquanto ele não chega de vez, eu vou fazendo os dias por aqui.

Fui pra Paris passar um final de semana e, quem diria, vi o Mickey, mas não fui na Torre Eiffel. Explico: não contava com isso, mas passei um dia na EuroDisney (que tava toda lindinha e decorada de Natal!). E além de ter me divertido horrores por lá, andei muito, comi maravilhosamente bem, fui num samba, vi o carrossel da Amelie, a Shakespeare and Company e a pirâmide do Louvre, senti o vento correr o Sena, passeei no Christmas Market da Champs Elysees e, sabe do melhor? Reencontrei duas pessoas maravilhosas e que me fizeram me apaixonar: por eles e pela cidade. Porque o amor pode estar num kebab que se come depressa, ou em dividir a casa a vida e as canções. A minha Paris vai ser pra sempre mais bonita que a dos outros.

De lá pra cá, a vida ganhou novo gás e mais saudades. Conheci novas pessoas e lugares aqui na Holanda mesmo. Fui em duas exposições bacanérrimas em Amsterdam (alô, Eye-lindo e Toetanchamon-divo!) e vi um espetáculo maravilhoso, em plena Dam (a praça famosa e cheia de turistas de Ams), debaixo de um frio como nunca tinha sentido igual. Fui numa balada de verdade (orgulhem-se de mim, amigos!), numa boate gay com uma festa temática de Sinterklaas. Conheci Haarlem, que é a capital da província de Noord-Holland (que é o "estado" em que se situa tanto Amsterdam, como a minha cidade) e onde se fala o holandês mais bem falado do país. E dormi na casa da Letícia, como fazem mesmo as amigas - fofocando até tarde, quebrando galhos e descobrindo que tudo pode ter mais graça quando dá pra dividir com quem se quer bem, com gente do bem.

E no fim, sabe o quê é? Quanto mais eu vejo do mundo, mais me apaixono pelas pessoas.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Eu poderia fazer um post lindo e emotivo falando do último final de semana em Paris (calma, ele virá). Eu poderia falar sobre o amor, sobre o tempo, sobre a comida, ou sobre remédios e consolos infantis. Eu poderia até mesmo nem falar nada, mas hoje foi preciso.

Meu primeiro mês de Holanda foi comemorado logo cedo, por volta das oito da manhã. Um pequenino loiro e sonolento me presenteou, meio a contragosto, e com o sorriso escondido mais gostoso da vida.

Não é sempre fácil. A saudade aperta a cada segundo, tudo é lembrança do Brasil e de cada uma das pessoas maravilhosas que me preenchem os dias. E passou-se só um mês. Seja sempre bem vinda, vida.

terça-feira, 13 de novembro de 2012


Desde que cheguei penso em escrever sobre Amsterdam, mas ainda não me sentia “pronta” pra isso. Ainda não me sinto, é verdade, e talvez por isso esse seja só o primeiro de vários textos que vão sempre retomar o assunto.

Ainda não visitei os pontos turísticos e óbvios da cidade, ainda não tirei fotos no clássico I Amsterdam, ainda não fui em nenhum único museu que seja. Mas agora me sinto mais perto da cidade, porque pude senti-la em meus próprios pés e pulmões. Respirei o ar gelado que corta as ruas principais com seus canais infinitos, o ar engordurado das ruas feitas pra turistas e os ares encantados das ruazinhas laterais repletas de coffeeshops.

Amsterdam (ou Amstedã ou Amsterdão, como preferir) é capital e maior cidade dos Países Baixos. E, para a minha alegria, fica situada a apenas 23 minutos (de trem!) da cidade em que moro, Bussum. Por conta disso, tive o prazer de ir até lá já algumas vezes em tão pouco tempo. E posso dizer, sem dúvida, que em Amsterdam a gente vê de tudo um pouco. Mulheres em vitrines vermelhas e folhas de maconha em banners coloridos são só a capa que colocam pra gente ver de longe, assim como fazem com nossos futebol e carnaval.

Todas as raças e credos misturados, vozes de todos os sons e culturas, comidas de todas as cores. Amsterdam é morar dentro de um barco no meio do canal, é ter portas abaixo do nível da rua e outras portas estreitas que terminam em predinhos amontoados de sabe-se-lá quantos andares. Amsterdam é ver o Nemo já de longe e o mercado flutuante de flores de perto. Amsterdam é o Artis, é arquitetura e design, é Anne Frank, é Van Gogh. É batata frita no meio da rua e é não conseguir ler nenhum nome de rua sequer. Amsterdam é o zunido das bicicletas e trams e trens e carros que seguem ininterruptos – imunes a mim, e meus olhos de comer o mundo.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Quatro dias em um lugar novo, uma língua nova, uma família nova. Com tudo novo assim, já me parece um mês. Acho que decidi fazer o blog mesmo principalmente por causa desses quatro dias, porque aconteceram tantas coisas que... bem, vamos começar pelo começo.

Com um voo de mais de 10 horas, cheguei no aeroporto de Amsterdam no último sábado, dia 19. Depois de uma meia hora para apresentar o passaporte e pegar as malas, desembarquei já suando como uma lady. Para compensar, a primeira coisa que vi do outro lado do portão foi a minha host Noor com a neném Valentine. Elas abriram um sorrisão ao me ver e eu só conseguia pensar em quão alta ela era. Nesse meio tempo, vieram também o host Thjis e o menininho mais loiro da minha vida, o Lucas. Eles tinham comprado um balão de boas vindas e flores pra me receber, uns fofos. (*ps: aprendam os nomes para facilitar meu trabalho, obrigada!)

Do aeroporto fomos pra casa, em Bussum. A cidade é bem pequenininha e fica bem perto de Amsterdam, coisa de 15 minutos de carro. Parece uma cidade de boneca, com as casinhas parecidas, crianças brincando nas ruas e, claro, bikes! Dezenas delas... Outra coisa que super vale ressaltar é o outono. Sim goianos, o outono existe e é uma coisa linda de se ver. O Thjis me zoou bastante porque eu fico tirando fotos das árvores, mas não dá pra me controlar. É uma mistura de amarelo, laranja, marrom e verde, as folhas caídas no chão, tudo lindo.

Meu quarto também é lindo, por falar nisso. Espaçoso, confortável e decorado especialmente para mim. Com porta retratos, flores, luminárias e uma cama que dá vontade de ficar pra sempre. No mais, a casa é relativamente simples. Isso é uma coisa engraçada por aqui, porque eles realmente não se importam em demonstrar a riqueza. Não tem essa competição de quem tem o carro mais bonito ou a casa maior, como no Brasil.

Os hosts são definitivamente uns queridos. O Thjis é um fanfarrão, faz piada toda hora e está sempre de bom humor, mesmo estando meio gripado desde que cheguei. Ele trabalha muito, então curte as crianças ao máximo quando está por aqui. Já a Noor, bom, ela é muito mãe. Super tranquila, tenta fazer tudo pra que meu tempo aqui seja o mais agradável possível. Ela tirou essa semana de folga pra ficar comigo, então eu estou podendo observar e aprender tudo. Ela conversa muito comigo, quer saber dos meus amigos e família no Brasil, toda bonitinha, e é também muuuito paciente por aguentar todas as minhas pequenas dúvidas.

As crianças... O Lucas tem 2 anos e a Valentine tem 5 meses. Ela sorri o tempo todo, quase não chora, é uma preguiçosinha e já está no maior dengo comigo. Participei da sua primeira “degustação de papinha”, e ela é tão boazinha que nem estranhou! Já ele ainda me evita um pouco, pede pela mãe, faz uma birrinha aqui ou acolá, mas acho que seremos grandes amigos. Ele não fala inglês ainda, então isso dificulta um pouco, já que minha conversa com ele é quase uma adivinhação. Mas temos nossos momentos:

- o primeiro dia foi o mais difícil, ele não queria mesmo saber de mim. Saía correndo, só dizia não, não, não. Maaas, na hora que eu ia para o meu quarto pra dormir, só ouvi ele perguntando alguma coisa para a mãe e ela saiu correndo atrás de mim. É que ele queria me dar um beijinho de boa noite <3

- os hosts tentaram ensiná-lo a falar meu nome e deram várias opções: Deh, Debra, Déborah, enfim. E ele só dizia que não, não, não. Numa outra hora, espontaneamente, ele disse: Papa, Mama, Tine, Lucas en Dora! Então, a partir daí, eu sou a Dôôra. Os pais até tentaram corrigir, mas foi tão bonitinho que até eles já me chamam assim. Dora é o desenho preferido dele e o nome da minha avó.

Tem como não morrer de amor?
 

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