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sexta-feira, 19 de abril de 2013

Duas coisas mudaram a minha percepção e acenderam meus sentidos nessa última semana.

Pra começar: o sol. No último final de semana, tive a impressão de que os holandeses festejavam o bom tempo (20 graus, diga-se de passagem). Foram pra praia, vestiram-se com cores mais alegres e saíram para sentar-se na porta de casa como fariam as velhinhas de Goiás Velho. Ao longo de toda a semana, deixamos as crianças brincarem tranquilamente como se a rua toda fosse parte da nossa casa. No sábado, fui com a host family ao Keukenhof - que apesar de ser um clichezão turístico para eles, foi encantador para mim. Nunca imaginei que houvessem tantos tipos de flores e tantas cores reunidas num só lugar. 

Mas, claro, estamos na Holanda, e a primavera não estava só lá. Foi incrível como, de repente, a cidade inteira se coloriu. A árvore do nosso quintal se vestiu de rosa e o caminho até a escola ganhou uma passarela de florzinhas rasteiras em vários tons de roxo. Por falar em caminho, me deixei perder por novos caminhos e descobri (com a Lê - companheira de aventuras) uma Bussum completamente nova, que ainda não me tinha sido apresentada. 

Sei que já falei aqui sobre como a veracidade das estações aqui na Europa me comove, mas não canso de dizer como isso é absolutamente mágico. Do dia para a noite, plam! foi como se tivéssemos nos mudado para uma nova cidade. (Ou será que foi o sol que me abriu novamente os olhos?) Eu amei o inverno, claro. Era tudo novidade e é tudo tão lindo e branquinho e parece que a vida passa até mais devagar. Mas agora entendo perfeitamente porque o brasileiro é (no geral) um povo tão sorridente e animado. Foi só abrir um solzinho, que toda a Holanda começou a sorrir.

O segundo fato aconteceu ainda hoje. Acordei por volta das cinco da manhã ouvindo os gritos do meu menino. Apesar de o meu quarto ser no andar de cima do deles, sempre consigo ouvir quando os dois choram a noite, afinal, passo o dia todo com o "radar" ligado e ele não consegue entender quando "estou off". A diferença aí foi que, nessa madrugada, o Lucas não chorava pela mãe, mas por mim. Foi tudo tão rápido que acho que ainda estava dormindo quando me vi ali, em pé na ponta da escada, decidida a acudir o choro do meu menino. Ele chamava com toda a força: Dooora, Dorraaa, Dooorrraa! Num minuto o choro cessou e eu voltei pra cama, sabendo que tinha sido só um pesadelo, nada de mais, coisa de criança. Demorei mais um bom tempo para pegar no sono de novo, esperando qualquer som ou movimentação que me mostrasse que ele havia acordado outra vez ou que precisava de mim.

"Meu menino". Onde foi que eu consegui parir um menino tão loiro assim ou uma neném de olhos tão azuis? Nem com um milagre da genética... Onde foi que me ensinaram a ter o sono frágil, a resolver todos os problemas do mundo com abraços e beijinhos, a cuidar como se eles fossem parte de mim? Logo eu, que nunca soube cuidar nem de bicho ou de planta... Virei mãe sem gestação e descobri, num segundo, como é ter o maior amor do mundo.

É difícil ter que tirar o sentimento de tudo que estou vivendo e a linha tênue que faz isso aqui em casa já se dissolveu há tempos. Isso não acontece com todo mundo, não é toda au pair que cai nessa cilada. Erro meu. Talvez o maior erro que cometi até agora. Não me lembrem que daqui a seis meses vou deixá-los para trás. Abandono de lar - isso é crime, não é? Deixar um pedaço do coração do outro lado do oceano.

Pode ser que esses dois fatos só tenham significado tanto porque estão aqui: bem no meio do meu ano, bem no dia em que completo seis meses fora de tudo que me havia de confortável e digno do meu amor. Esses acontecimentos vieram só me mostrar a cara da metade. Eu tenho uma metade em cada uma das mãos e penso em toda a mudança que me passou por dentro e por fora nos últimos seis meses - tudo me parece uma loucura! Você, leitor, pode estar cansado dessa minha contagem obcecada, mas é que não faz mesmo sentido, o tempo nunca me foi tão intenso e tão solúvel. 

Seis. Zes. Outros seis. Andere zes.


Obrigada a todo mundo que caminhou comigo até aqui. Que leu meus textos, que se encorajou ou que perdeu a vontade, que curtiu minhas fotos ou criticou minhas vontades. Mas, principalmente, obrigada aos que aprenderam (ou relembraram) junto comigo o significado de saudade. Uma palavra sem tradução e do tamanho do mundo. Uma palavra que me ajuda a ter tanto orgulho da língua portuguesa. A minha palavra preferida em holandês é geluk, que eu já gostava antes mesmo de ter aprendido a pronúncia. Espero que vocês continuem comigo, de longe ou de perto, de muito ou de pouquinho. E que geluk continue sendo, pelos próximos seis meses, a minha maior conquista nesse ano laranja.

domingo, 24 de março de 2013

O clima aqui na Holanda é sempre a deixa perfeita pra puxar assunto com aquele amigo sumido ou de quem quer saber de como andam as minhas coisas por aqui. É o velho papo de elevador. E, bem, cá está um post papo de elevador...

A frase que eu mais disse na última semana, com certeza, foi: já deu, inverno! E a verdade é bem essa mesmo, eu cansei do inverno. Ok, a primavera chegou, mas cadê? O frio cansa e entristece. 

Tudo bem, existem algumas vantagens. A neve é linda e dá pra fazer guerrinha e boneco de neve e todas aquelas coisas de filme. Você também pode só ficar deitado debaixo das cobertas assistindo um filme e tomando chocolate quente. Mas aí não é vida real. (plam!) Na vida real, você tem que fazer todas as suas atividades cotidianas, mesmo que neve, que chova, ou que vente a trocentos quilômetros por hora. Na vida real, você não pode colocar o dedo mindinho pra fora de casa sem estar vestindo mil peças de roupa (e isso não tem nada da elegância que todo mundo imagina). Na vida real, fazer boneco de neve é difícil e você nem vai querer tentar fazer, porque não seria louco de ficar fora de casa por livre e espontânea vontade durante o tempo necessário pra tamanha engenharia. Na vida real, o locker da sua bike congela, sua roupa molha, e você já nem se lembra mais como são as suas pernas, de tanto tempo que passou sem vê-las. Na vida real, você anda com a bike sacolejando pelo vento até uma estação de trem, e quando sai do trem é recebido por uma fantástica chuva de bolinhas de gelo - isso quando não escorrega, cai e ganha uma cicatriz pra eternidade.

Você pode estar me achando uma rabugenta nesse momento, mas não é, não. É um consenso. Nos últimos dias, até a minha host (lindamente nativa e que vivia rindo de mim pelos meus dilemas com o frio) confessou que esse é o inverno mais longo de que ela se lembra. No outro dia, a nossa vizinha admitiu que não via a hora de o sol aparecer e todo mundo poder ser feliz e se divertir na rua, sem o risco de morrer congelado. Ok? Não sou só eu. Eles são só mais um pouquinho acostumados do que eu, que vim direto da panela fervente que é Goiás.

A expectativa pela chegada da primavera era visível. Tivemos umas temperaturas amenas, florzinhas selvagens começaram a colorir toda a cidade, e - de repente - todo mundo estava nas ruas, sorrindo, brincando nos parques e playgrounds, se entupindo de sorvetes. Mas foi tudo pegadinha do malandro, e não durou mais que uns 4 dias. (a reação foi bem essa aqui, ó) Eu, por minha vez, continuo fazendo uma força enorme pra manter a pose em cima da bike, manter os dedos descongelados, e a vida normal, mesmo quando a vontade é passar os dias todos como o de hoje - rodeada de cobertas e chás quentes. E claro, tô fazendo promessa pra São Pedro tirar o pé das minhas viagens e melhorar as coisas por essas bandas.

Por outro lado, uma das coisas mais incríveis por aqui é essa sazonalidade. A Europa tem mesmo as quatro estações do ano (nada das fake-estações brasileiras e muito menos do verão constante em Goiânia, que no máximo varia para "com chuva" ou "sem chuva") e tudo muda diante delas. As roupas, as comidas, os costumes, o clima. Aqui na Holanda, em específico, chega a ser curioso.

As barraquinhas de olliebollen você só encontra no final do ano e o stamppot é comida-de-inverno (mais informações num futuro post sobre a culinária holandesa!). Trocou a estação? Magicamente as coisas desaparecem e o restaurantinho de stamppot que eu adorava virou sorveteria. Inclusive, quanto sorvete apareceu de repente por aqui! E olha que, por enquanto, eu só vi o outono e o inverno.

Acho que, no fundo, todo o meu descontentamento com o inverno é só isso: ansiedade. Talvez seja só a sazonalidade do meu coração. Do tipo de quem já aprendeu a lição e quer logo passar pra próxima. De quem quer ver logo os campos floridos de tulipa e as crianças brincando nas ruas. De quem sabe que o tempo é curto pra tudo que se tem pra absorver, pra todos os sabores que se tem pra provar.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Quatro dias em um lugar novo, uma língua nova, uma família nova. Com tudo novo assim, já me parece um mês. Acho que decidi fazer o blog mesmo principalmente por causa desses quatro dias, porque aconteceram tantas coisas que... bem, vamos começar pelo começo.

Com um voo de mais de 10 horas, cheguei no aeroporto de Amsterdam no último sábado, dia 19. Depois de uma meia hora para apresentar o passaporte e pegar as malas, desembarquei já suando como uma lady. Para compensar, a primeira coisa que vi do outro lado do portão foi a minha host Noor com a neném Valentine. Elas abriram um sorrisão ao me ver e eu só conseguia pensar em quão alta ela era. Nesse meio tempo, vieram também o host Thjis e o menininho mais loiro da minha vida, o Lucas. Eles tinham comprado um balão de boas vindas e flores pra me receber, uns fofos. (*ps: aprendam os nomes para facilitar meu trabalho, obrigada!)

Do aeroporto fomos pra casa, em Bussum. A cidade é bem pequenininha e fica bem perto de Amsterdam, coisa de 15 minutos de carro. Parece uma cidade de boneca, com as casinhas parecidas, crianças brincando nas ruas e, claro, bikes! Dezenas delas... Outra coisa que super vale ressaltar é o outono. Sim goianos, o outono existe e é uma coisa linda de se ver. O Thjis me zoou bastante porque eu fico tirando fotos das árvores, mas não dá pra me controlar. É uma mistura de amarelo, laranja, marrom e verde, as folhas caídas no chão, tudo lindo.

Meu quarto também é lindo, por falar nisso. Espaçoso, confortável e decorado especialmente para mim. Com porta retratos, flores, luminárias e uma cama que dá vontade de ficar pra sempre. No mais, a casa é relativamente simples. Isso é uma coisa engraçada por aqui, porque eles realmente não se importam em demonstrar a riqueza. Não tem essa competição de quem tem o carro mais bonito ou a casa maior, como no Brasil.

Os hosts são definitivamente uns queridos. O Thjis é um fanfarrão, faz piada toda hora e está sempre de bom humor, mesmo estando meio gripado desde que cheguei. Ele trabalha muito, então curte as crianças ao máximo quando está por aqui. Já a Noor, bom, ela é muito mãe. Super tranquila, tenta fazer tudo pra que meu tempo aqui seja o mais agradável possível. Ela tirou essa semana de folga pra ficar comigo, então eu estou podendo observar e aprender tudo. Ela conversa muito comigo, quer saber dos meus amigos e família no Brasil, toda bonitinha, e é também muuuito paciente por aguentar todas as minhas pequenas dúvidas.

As crianças... O Lucas tem 2 anos e a Valentine tem 5 meses. Ela sorri o tempo todo, quase não chora, é uma preguiçosinha e já está no maior dengo comigo. Participei da sua primeira “degustação de papinha”, e ela é tão boazinha que nem estranhou! Já ele ainda me evita um pouco, pede pela mãe, faz uma birrinha aqui ou acolá, mas acho que seremos grandes amigos. Ele não fala inglês ainda, então isso dificulta um pouco, já que minha conversa com ele é quase uma adivinhação. Mas temos nossos momentos:

- o primeiro dia foi o mais difícil, ele não queria mesmo saber de mim. Saía correndo, só dizia não, não, não. Maaas, na hora que eu ia para o meu quarto pra dormir, só ouvi ele perguntando alguma coisa para a mãe e ela saiu correndo atrás de mim. É que ele queria me dar um beijinho de boa noite <3

- os hosts tentaram ensiná-lo a falar meu nome e deram várias opções: Deh, Debra, Déborah, enfim. E ele só dizia que não, não, não. Numa outra hora, espontaneamente, ele disse: Papa, Mama, Tine, Lucas en Dora! Então, a partir daí, eu sou a Dôôra. Os pais até tentaram corrigir, mas foi tão bonitinho que até eles já me chamam assim. Dora é o desenho preferido dele e o nome da minha avó.

Tem como não morrer de amor?
 

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