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domingo, 24 de março de 2013

O clima aqui na Holanda é sempre a deixa perfeita pra puxar assunto com aquele amigo sumido ou de quem quer saber de como andam as minhas coisas por aqui. É o velho papo de elevador. E, bem, cá está um post papo de elevador...

A frase que eu mais disse na última semana, com certeza, foi: já deu, inverno! E a verdade é bem essa mesmo, eu cansei do inverno. Ok, a primavera chegou, mas cadê? O frio cansa e entristece. 

Tudo bem, existem algumas vantagens. A neve é linda e dá pra fazer guerrinha e boneco de neve e todas aquelas coisas de filme. Você também pode só ficar deitado debaixo das cobertas assistindo um filme e tomando chocolate quente. Mas aí não é vida real. (plam!) Na vida real, você tem que fazer todas as suas atividades cotidianas, mesmo que neve, que chova, ou que vente a trocentos quilômetros por hora. Na vida real, você não pode colocar o dedo mindinho pra fora de casa sem estar vestindo mil peças de roupa (e isso não tem nada da elegância que todo mundo imagina). Na vida real, fazer boneco de neve é difícil e você nem vai querer tentar fazer, porque não seria louco de ficar fora de casa por livre e espontânea vontade durante o tempo necessário pra tamanha engenharia. Na vida real, o locker da sua bike congela, sua roupa molha, e você já nem se lembra mais como são as suas pernas, de tanto tempo que passou sem vê-las. Na vida real, você anda com a bike sacolejando pelo vento até uma estação de trem, e quando sai do trem é recebido por uma fantástica chuva de bolinhas de gelo - isso quando não escorrega, cai e ganha uma cicatriz pra eternidade.

Você pode estar me achando uma rabugenta nesse momento, mas não é, não. É um consenso. Nos últimos dias, até a minha host (lindamente nativa e que vivia rindo de mim pelos meus dilemas com o frio) confessou que esse é o inverno mais longo de que ela se lembra. No outro dia, a nossa vizinha admitiu que não via a hora de o sol aparecer e todo mundo poder ser feliz e se divertir na rua, sem o risco de morrer congelado. Ok? Não sou só eu. Eles são só mais um pouquinho acostumados do que eu, que vim direto da panela fervente que é Goiás.

A expectativa pela chegada da primavera era visível. Tivemos umas temperaturas amenas, florzinhas selvagens começaram a colorir toda a cidade, e - de repente - todo mundo estava nas ruas, sorrindo, brincando nos parques e playgrounds, se entupindo de sorvetes. Mas foi tudo pegadinha do malandro, e não durou mais que uns 4 dias. (a reação foi bem essa aqui, ó) Eu, por minha vez, continuo fazendo uma força enorme pra manter a pose em cima da bike, manter os dedos descongelados, e a vida normal, mesmo quando a vontade é passar os dias todos como o de hoje - rodeada de cobertas e chás quentes. E claro, tô fazendo promessa pra São Pedro tirar o pé das minhas viagens e melhorar as coisas por essas bandas.

Por outro lado, uma das coisas mais incríveis por aqui é essa sazonalidade. A Europa tem mesmo as quatro estações do ano (nada das fake-estações brasileiras e muito menos do verão constante em Goiânia, que no máximo varia para "com chuva" ou "sem chuva") e tudo muda diante delas. As roupas, as comidas, os costumes, o clima. Aqui na Holanda, em específico, chega a ser curioso.

As barraquinhas de olliebollen você só encontra no final do ano e o stamppot é comida-de-inverno (mais informações num futuro post sobre a culinária holandesa!). Trocou a estação? Magicamente as coisas desaparecem e o restaurantinho de stamppot que eu adorava virou sorveteria. Inclusive, quanto sorvete apareceu de repente por aqui! E olha que, por enquanto, eu só vi o outono e o inverno.

Acho que, no fundo, todo o meu descontentamento com o inverno é só isso: ansiedade. Talvez seja só a sazonalidade do meu coração. Do tipo de quem já aprendeu a lição e quer logo passar pra próxima. De quem quer ver logo os campos floridos de tulipa e as crianças brincando nas ruas. De quem sabe que o tempo é curto pra tudo que se tem pra absorver, pra todos os sabores que se tem pra provar.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Eu tava bipolar em relação a esse post: ao mesmo tempo louca pra escrever e evitando isso ao máximo. Porque há uma possibilidade bem grande de chorar tudo de novo antes que o texto e a palavra acabem. Mas vou apostar na possibilidade oposta, de que as palavras e as lembranças saibam se guardar de um jeito mais gostoso que todo o resto.

Nessa última quinta-feira, me despedi da minha família pela segunda vez. E aí eu começo contando pelo final, de como achei que nunca mais ia parar de chorar quando me vi acenando sozinha e infinitamente para a Isa, Wilma e meu pai no aeroporto de Amsterdam. Eu juro que achei que nunca mais ia parar de chorar na vida. Mas parei, e não demorou tanto quanto parecia. Parei, porque - poxa vida!, quantas outras intercambistas têm a chance de matar as saudades no meio do caminho como eu tive? E ainda mais, quem é que tem a chance de ter uma família tão incrível quanto a minha?

Eles passaram uns 18 dias viajando pela Europa - Barcelona, Roma, Paris, Reims, Bruxelas, Bussum, Amsterdam. Gastaram muito mais que podiam, adoeceram de tanto frio e de tanto andar, e eu já tenho certeza que esses terão sido alguns dos dias mais felizes do meu ano laranja. Ninguém mais poderia me ofertar tanto sorriso, tanto amor.

Nosso primeiro encontro foi em Roma. Peguei meu final de semana de folga e meu primeiro avião aqui para encontrá-los no lugar mais quentinho dos últimos meses. Que delícia ver o sol! Eu não conseguia parar de me encantar com o céu azul e o solzinho que até me deixava tirar um pouco dos casacos. Tínhamos marcado de nos encontrar em Termini, a estação central de lá, e eu duvidei que meu pai não teria um ataque cardíaco de me imaginar pegando uma bike, um trem, um avião e um ônibus para encontrá-los. Mas ele sobreviveu a isso e a todos os outros meios de transporte e baldiações e caminhos com neve que me viu atravessando! Eu estava meio perdida naquela estação gigante e resolvi atravessar de um lado para o outro para tentar achar algum rosto menos italiano. Foi então que vi um homem de chapéu, andando engraçado, se sacudindo de um lado para o outro, e que não poderia ser ninguém menos que meu pai. Não me lembro mais o quê, mas sei que comecei a dar gritinhos e sai correndo para o abraço mais apertado e esperado da vida. Meu coração se encheu de combustível vezes três, a cada abraço.

Daí em diante, só sorri. Comi pizzas, massas, panetone, gelattos incríveis. Joguei moedinhas com a Isa na Fontana di Trevi, visitei o Coliseu (Jader, entrei por você!!), as ruínas do Fórum Romano, o Panteão, o Vaticano (na foto aí de cima), a Basílica de São Pedro, e todas aquelas ruas e monumentos sem fim. Roma é, de fato, uma cidade para se maravilhar (ou, para "comer, rezar, amar", se preferirem). Você vira uma humilde esquina, seguindo o caminho do mapinha, e pá! Do nada te aparece uma construção gigantesca, cheia de detalhes e de nada mais-nada menos que mais de dois mil anos de existência.

Quase perdi o voo de volta (não confie no transporte público italiano!), mas deu tudo certo no final e cheguei para mais uma semana de trabalho, enquanto eles partiam para Paris, onde fui encontrá-los novamente na outra sexta-feira. Andamos o dia todo, pude ver meu parisiense-favorito novamente (salve, Pedro!) e me apaixonei ainda mais pela cidade, agora acompanhada da guia mais bacana e divertida de todas e que consegue amar Paris a cada esquina, mesmo passando mal. E sim, finalmente, meus caros: fui na Torre Eiffel! (aplausos aqui..)


No dia seguinte, fomos pra Reims, a cidade do champagne e do Luquinhas. Além de uma Catedral de Notre Dame (essa da foto ao lado!) ainda mais bonita que a de Paris, a cidade tem um charme enorme e é muito mais bacana do que meu namorado humilde-em-descrições me deixava imaginar. Visitamos a cave do Champagne Pommery, a universidade e a casa do Lucas, e conseguimos a peripécia de fazer a família toda jantar um delicioso kebab. De lá, na manhã seguinte, partimos para cerca de cinco horas em Bruxelas - a menor parada do nosso roteiro. Apesar de estar quase morrendo congelada, conseguimos ver alguns pontos turísticos como a Grand Place (da foto abaixo!), o Manneken Pis e o Parque de Bruxelas, além de claro, todas as gostosuras belgas como chocolates, waffles, batatas fritas e cervejas.

De lá, trouxe meus lindos deslumbradinhos com a neve para essas terras que já estou chamando de minhas. Trabalhei só na segunda-feira, e tive o resto da semana toda de folga, já que meus hosts são incríveis e se solidarizaram com as minhas visitas. Andamos longamente pela neve em Amsterdam (-8 graus, minha gente!), jantamos com a super-querida família da Helô, fomos ao Madame Tussauds, às lojas de queijo, comemos comida tipicamente holandesa (vai vir um post só pra isso, eu juro), congelamos os dedos dos pés inúmeras vezes, compramos presentes e, o mais bacana de tudo, eles vieram na minha pequena Bussum conhecer a minha casa, minha rotina e a minha host family. Preciso dizer quanto amor explodia de dentro de mim?

Juntar essas duas famílias foi inacreditável! Ver a Wilma segurando a Valentine, a Isa se divertindo com as piadinhas do Thjis, meu pai fazendo mágicas para o Lucas e a Noor impressionando todo mundo com um jantar super lindo e chique, preparado especialmente praquele encontro foi... - sem palavras. Eles se entrosaram bem, todos se adoraram apesar da dificuldade linguística, e no fim, meu pai ainda conseguiu soltar umas emocionadas frases de agradecimento, completadas com a promessa dessa minha família dutch de que vai continuar cuidando assim, tão bem de mim. Se eu já não tinha dúvidas quanto ao afeto, agora é também uma questão de honra.

Eu não poderia estar mais feliz. Foi como estar de férias, como juntar meus sonhos todos numa mesma caixinha. Viajar junto faz as pessoas se conhecerem melhor, realça os defeitos e qualidades, e faz a gente se ver melhor também. A minha cumplicidade com a minha irmã, meu respeito e carinho pela minha madrasta, meu amor ilimitado pelo meu pai serão sempre uma parte essencial da bengala em que eu me apoio todos os dias. Quando tá difícil ou quando tá legal.

Não dá pra descrever o tamanho da minha saudade de casa, e do Brasil. De cada um de vocês que se deu ao trabalho de chegar até o final desse post imenso. Mas também não dá pra descrever o quanto de amor e gratidão estão em mim agora, especialmente por esses três, que fizeram meus dias tão maravilhosos durante toda a vida e ainda mais nessas últimas semanas. Obrigada por cada croissant, cada palhaçada, cada foto, cada centavo de euro, cada conversa, cada cada cada...

Como diz meu pai, já não quero mais pensar em "até outubro!" - outubro tá longe e dói. Por enquanto, prefiro pensar assim "tot ziens", "até a próxima!".

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Crédito: Letícia Pomaleski - mais esperta que eu, foi fotografar
Depois de alguns dias sofrendo na expectativa e conferindo a previsão do tempo a cada duas horas, hoje - de fato - nevou. Não fui pro meio da neve ser feliz, nem tirei fotos, nem fiz um boneco com nariz de cenoura. Fiquei olhando a chuvinha virar gelo da janela, plácida. Aos poucos, a mesa que fica no jardim foi mudando de cor, até parecer que vestia uma capa de chuva totalmente branca. Não me atrevi a sair pra pedalar e confesso que pedi pra todos os santos que a neve tivesse diminuído até a hora da minha aula. A prece deve ter sido mesmo forte, porque algumas horinhas depois... fim. A chuva fina de todos os dias veio e derreteu meu jardim branco.

Eu devo ter repetido mil vezes no último final de semana que estava com medinho da neve. E quando ela foi embora, poxa, eu fiquei desapontada. Tem um num-sei-o-quê de paz de espírito na forma com que aquilo acontece. Ainda bem que a previsão do tempo me mostra mais dias assim ainda essa semana. E, afinal, é só o começo. Winter is coming, agora é inquestionável.

Enquanto ele não chega de vez, eu vou fazendo os dias por aqui.

Fui pra Paris passar um final de semana e, quem diria, vi o Mickey, mas não fui na Torre Eiffel. Explico: não contava com isso, mas passei um dia na EuroDisney (que tava toda lindinha e decorada de Natal!). E além de ter me divertido horrores por lá, andei muito, comi maravilhosamente bem, fui num samba, vi o carrossel da Amelie, a Shakespeare and Company e a pirâmide do Louvre, senti o vento correr o Sena, passeei no Christmas Market da Champs Elysees e, sabe do melhor? Reencontrei duas pessoas maravilhosas e que me fizeram me apaixonar: por eles e pela cidade. Porque o amor pode estar num kebab que se come depressa, ou em dividir a casa a vida e as canções. A minha Paris vai ser pra sempre mais bonita que a dos outros.

De lá pra cá, a vida ganhou novo gás e mais saudades. Conheci novas pessoas e lugares aqui na Holanda mesmo. Fui em duas exposições bacanérrimas em Amsterdam (alô, Eye-lindo e Toetanchamon-divo!) e vi um espetáculo maravilhoso, em plena Dam (a praça famosa e cheia de turistas de Ams), debaixo de um frio como nunca tinha sentido igual. Fui numa balada de verdade (orgulhem-se de mim, amigos!), numa boate gay com uma festa temática de Sinterklaas. Conheci Haarlem, que é a capital da província de Noord-Holland (que é o "estado" em que se situa tanto Amsterdam, como a minha cidade) e onde se fala o holandês mais bem falado do país. E dormi na casa da Letícia, como fazem mesmo as amigas - fofocando até tarde, quebrando galhos e descobrindo que tudo pode ter mais graça quando dá pra dividir com quem se quer bem, com gente do bem.

E no fim, sabe o quê é? Quanto mais eu vejo do mundo, mais me apaixono pelas pessoas.
 

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