- Faz uma matéria pra gente sobre a Holanda?
- Faço, ué, mas qual pauta? Você quer que eu fale sobre o quê?
- Sobre a Holanda.
Impossível compactar. Reduzi aos clichês do meu coração.
Leia mais em:
http://blogacontece.com.br/um-tour-por-nederland-famosa-holanda/
sexta-feira, 10 de maio de 2013
Eu poderia falar nesse texto sobre como adorei Barcelona. Sobre como o clima era agradável, como é tudo lindo, como as cores e paladares me abasteceram os pulmões. Poderia descrever como a agitação cultural da cidade me encheu de ideias e como fiquei impressionada com a força da cultura catalã. Sobre o que aprendi sobre arquitetura integral e sobre as loucuras do Gaudí, graças ao meu guia querido e poeta das nuvens. Eu imaginava uma cidade vermelha, do sangue das touradas, e descobri uma cidade azul e verde, conurbada em natureza e entusiasmo.
Mas, apesar de tudo isso, decidi escrever sobre uma palavra que reaprendi por lá, o encantamento. É que a cada vez que um espanhol me foi apresentado, eles diziam: "encantado". Não diziam "prazer" ou "nice to meet you", porque, afinal de contas, isso quase sempre é uma grande mentira. Mas eles se dizem encantados. E acho, verdadeiramente, que é assim que a gente devia se sentir ao conhecer uma pessoa, um lugar, uma comida, um cheiro. Encantado.
Me mostrando a sua Barcelona, Gabriel me disse que gostaria de ver a cidade com os meus olhos, de quem a via pela primeira vez. Eu respondi que ele poderia fazer isso, e pensei que era só abrir os olhos todos os dias. É o que tenho feito aqui em Bussum, aqui na Holanda, aqui na vida. Em Goiânia, por onde passei todos os meus anos até então, eu tinha me esquecido da minha capacidade de encantamento e, agora, a reaprendi. Talvez porque numa experiência feito essa a gente se sinta instigado a apreciar. Talvez também seja a convivência com as crianças que, ainda de olhos e peito abertos, continuam sempre dispostas a ver.
Nos últimos dias de Holanda, descobri tanta espécie de flor como jamais pensei. Tanta cor nova, tanto tudo-novo a cada giro das rodas da minha bicicleta. Descobri ainda, todos os tons de laranja existentes, numa festa linda chamada Koninginnedag. Holandesa que não sou, poderia ter apenas me divertido e aproveitado as festas, os mercados de rua, as pessoas fantasiadas e tudo mais, mas havia uma coisa no ar que não me interrompia o encantamento. Os holandeses festejam, não só a rainha (ou, agora, o rei - leia mais no genial Ducs Amsterdam), mas o orgulho que sentem de serem filhos dessa terra. Nunca vi nada assim no Brasil. Ninguém se vestiria de verde-amarelo fora dos jogos da Seleção, pelo simples fato de que a gente se esquece de celebrar o lugar incrível de onde viemos. Quando os holandeses em plena Dam Square gritavam "Bedankt, Bea", eles agradeciam não pelas excentricidades de ter uma família real, mas pelo lugar laranja e mágico onde estão.
Ok. Vocês podem dizer que estou sendo equivocada e que os holandeses sequer se lembravam de patriotismo algum enquanto dançavam loucamente nos barcos-festa que cruzavam os canais de Amsterdam. Concordo. Mas está intrínseco, entendem? Pergunte a eles qualquer coisa sobre a Holanda e você vai ver o peito estufado, pronto pra briga. Na última semana, recebi uma carta do governo questionando o motivo de eu não ter completado meus estudos. É que sou registrada na cidade, mas não constam registros escolares ou coisa assim. Então, eles vêm bater na nossa porta pra saber por quê. E não é só isso, eles te dizem "olha, você não estudou, mas a gente quer te dar uma oportunidade de concluir a escola e, também, de arrumar um emprego". Dá para entender porque eles podem se orgulhar, e não estou falando só de tulipas e cervejas.
Não vou tatuar um mapa do Brasil em mim ou pregar um patriotismo esquecido nos anos de meus avós (se é que ele existiu!). Não quero uma família real no Brasil, nem achar que o que acontece aqui é mais bonito que lá. Imagino os queixos caídos dos holandeses se presenciassem nossos carnavais, nossas serenatas, nossos ritos. Eles não fazem ideia do que é uma praia de verdade! Mas, recuperados os instintos de me encantar, não posso mais deixá-los partir.
Quero carregar comigo tudo que acumulo por aqui, mas preencher ainda mais a bagagem com tudo que meus olhos já se cansaram de ver. Quero sentir os olhos exaustos que me encontram todos os dias, apreciar as velhas histórias que já sei de cor.
Quero, em espanhol, holandês ou português, a chance de abrir os olhos e me encantar todos os dias.
Mas, apesar de tudo isso, decidi escrever sobre uma palavra que reaprendi por lá, o encantamento. É que a cada vez que um espanhol me foi apresentado, eles diziam: "encantado". Não diziam "prazer" ou "nice to meet you", porque, afinal de contas, isso quase sempre é uma grande mentira. Mas eles se dizem encantados. E acho, verdadeiramente, que é assim que a gente devia se sentir ao conhecer uma pessoa, um lugar, uma comida, um cheiro. Encantado.
Me mostrando a sua Barcelona, Gabriel me disse que gostaria de ver a cidade com os meus olhos, de quem a via pela primeira vez. Eu respondi que ele poderia fazer isso, e pensei que era só abrir os olhos todos os dias. É o que tenho feito aqui em Bussum, aqui na Holanda, aqui na vida. Em Goiânia, por onde passei todos os meus anos até então, eu tinha me esquecido da minha capacidade de encantamento e, agora, a reaprendi. Talvez porque numa experiência feito essa a gente se sinta instigado a apreciar. Talvez também seja a convivência com as crianças que, ainda de olhos e peito abertos, continuam sempre dispostas a ver.
Nos últimos dias de Holanda, descobri tanta espécie de flor como jamais pensei. Tanta cor nova, tanto tudo-novo a cada giro das rodas da minha bicicleta. Descobri ainda, todos os tons de laranja existentes, numa festa linda chamada Koninginnedag. Holandesa que não sou, poderia ter apenas me divertido e aproveitado as festas, os mercados de rua, as pessoas fantasiadas e tudo mais, mas havia uma coisa no ar que não me interrompia o encantamento. Os holandeses festejam, não só a rainha (ou, agora, o rei - leia mais no genial Ducs Amsterdam), mas o orgulho que sentem de serem filhos dessa terra. Nunca vi nada assim no Brasil. Ninguém se vestiria de verde-amarelo fora dos jogos da Seleção, pelo simples fato de que a gente se esquece de celebrar o lugar incrível de onde viemos. Quando os holandeses em plena Dam Square gritavam "Bedankt, Bea", eles agradeciam não pelas excentricidades de ter uma família real, mas pelo lugar laranja e mágico onde estão.
Ok. Vocês podem dizer que estou sendo equivocada e que os holandeses sequer se lembravam de patriotismo algum enquanto dançavam loucamente nos barcos-festa que cruzavam os canais de Amsterdam. Concordo. Mas está intrínseco, entendem? Pergunte a eles qualquer coisa sobre a Holanda e você vai ver o peito estufado, pronto pra briga. Na última semana, recebi uma carta do governo questionando o motivo de eu não ter completado meus estudos. É que sou registrada na cidade, mas não constam registros escolares ou coisa assim. Então, eles vêm bater na nossa porta pra saber por quê. E não é só isso, eles te dizem "olha, você não estudou, mas a gente quer te dar uma oportunidade de concluir a escola e, também, de arrumar um emprego". Dá para entender porque eles podem se orgulhar, e não estou falando só de tulipas e cervejas.
Não vou tatuar um mapa do Brasil em mim ou pregar um patriotismo esquecido nos anos de meus avós (se é que ele existiu!). Não quero uma família real no Brasil, nem achar que o que acontece aqui é mais bonito que lá. Imagino os queixos caídos dos holandeses se presenciassem nossos carnavais, nossas serenatas, nossos ritos. Eles não fazem ideia do que é uma praia de verdade! Mas, recuperados os instintos de me encantar, não posso mais deixá-los partir.
Quero carregar comigo tudo que acumulo por aqui, mas preencher ainda mais a bagagem com tudo que meus olhos já se cansaram de ver. Quero sentir os olhos exaustos que me encontram todos os dias, apreciar as velhas histórias que já sei de cor.
Quero, em espanhol, holandês ou português, a chance de abrir os olhos e me encantar todos os dias.
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sexta-feira, 19 de abril de 2013
Duas coisas mudaram a minha percepção e acenderam meus sentidos nessa última semana.
Obrigada a todo mundo que caminhou comigo até aqui. Que leu meus textos, que se encorajou ou que perdeu a vontade, que curtiu minhas fotos ou criticou minhas vontades. Mas, principalmente, obrigada aos que aprenderam (ou relembraram) junto comigo o significado de saudade. Uma palavra sem tradução e do tamanho do mundo. Uma palavra que me ajuda a ter tanto orgulho da língua portuguesa. A minha palavra preferida em holandês é geluk, que eu já gostava antes mesmo de ter aprendido a pronúncia. Espero que vocês continuem comigo, de longe ou de perto, de muito ou de pouquinho. E que geluk continue sendo, pelos próximos seis meses, a minha maior conquista nesse ano laranja.
Pra começar: o sol. No último final de semana, tive a impressão de que os holandeses festejavam o bom tempo (20 graus, diga-se de passagem). Foram pra praia, vestiram-se com cores mais alegres e saíram para sentar-se na porta de casa como fariam as velhinhas de Goiás Velho. Ao longo de toda a semana, deixamos as crianças brincarem tranquilamente como se a rua toda fosse parte da nossa casa. No sábado, fui com a host family ao Keukenhof - que apesar de ser um clichezão turístico para eles, foi encantador para mim. Nunca imaginei que houvessem tantos tipos de flores e tantas cores reunidas num só lugar.
Mas, claro, estamos na Holanda, e a primavera não estava só lá. Foi incrível como, de repente, a cidade inteira se coloriu. A árvore do nosso quintal se vestiu de rosa e o caminho até a escola ganhou uma passarela de florzinhas rasteiras em vários tons de roxo. Por falar em caminho, me deixei perder por novos caminhos e descobri (com a Lê - companheira de aventuras) uma Bussum completamente nova, que ainda não me tinha sido apresentada.
Sei que já falei aqui sobre como a veracidade das estações aqui na Europa me comove, mas não canso de dizer como isso é absolutamente mágico. Do dia para a noite, plam! foi como se tivéssemos nos mudado para uma nova cidade. (Ou será que foi o sol que me abriu novamente os olhos?) Eu amei o inverno, claro. Era tudo novidade e é tudo tão lindo e branquinho e parece que a vida passa até mais devagar. Mas agora entendo perfeitamente porque o brasileiro é (no geral) um povo tão sorridente e animado. Foi só abrir um solzinho, que toda a Holanda começou a sorrir.
O segundo fato aconteceu ainda hoje. Acordei por volta das cinco da manhã ouvindo os gritos do meu menino. Apesar de o meu quarto ser no andar de cima do deles, sempre consigo ouvir quando os dois choram a noite, afinal, passo o dia todo com o "radar" ligado e ele não consegue entender quando "estou off". A diferença aí foi que, nessa madrugada, o Lucas não chorava pela mãe, mas por mim. Foi tudo tão rápido que acho que ainda estava dormindo quando me vi ali, em pé na ponta da escada, decidida a acudir o choro do meu menino. Ele chamava com toda a força: Dooora, Dorraaa, Dooorrraa! Num minuto o choro cessou e eu voltei pra cama, sabendo que tinha sido só um pesadelo, nada de mais, coisa de criança. Demorei mais um bom tempo para pegar no sono de novo, esperando qualquer som ou movimentação que me mostrasse que ele havia acordado outra vez ou que precisava de mim.
"Meu menino". Onde foi que eu consegui parir um menino tão loiro assim ou uma neném de olhos tão azuis? Nem com um milagre da genética... Onde foi que me ensinaram a ter o sono frágil, a resolver todos os problemas do mundo com abraços e beijinhos, a cuidar como se eles fossem parte de mim? Logo eu, que nunca soube cuidar nem de bicho ou de planta... Virei mãe sem gestação e descobri, num segundo, como é ter o maior amor do mundo.
É difícil ter que tirar o sentimento de tudo que estou vivendo e a linha tênue que faz isso aqui em casa já se dissolveu há tempos. Isso não acontece com todo mundo, não é toda au pair que cai nessa cilada. Erro meu. Talvez o maior erro que cometi até agora. Não me lembrem que daqui a seis meses vou deixá-los para trás. Abandono de lar - isso é crime, não é? Deixar um pedaço do coração do outro lado do oceano.
Pode ser que esses dois fatos só tenham significado tanto porque estão aqui: bem no meio do meu ano, bem no dia em que completo seis meses fora de tudo que me havia de confortável e digno do meu amor. Esses acontecimentos vieram só me mostrar a cara da metade. Eu tenho uma metade em cada uma das mãos e penso em toda a mudança que me passou por dentro e por fora nos últimos seis meses - tudo me parece uma loucura! Você, leitor, pode estar cansado dessa minha contagem obcecada, mas é que não faz mesmo sentido, o tempo nunca me foi tão intenso e tão solúvel.
Seis. Zes. Outros seis. Andere zes.
Obrigada a todo mundo que caminhou comigo até aqui. Que leu meus textos, que se encorajou ou que perdeu a vontade, que curtiu minhas fotos ou criticou minhas vontades. Mas, principalmente, obrigada aos que aprenderam (ou relembraram) junto comigo o significado de saudade. Uma palavra sem tradução e do tamanho do mundo. Uma palavra que me ajuda a ter tanto orgulho da língua portuguesa. A minha palavra preferida em holandês é geluk, que eu já gostava antes mesmo de ter aprendido a pronúncia. Espero que vocês continuem comigo, de longe ou de perto, de muito ou de pouquinho. E que geluk continue sendo, pelos próximos seis meses, a minha maior conquista nesse ano laranja.
quarta-feira, 10 de abril de 2013
Algumas coisas são impossíveis de contabilizar. Não dá pra contar quanta riqueza eu estou ganhando ou perdendo aqui. E o termo é riqueza mesmo, pela duplicidade de sentidos que ele implica. Eu sempre acho graça quando alguém questiona viagens ou intercâmbios, dizendo que "o fulano perdeu um semestre na faculdade porque estava na Conchinchina", ou "o beltrano abandonou um bom trabalho pra ir pra FimDoMundoTown", ou "o quê diabos essa menina acha que vai conseguir tentando aprender holandês?".
Será que a gente perde mesmo?
Claro que acho que não, se não eu não estaria aqui me encaixando em todas as críticas possíveis. Mas a questão é que acredito profundamente que isso vai muito além de não-perder. E se há alguma coisa que eu quero poder não contabilizar mesmo é o quanto vou ter ganhado ao final deste ano. Das minhas últimas jornadas, por exemplo, trouxe comigo uma moeda tcheca e o amor pela França. Pera lá, eu explico.
No feriado de Páscoa (ah! aqui a gente tem o domingo, mas também a segunda-feira de feriado), botei a mochila nas costas e fui pra Praga, a capital da República Tcheca. A cidade é deslumbrante, diferente de tudo o que eu já tinha visto até então, não só pela arquitetura maravilhosa, mas por peculiaridades como a moeda e a língua. Por lá, o seu dinheiro se multiplica, já que, quando você paga 30 coroas numa cerveja, a conversão faz plim! e você descobre que aquela foi a cerveja (maior e) mais barata da sua vida (cerca de 1,4 euros) - inclusive, falando nisso, por essas e outras os tchecos consomem o maior volume per capita de cerveja no mundo! A língua tcheca também é genial, uma coisa de bêbado (como diria a Helô, minha companhia querida nesse pedaço do Leste europeu), absurda e escrita com acentos circunflexos de ponta cabeça, além de outros sinais gráficos que eu praticamente desconhecia (e olha que eu moro num lugar onde se fala holandês!). Saiba mais e divirta-se clicando aqui (atenção! clica onde tem escrito "listen").
A Lennon Wall (eu faria um texto inteiro só pra ela, porque não dá pra explicar o impacto que tanta cor e diversidade me causaram!), a Charles Bridge e suas luzes, a Dancing House, os mercadinhos, o relógio astronômico... A cidade toda é linda, apesar de estar terrivelmente lotada de turistas que, como eu, queriam tentar extrair um pouco da atmosfera daquele lugar. Assim como senti em Berlim, a cidade é pura história e isso é notável em cada canto, em cada pedaço de revolução, em cada mudança política pela qual o povo da Boêmia passou. Eu até comentei que o mínimo que os tchecos podem fazer é ser mesmo poetas e filósofos ou qualquer outra categoria "intelectual", que é como uma retribuição por viver num lugar daqueles.
Umas semaninhas antes, coloquei o pé na estrada de novo em direção a Paris. E uma semana depois de Praga, novamente Reims. Se você visitar o blog mais para trás, vai ver que as duas são cidades repetidas, e pode até pensar que "figurinha repetida não completa o álbum", mas nesse caso, o ditado não tem razão. Nas duas vezes, o fato de o Lucas (o namorado!) estar morando na França foi a desculpa perfeita para fazer as malas mais uma vez. Mas caminhando com ele por uma das pontes que cortam o Sena, eu não podia deixar de dizer do meu amor pela França. Eu já sabia que isso aconteceria, afinal, não é coincidência esse meu sobrenome e a minha paixão pela língua francesa. Mas agora, aqui, assistindo as paisagens dos campos verdes que cercam a região de Champagne-Ardenne ou suspirando ao ver as luzes da Torre Eiffel se acenderem (eu vou sempre suspirar por ela!), eu percebo que não há mais saída. A França ganhou meu coração e, possivelmente, eu repetirei as figurinhas muitas outras vezes.
A Lennon Wall (eu faria um texto inteiro só pra ela, porque não dá pra explicar o impacto que tanta cor e diversidade me causaram!), a Charles Bridge e suas luzes, a Dancing House, os mercadinhos, o relógio astronômico... A cidade toda é linda, apesar de estar terrivelmente lotada de turistas que, como eu, queriam tentar extrair um pouco da atmosfera daquele lugar. Assim como senti em Berlim, a cidade é pura história e isso é notável em cada canto, em cada pedaço de revolução, em cada mudança política pela qual o povo da Boêmia passou. Eu até comentei que o mínimo que os tchecos podem fazer é ser mesmo poetas e filósofos ou qualquer outra categoria "intelectual", que é como uma retribuição por viver num lugar daqueles.
Umas semaninhas antes, coloquei o pé na estrada de novo em direção a Paris. E uma semana depois de Praga, novamente Reims. Se você visitar o blog mais para trás, vai ver que as duas são cidades repetidas, e pode até pensar que "figurinha repetida não completa o álbum", mas nesse caso, o ditado não tem razão. Nas duas vezes, o fato de o Lucas (o namorado!) estar morando na França foi a desculpa perfeita para fazer as malas mais uma vez. Mas caminhando com ele por uma das pontes que cortam o Sena, eu não podia deixar de dizer do meu amor pela França. Eu já sabia que isso aconteceria, afinal, não é coincidência esse meu sobrenome e a minha paixão pela língua francesa. Mas agora, aqui, assistindo as paisagens dos campos verdes que cercam a região de Champagne-Ardenne ou suspirando ao ver as luzes da Torre Eiffel se acenderem (eu vou sempre suspirar por ela!), eu percebo que não há mais saída. A França ganhou meu coração e, possivelmente, eu repetirei as figurinhas muitas outras vezes.
Meus hosts brincam que no final deste ano, eu vou ter conhecido mais lugares do que eles, que nasceram e moraram a vida toda nessa Europa-linda-de-meu-deus. Uns amigos holandeses (os que me deram carinho e carona rumo à Reims) disseram o mesmo e, na verdade, eu já conheço mais coisas do que eles. E, talvez, se eles fossem morar um ano no Brasil conheceriam mais paisagens incríveis do que eu jamais vi na minha própria terra. E olha que eu já vi um bocado de Brasil, devo dizer! Inclusive, foi daí que veio essa minha vontade enorme de abraçar o mundo, porque ela me foi ensinada no berço - nas inúmeras viagens de carro, avião, ônibus, barco ou o que quer que ligasse dentro do meu pai o alarme de "vambora!".
Mas ainda me cabe mais tanta coisa... Quero muito mais moedas, fotos, postais, amores-geográficos e lembranças infinitas, porque, pelo menos por enquanto, é isso que mata a minha fome.
E eu tenho muita, muita fome.
E eu tenho muita, muita fome.
domingo, 24 de março de 2013
O clima aqui na Holanda é sempre a deixa perfeita pra puxar assunto com aquele amigo sumido ou de quem quer saber de como andam as minhas coisas por aqui. É o velho papo de elevador. E, bem, cá está um post papo de elevador...
A frase que eu mais disse na última semana, com certeza, foi: já deu, inverno! E a verdade é bem essa mesmo, eu cansei do inverno. Ok, a primavera chegou, mas cadê? O frio cansa e entristece.
Tudo bem, existem algumas vantagens. A neve é linda e dá pra fazer guerrinha e boneco de neve e todas aquelas coisas de filme. Você também pode só ficar deitado debaixo das cobertas assistindo um filme e tomando chocolate quente. Mas aí não é vida real. (plam!) Na vida real, você tem que fazer todas as suas atividades cotidianas, mesmo que neve, que chova, ou que vente a trocentos quilômetros por hora. Na vida real, você não pode colocar o dedo mindinho pra fora de casa sem estar vestindo mil peças de roupa (e isso não tem nada da elegância que todo mundo imagina). Na vida real, fazer boneco de neve é difícil e você nem vai querer tentar fazer, porque não seria louco de ficar fora de casa por livre e espontânea vontade durante o tempo necessário pra tamanha engenharia. Na vida real, o locker da sua bike congela, sua roupa molha, e você já nem se lembra mais como são as suas pernas, de tanto tempo que passou sem vê-las. Na vida real, você anda com a bike sacolejando pelo vento até uma estação de trem, e quando sai do trem é recebido por uma fantástica chuva de bolinhas de gelo - isso quando não escorrega, cai e ganha uma cicatriz pra eternidade.
Você pode estar me achando uma rabugenta nesse momento, mas não é, não. É um consenso. Nos últimos dias, até a minha host (lindamente nativa e que vivia rindo de mim pelos meus dilemas com o frio) confessou que esse é o inverno mais longo de que ela se lembra. No outro dia, a nossa vizinha admitiu que não via a hora de o sol aparecer e todo mundo poder ser feliz e se divertir na rua, sem o risco de morrer congelado. Ok? Não sou só eu. Eles são só mais um pouquinho acostumados do que eu, que vim direto da panela fervente que é Goiás.
A expectativa pela chegada da primavera era visível. Tivemos umas temperaturas amenas, florzinhas selvagens começaram a colorir toda a cidade, e - de repente - todo mundo estava nas ruas, sorrindo, brincando nos parques e playgrounds, se entupindo de sorvetes. Mas foi tudo pegadinha do malandro, e não durou mais que uns 4 dias. (a reação foi bem essa aqui, ó) Eu, por minha vez, continuo fazendo uma força enorme pra manter a pose em cima da bike, manter os dedos descongelados, e a vida normal, mesmo quando a vontade é passar os dias todos como o de hoje - rodeada de cobertas e chás quentes. E claro, tô fazendo promessa pra São Pedro tirar o pé das minhas viagens e melhorar as coisas por essas bandas.
Por outro lado, uma das coisas mais incríveis por aqui é essa sazonalidade. A Europa tem mesmo as quatro estações do ano (nada das fake-estações brasileiras e muito menos do verão constante em Goiânia, que no máximo varia para "com chuva" ou "sem chuva") e tudo muda diante delas. As roupas, as comidas, os costumes, o clima. Aqui na Holanda, em específico, chega a ser curioso.
As barraquinhas de olliebollen você só encontra no final do ano e o stamppot é comida-de-inverno (mais informações num futuro post sobre a culinária holandesa!). Trocou a estação? Magicamente as coisas desaparecem e o restaurantinho de stamppot que eu adorava virou sorveteria. Inclusive, quanto sorvete apareceu de repente por aqui! E olha que, por enquanto, eu só vi o outono e o inverno.
Acho que, no fundo, todo o meu descontentamento com o inverno é só isso: ansiedade. Talvez seja só a sazonalidade do meu coração. Do tipo de quem já aprendeu a lição e quer logo passar pra próxima. De quem quer ver logo os campos floridos de tulipa e as crianças brincando nas ruas. De quem sabe que o tempo é curto pra tudo que se tem pra absorver, pra todos os sabores que se tem pra provar.
quarta-feira, 20 de março de 2013
domingo, 24 de fevereiro de 2013
Eu fico esperando a hora de postar, como se minhas palavras só fossem ter graça diante de uma viagem incrível ou um apontamento interessante. Mas hoje resolvi que não, nem sempre.
Do último post pra cá, eu tive sim uma viagem linda. Fui pro Reino Unido, numa viagem de um final de semana só, mas conheci Edimburgo (a da foto), Durham e Newcastle Upon Tyne - respectivamente, a capital da Escócia e duas cidadezinhas fofas no norte da Inglaterra. E o que eu vi foi tudo aquilo que a gente lê sobre eles e acha que é exagero dos livros, filmes e seriados: a universidade de Newcastle, os táxis, os telefones públicos vermelhos, o sotaque maluco. Edimburgo é uma cidade peculiar, toda pintada em tons de verde musgo e coberta pelo som de uma gaita de fole que não dá pra saber se toca de verdade ou só dentro da gente. Durham é estar dentro dos cenários do Harry Potter e entender um pouquinho de onde veio toda a imaginação borbulhante da JK Rowling. Newcastle é se sentir em casa por estar na casa de alguém que é tão de casa. Explico: a companhia da vez era a Fernanda, minha prima que nunca precisou de sangue igual pra me ser tão querida.
Mas devo dizer que, apesar de maravilhosa, uma das coisas que mais marcou essa viagem foi o fato de eu estar passando mal. E muito, devo dizer. É até engraçado, porque em todas as minhas viagens até agora algo deu errado. Eu já passei mal, já me atrasei, já cancelaram meu trem, já entrei no trem errado, já já já e já milhares de coisas. E eu nunca me dei ao trabalho de contar nada disso por aqui, porque no final, é sempre pequeno perto de tudo de lindo que meus olhos viram. Mas na vida real, eu chego de viagem e já digo pras amigas: senta que lá vem história! - porque sempre tem alguma mini-tragédia pra contar.
Dessa vez, eu confesso que passei a viagem inteira resmungando, porque não dava pra acreditar que eu tinha chegado até lá e iria "desperdiçar" o momento daquele jeito. Eu tive de tudo um pouco: desmaio, sinusite, dor, diarreia, vômito, blábláblá. Consegui aproveitar bastante, mas aquela não era eu no meu estado normal e aquilo me irritou profundamente. E quando eu voltei: pam! Tive que me cuidar sozinha - e agora, finalmente, chegamos no x da questão desse texto.
Meus hosts tinham viajado também e as crianças chegariam só no dia seguinte pra ficar comigo. E não dava mais para esperar, porque nenhuma mágica ia me fazer ficar boa do dia pra noite, mas especialmente, porque não tinha minha família pra me medicar ou plantão da Unimed pra me atender a qualquer hora. Eu fiz uma jantinha-de-doente e passei a noite sozinha, fui ao médico e comprei remédios sozinha. Isso tudo, claro, em holandês, sem saber como funcionava nada do meu seguro, e obviamente, de bike.
No final - fiquem calmos! - deu tudo certo, eu sobrevivi e alguns dias depois já estava bem melhor. Mas fica aquela coisa de "me virei", sabe? Você se vira, mesmo que não saiba como isso aconteceu. É como diz o ditado, a necessidade faz o sapo pular. Você se vira, você aprende, e os dias vão passando numa velocidade que não se explica.
Na última semana eu completei quatro meses de Holanda. Quatro meses que são muito pouco pra quem ainda tem tanto pra ver, mas que já são tanto se analisadas as saudades do Brasil e os tantos laços criados por aqui. Em quatro meses, eu já consigo pedalar na chuva ou na neve e até com a bakfiets lotada e atéé (admirem-se!) ocupar uma das mãos com outra coisa que não seja a direção. Em quatro meses, eu já consigo aderir ao dutch-way-of-life e me planejar com mais antecedência e a ser mais objetiva. Em quatro meses, eu já amei e odiei minha host family, mas construí com eles um sentimento forte e sem nome, mas que eu sei que nunca vai ter fim.
Em quatro meses, quem sou eu chorando ao ver as fotos de todos os amigos juntos na formatura da minha melhor amiga? Quem sou eu trocando fraldas com uma mão só? Quem sou eu me curando da dor física ou da dor muda que é a saudade? Quem sou eu me apresentando como Dora? Quem sou eu pintando os cabelos de uma amiga numa tarde de sábado? Quem sou eu criando todos esses laços do outro lado do mundo? Quem sou eu descobrindo todas as vantagens e desvantagens de ser quem eu sou - não quem eu deveria ou poderia ser.
Quatro meses e ainda é só um terço. Um terço do ano ou de toda a chance que eu tenho pra descobrir: o mundo, a minha casa, a minha paz, a minha cara. Abro os braços pra me receber todos os dias.
Mas devo dizer que, apesar de maravilhosa, uma das coisas que mais marcou essa viagem foi o fato de eu estar passando mal. E muito, devo dizer. É até engraçado, porque em todas as minhas viagens até agora algo deu errado. Eu já passei mal, já me atrasei, já cancelaram meu trem, já entrei no trem errado, já já já e já milhares de coisas. E eu nunca me dei ao trabalho de contar nada disso por aqui, porque no final, é sempre pequeno perto de tudo de lindo que meus olhos viram. Mas na vida real, eu chego de viagem e já digo pras amigas: senta que lá vem história! - porque sempre tem alguma mini-tragédia pra contar.
Dessa vez, eu confesso que passei a viagem inteira resmungando, porque não dava pra acreditar que eu tinha chegado até lá e iria "desperdiçar" o momento daquele jeito. Eu tive de tudo um pouco: desmaio, sinusite, dor, diarreia, vômito, blábláblá. Consegui aproveitar bastante, mas aquela não era eu no meu estado normal e aquilo me irritou profundamente. E quando eu voltei: pam! Tive que me cuidar sozinha - e agora, finalmente, chegamos no x da questão desse texto.
Meus hosts tinham viajado também e as crianças chegariam só no dia seguinte pra ficar comigo. E não dava mais para esperar, porque nenhuma mágica ia me fazer ficar boa do dia pra noite, mas especialmente, porque não tinha minha família pra me medicar ou plantão da Unimed pra me atender a qualquer hora. Eu fiz uma jantinha-de-doente e passei a noite sozinha, fui ao médico e comprei remédios sozinha. Isso tudo, claro, em holandês, sem saber como funcionava nada do meu seguro, e obviamente, de bike.
No final - fiquem calmos! - deu tudo certo, eu sobrevivi e alguns dias depois já estava bem melhor. Mas fica aquela coisa de "me virei", sabe? Você se vira, mesmo que não saiba como isso aconteceu. É como diz o ditado, a necessidade faz o sapo pular. Você se vira, você aprende, e os dias vão passando numa velocidade que não se explica.
Na última semana eu completei quatro meses de Holanda. Quatro meses que são muito pouco pra quem ainda tem tanto pra ver, mas que já são tanto se analisadas as saudades do Brasil e os tantos laços criados por aqui. Em quatro meses, eu já consigo pedalar na chuva ou na neve e até com a bakfiets lotada e atéé (admirem-se!) ocupar uma das mãos com outra coisa que não seja a direção. Em quatro meses, eu já consigo aderir ao dutch-way-of-life e me planejar com mais antecedência e a ser mais objetiva. Em quatro meses, eu já amei e odiei minha host family, mas construí com eles um sentimento forte e sem nome, mas que eu sei que nunca vai ter fim.
Em quatro meses, quem sou eu chorando ao ver as fotos de todos os amigos juntos na formatura da minha melhor amiga? Quem sou eu trocando fraldas com uma mão só? Quem sou eu me curando da dor física ou da dor muda que é a saudade? Quem sou eu me apresentando como Dora? Quem sou eu pintando os cabelos de uma amiga numa tarde de sábado? Quem sou eu criando todos esses laços do outro lado do mundo? Quem sou eu descobrindo todas as vantagens e desvantagens de ser quem eu sou - não quem eu deveria ou poderia ser.
Quatro meses e ainda é só um terço. Um terço do ano ou de toda a chance que eu tenho pra descobrir: o mundo, a minha casa, a minha paz, a minha cara. Abro os braços pra me receber todos os dias.
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