sábado, 19 de outubro de 2013

Não me lembro qual foi a última vez que dormi. As últimas semanas, dias, horas vieram feito um furacão. Quatrocentas e vinte e sete emoções por segundo. E agora, acabou.

Acabou o ano laranja, as inúmeras viagens, a correria com as crianças. Quase acabou o blog.


Passei o último final de semana em Paris e me dei conta que aquela era a minha quinta vez na cidade. Complicado admitir, mas a verdade é que a Cidade Luz tem um lugarzinho aqui dentro quase tão grande quanto o de Amsterdam. E talvez pra acirrar a disputa eu tenha insistido tanto naquele último "walking tour" na cidade dos canais. Fazia um tempo horrível na Holanda, que durou o final de semana todo. Mas aí eu me enfiei com facilidade naqueles bequinhos e apontei cada canto e cada rua de nome difícil como se tivesse vivido sempre ali. Amsterdam tem gosto de lar, e acho que é assim mesmo, porque por mais brasileira que eu seja, meu tantinho holandês vai pra sempre brilhar de orgulho por cada uma das coisas que eu vi por lá.


Recebi visitas lindas, ganhei presentes, afeto e gratidão. Na última noite, me despedi da Letícia com um nó na garganta e uma porção de lágrimas. Era só um "tot straks" - dizia eu repetidamente pro meu coração. Mas aí, sem mais melancolia, coloquei meus pés descalços na grama molhada do jardim pra olhar pro alto mais uma vez e admirar o céu de Bussum. Ainda nessa mesma noite, numa despedida, uma vizinha aconselhou antes de sair: "don't make it too big". And I didn't. O rush do aeroporto na manhã seguinte me impediu qualquer cena dramática que eu sabia antecipadamente que iria fazer. Lembro do olhar sonolento da Valentine, como que perguntando "o que é que tá acontecendo aqui?", e o Lucas se recusando a me dar um abraço decente, porque ele sim não estava entendendo nada, "ela não deve estar indo tão longe". Meus olhos marejados faziam companhia aos da Noor e da Isa. A eterna falta de palavras quando se tem tanto a dizer. Mas foi só. I'm trying hard not to make it too big, é o que eu sempre faço, não é?! Mas bem que o moço do controle de passaporte deve ter me achado estranha por chorar daquele jeito quando já não tinha mais ninguém olhando...


Depois que cheguei, não tive mais tempo pra chorar. Tem uma coisa impagável na vida que se chama "ser amado". E isso é algo que a gente sente no olhar. Eu vi amor nos olhos e na respiração de cada uma daquelas pessoas incríveis que foram me receber. Que encheram meu velho quarto de vida, que celebraram cada detalhe, que por alguma razão mágica me assistiam e por esse simples fato me faziam entender que eu estava sim, de volta ao lar. E com motivos assim, eu ainda não tive desculpas pra me entristecer.

A meta agora é levar a vida, pousar o avião, recordar sentidos, rever milhares de vezes as velhas fotos. Os olhos cansados, o peso nos ombros, o peito cheio. 
Não entrar em alerta ao ouvir o choro de uma criança. Não comer pão no almoço. Não ir até ali de bike, ou até acolá de trem. Não me preocupar em vestir dez peças de roupa. Não precisar dizer sempre: sorry, ik niet spreek Nederlands. 
Tentar recomeçar. Mais uma e quantas outras forem precisas. Sorrir pro futuro. Encontrar outras cores.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

A pergunta que mais tenho ouvido nos últimos tempos é: E agora, o que você vai fazer quando voltar para o Brasil?

- Olha moço, vou abraçar meus amigos, cansar os ouvidos de todo mundo, fazer minha família ficar horas sentada ao meu redor enquanto desempacoto tudo e acho mil presentes, vou comer comida boa, falar português.

Dá vontade de responder assim. Mas aí eu acabo contando que vou procurar emprego e que vai ser difícil e que sou jornalista e etc e tal. Não sei quem é que fica mais assustado, meu ouvinte ou eu. Porque quando as pessoas convivem com uma au pair, elas enxergam ali uma... au pair. Plam! Não lembram que num tempo não muito distante você estudou, teve outra profissão, outra rotina. Nessa brincadeira, eu também acabo me lembrando que tive essa vida, mas e aí, o que fazer com ela?

Prometi pra todo mundo que não ia me preocupar com isso antes do tempo, mas quando é mesmo o tempo? Apesar de achar que nunca parei de pensar nisso, é sempre divertido ver as expressões das pessoas. “JORNALISTA?!” Essa semana quase matei de susto as duas professoras do meu menino por conta disso. Eles se revoltam em saber que na vida real, não, eu não trabalho com crianças. E ninguém jamais diria que há poucos anos eu matei uma tartaruga de fome, um bonsai desidratado. Hoje sou aquela que “nasceu pra isso”. Mas será? Me venham com sobrinhos e tá tudo resolvido, não preciso de mais nada. Vejo claramente que meus maiores dons são o verbo e o amor, nada mais. E é por isso que dei certo com as crianças.

Meu relógio desembestou de vez, e agora, mais do que nunca, eu percebo o quanto dei mesmo certo com eles. O quanto eles me ouvem, acreditam em mim e confiam de verdade. Hoje perguntei pro Lucas quem eu era pra ele. E numa carinha confusa ele disse que não sabia. Meio mãe, meio amiga, meio colega de escola, meio irmã. Só sei que ele passa a maior parte da vida dele comigo e que o som da risada dele ecoando pelas escadas de manhã é o que me dá coragem pra levantar todos os dias. Aprendendo a falar, a Valentine me chama de Mama - assim como ela chama qualquer pessoa que passar na rua. Mas aí sempre dá aquela pontadinha no peito e eu aperto ela com força nos meus braços, e não importa meu nome, porque o que ela me devolve é também amor.

Meu cronômetro me mostra 17 dias. Menos alguns. Todos os dias cheios. E eu querendo inventar lugares, desenhos, piruetas, novos recheios de sanduíche. Como se o tempo estivesse só começando. Como se o tempo não fosse parar.

Tento registrar em palavras, vídeos, fotografias ou rabiscos coloridos no papel todo o nosso tempo. Viajamos juntos, toda a família em férias, na metade de setembro. E eu confesso que nunca acumulei tantas fotos, tantos passinhos com mãozinhas dadas, tantos boas noites risonhos. Eu piscava forte pra guardar em mim uma bagagem muito maior do que aquela que eu trazia pra França. De lá, fui pra uma das maiores aventuras da minha vida, numa viagem sensacional para Marrakech. Expus minha figura na Medina, gastei todos os meus dihrans, andei de camelo, comi cuscuz, vi a lua mais bonita da minha vida. Passei uma noite no deserto ao som da percussão inconfundível da música árabe e, na manhã seguinte, apaguei todas as fotos que tinha tirado – desde a França. Era um erro grande demais pra mim, uma falha inadmissível, uma estupidez sem tamanho! Explodindo a raiva que vinha de dentro, eu engolia minhas lágrimas e ouvia de não muito longe a Letícia contando a nossa história para uma outra menina, que conhecemos no trajeto. Foi aí que eu sequei minha fúria do mesmo jeito que o vento levou a areia do deserto, onde a Lê cuidadosamente desenhou nossos nomes. Ouvindo nossa história assim, narrada por ela, naquela luz de sol que amanhece com preguiça, eu me orgulhei da gente. E conclui que não importava tanto assim ter perdido todas as fotos, porque o mais importante é continuar traçando caminhos que me permitam voltar. Caminhos que me deem fôlego pra contar histórias. Caminhos que me façam querer sempre guarda-los comigo.


Não sei o que vou fazer quando voltar para o Brasil. A verdade é essa. Mas agora, depois desse ano e de tudo que eu ganhei com ele, eu sei como nunca o que eu mais prezo na vida. Quais valores me valem, quais eu não quero levar. Tenho agora os ombros mais largos de mim.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

O que é que se escreve quando não se tem muito a dizer? Ou quando a gente pode dizer tudo e não consegue dizer nada?
Escrevo esse texto sentada numa cama confortável que não é minha nem de ninguém, escutando o vento sacudir as folhas que eu vejo dançarem pela  janela. O céu azul me faz esquecer que o frio está de volta, mas ainda não chegou até mim. O sul da França tem dessas vantagens - além de uma paisagem de tirar o fôlego, vinhos incríveis e os melhores pães, figos e croissants que já comi.

Escrevo esse texto me lembrando de todas paisagens que me surgiram pelas janelas deste último ano. Me lembrando das histórias que a vovó me contou sobre uma família que não conheci e que talvez também tenha tido seus belos dias de céu azul e baguetes francesas.

Escrevo esse texto me lembrando dela e de todas as histórias que ela contou e eu não contabilizei, talvez na certeza de que as ouviria novamente. Histórias que vão ficar perdidas aos pedaços, feito quebra cabeças, nas nossas memórias. Ou que foram com ela povoar o céu.

Escrevo esse texto com os ouvidos atentos e o olfato treinado, por mais distantes que estejam os olhos. Sigo de longe os sorrisos das crianças que não são minhas, mas que também são. Por algum tempo, eu as criei - como disse a mãe. As dores saem todas de dentro de mim, e o carinho capaz de curar tudo vem de um lugar que eu não sabia que existia. Ouço suas canções e passinhos desengonçados para sempre.

Escrevo esse texto pensando em todas as pessoas que conheci. Nos sorrisos que recebi, em tudo que me doei. Nos meus pedaços que deixei cair pelo caminho. Está na hora de voltar, mas não acho que irei catá-los. Não refaço o mesmo trajeto, porque agora as esquinas dobram pra lados contrários. Não entendo de chegadas ou destinos. Me especializei na arte de fazer e refazer malas, desci em uma porção de aeroportos, fui de ônibus, trem, skate, metrô. Mas ainda me confundo sobre arrivals e departures. Pra onde segue o coração da gente?

Agora falta só um mês. 

domingo, 1 de setembro de 2013

Hoje eu vi um bocado de gente comemorando nas redes sociais o final do mês de agosto. E eu queria ir lá em cada um deles e falar: sério mesmo?

Agosto pra mim teve duas caras. E ele tava me mostrando isso todo dia até que explodiu na minha frente quando a gente virou a folhinha pra setembro. Há um ano, nessa mesma época, eu estava preparando minhas coisas, arrumando malas, comprando presentes e me despedindo de um monte de gente. E agora estou aqui, fazendo exatamente as mesmas coisas, só que do ângulo contrário.

Agosto foi o mês que eu escolhi pra fazer tudo que me faltava na listinha laranja que um dia eu escrevi mentalmente. Ainda faltam alguns dias até voltar para o Brasil, mas setembro vai ser partido porque vou viajar quase o tempo todo. Saio de viagem com os hosts, engato nas minhas próprias férias e aí já é quase outubro. Mas disso eu falo pra vocês lá na frente...

Por enquanto, basta dizer que eu fui presenteada com o agosto mais longo de todos. Pra começar, me dei um castelo de presente de aniversário. Era um dia antes e eu, minha mochila e minha bike atravessamos doze quilômetros de uma liberdade que não me lembro de ter sentido outra igual. Eu ria, chorava e cantava bem alto pra celebrar sabe-se lá o quê. Talvez, a vida. Talvez, as escolhas sem sentido que levam a gente aos lugares que enchem os olhos e o coração. Naquele dia, o castelo de Muiderslot também me encheu as pernas de dores e os ombros de orgulho.

A continuação foi com um aniversário que me durou 34h, adicionados os devidos fusos e as devidas demonstrações de afeto. E quanto afeto! Não dá pra calcular, pra descrever, não cabe em qualquer medida que já inventaram. Não consigo dizer quanto amor coube em mim e, principalmente, quanta gratidão. Cada sorriso que carreguei naquele dia vai ficar guardado comigo pra sempre.

Menos de uma semana depois, e lá estava eu de novo, com aquele mesmo calorzinho no peito, aquela mesma sensação, quando meus olhos atravessaram o Rio Danúbio e me mostraram Budapeste muito mais linda do que eu podia imaginar. Os preços incríveis, a arquitetura, o verão nas pessoas, a companhia mais do que adequada, a língua bizarra, aquela atmosfera de gente jovem, moderna e feliz. E meu fôlego se acabando no amarelo. Budapeste me ganhou pra sempre com seus heróis, seus kürtőskalács, seus telhados coloridos e o som da risada da Lelê.

Foi também agosto que eu escolhi pra fazer o resto do turismo holandês que não dava pra ficar sem. Deventer, com a maior feira de livros da Europa; Den Haag, com seu Madurodam, o Binnenhof e a praia gelada; o Zaanse Schans e todos os clichês possíveis da Holanda, incluindo aí muitos moinhos (esse aí da foto abaixo, ó), vaquinhas, sapatinhos de madeira, queijos e stropwaffles; as cervejarias de Amsterdam; Delft, com a porcelana azul e branca, a história da família real, a igrejinha torta refletida nos canais e o (dito) melhor sanduíche do país; e, por fim, Rotterdam, a menos holandesa possível, com seu porto deslumbrante e a arquitetura da sobrevivência, com direito a pontes mega modernas e as Casas Cubos.


Agosto me deu muitos quilômetros a mais no meu cartão do transporte público, um tantão de dinheiro a menos, sapatos cada vez mais gastos e uma vontade de ficar mais um pouquinho pra decorar cada detalhe, cada esquina, cada nome impossível de pronunciar. 
As duas caras de agosto me mostraram que "partir" é uma coisa mesmo muito duvidosa. Partir e chegar é quase a mesma coisa. Só que coração não sabe nada sobre questões de referencial.

Hoje, primeiro dia do mês de setembro, eu vesti minha coragem e fiz as malas. Não pra voltar pra casa, mas pra mudar de casa. A primeira de três mudanças, dentro de poucos meses. Joguei um tanto de coisa fora, doei um outro tanto, guardei com carinho um tanto a mais. E aprendi que o apego deve estar com o que a gente carrega dentro da gente. Mais do que todos os souvenires que comprei ou as milhares de fotos que tirei, o que trago dentro de mim é que pesa mais. É aquele tal calorzinho do peito, a tal sensação de liberdade impagável, o amor incalculável - lembra? Olhando meu quarto semi vazio, entulhado de restos e de caixas, eu consigo agora sorrir o que já chorei. O tempo de agosto acabou. As lembranças vêm comigo.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Essa noite eu sonhei pela primeira vez que estava de volta ao Brasil. Sonho pouco ou quase nunca me lembro dos sonhos, sabe-se lá, mas dessa vez acordei com ele limpo e vivo na minha memória. Eram cenas cotidianas e banais da nova velha vida que me espera pra daqui dois meses. O apartamento novo, o restaurante da sogra, a casa da vó.

Todas as despedidas do mês de julho me despertaram pro fato de que - pam! já tá aí. E por mais que agora, mais do que nunca, eu sinta como se meu coração estivesse sempre lá, eu vejo quantos pedaços dele eu respinguei por aqui.

Na última semana, eu estava conversando com a minha host e comecei a comentar sobre todas as coisas que eu não fiz. As viagens que eu queria ter feito e não deu tempo, os estudos que eu não me dediquei, os outros cursos que eu poderia ter feito - porque seria bom para o meu currículo, pra minha vida, pra encher minha mala de carga. E entre um gole e outro do vinho branco que eu sei que ela adora, ela me olhou com uma cara realmente espantada e disse: - Girl, are you crazy?!

Ela não precisaria ter continuado, mas foi bom ouvir. No seu jeito dutch, ela me lembrou do mais importante: todas as coisas que eu fiz. "Well, you are just 22 and look at all the things you did". E aí me deu uma fagulhinha no peito que eu assimilei como orgulho de mim mesma. Por todas as coisas que eu fiz. Pode não ter saído como eu planejava, pode ter sido muito diferente dos meus sonhos de menina, pode ser que agora depois de tanto andar eu esteja mais perdida do que nunca, mas quem se importa?

Amanhã eu faço aniversário e ainda não me decidi o que sentir sobre isso. Sempre foi uma data meio tensa pra mim, mas nos últimos anos, as pessoas maravilhosas que eu trago comigo me mostraram que esse é sim um dia de celebrar e, acima de tudo, de me sentir bem. E eu senti um medo danado porque, nesse ano, nenhuma dessas pessoas estaria comigo (digo, fisicamente). Mas aí me aparecem uma amiga que desiste de viajar e de tudo o mais só pra estar comigo, uma host family inacreditável que programou cada segundo do meu dia com coisas legais, e uma família-postiça que me mostrou que também tem um cantinho do Brasil aqui na Holanda (e aí não tô só falando de comer pastel e tomar guaraná, mas do afeto que só a nossa gente tem). Pra ser sortuda assim, eu acho que estou mesmo fazendo alguma coisa certa na vida...

Da minha herança dutch, eu aprendi a arte de me programar e sei exatamente como vão ser meus dias até o último diazinho nessas terras, lá em outubro. E tentei encaixar nele todas as coisas que ainda faltam, os lugarejos holandeses, os museus, as viagens que eu tanto queria. Passei meus últimos dias trabalhando intensamente na logística desses outros dias. Não porque eu tenha me tornado uma louca controladora, nem porque me pese o que ainda não fiz. Mas porque quero levar comigo o máximo de cada lugar.

Eu olho pra trás, e pros lados, e me sinto uma velha. Não pelo peso das coisas, ou pelas minhas dores nas costas, ou porque fujo dos convites pra baladas - mas porque eu coleciono histórias. E isso, e os sorrisos que vem com elas, são as coisas mais importantes pra mim.

Mais cedo naquele mesmo dia da conversa com a minha host, fui comprar um café e consegui concluir quase todo o diálogo em holandês com o senhorzinho que trabalhava na loja. Quase no final, fui pega no pulo e não entendi o gracejo dele, então tive que explicar que meu holandês não era lá essas coisas. Ele sorriu contente e repetiu em inglês. Eu sorri de volta e já ia saindo da loja quando ele me chamou e disse: "Just keep being who you are". Horas mais tarde, no final da noite, a minha host já um pouco animada pelo vinho se despediu de mim pra ir dormir e me deixou por mais alguns minutos sozinha no jardim. Ela já estava em pé na porta quando se voltou pra mim e disse: "Just keep being who you are".

Eles não sabiam um do outro. E nem eu de mim. Mas acho que, mais do que nunca, posso me orgulhar em seguir o conselho deles.


sexta-feira, 5 de julho de 2013

Um lugar é feito de pessoas. Não tem o que me faça acreditar que a gente possa ser feliz sozinho. A minha grande sorte, em todas as minhas andanças, foi que estive sempre bem acompanhada. Talvez por isso cada lugar me tenha sido tão importante, de formas diferentes. Não adianta me perguntarem, não consigo escolher um destino preferido. Mas confesso que a última viagem vai ficar pra sempre num lugar quentinho do meu coração. Passei uma semana de férias, dividas entre Londres e Lisboa, com as melhores e mais antigas amigas que eu trago comigo. Se fosse pra definir em uma palavra, eu diria: surreal.

Entrei na viagem quando a Nana e a Nath, e um casal de tios mais que querido (salve, Rose e Daniel!), pousaram em Amsterdam - com a presença ilustre do meu ex-francês favorito, o namorado. Pude mostrar pra eles um pouquinho dessa minha nova terra, e foi então que percebi quão bairrista eu já sou com a Holanda. Quanto apreço eu tenho por esse lugar! Que alegria é dividir cada detalhe, cada sabor, cada gotinha dutch que já há em mim. Daqui, fomos pra Londres que - poxa! Era nosso sonho de infância, com toda aquela coisa de Harry Potter, Spice Girls e sabe-se-lá mais o quê que se passava no meu imaginário infantil. Mas foi muito mais que qualquer uma dessas coisas. Londres é um "cidadão", uma cidade frenética com o transporte público mais maluco que já vi na vida, aquele sotaque, todo o glamour da realeza, museus incríveis e gratuitos, comida e programas culturais de me tirar o fôlego. É como São Paulo, só que na Europa. E como São Paulo, eu tenho a sensação de que seriam necessários muitos outros dias pra que eu pudesse dizer que conheço alguma coisa. Antes que eu me desse conta, fomos pra Lisboa - e aí foi a vez da Nath dividir a vida dela com a gente, já que ela morou por seis meses lá, há dois anos. Que a cara do Brasil! Estar em Lisboa me explicou tanta coisa dos livros de História, tanto traço da nossa gente. Fiquei abobalhada em falar e ser entendida em português, em sentir calor novamente, em me empanturrar de comida de verdade de manhã, de tarde e de noite. O povo é caloroso como o nosso, a cidade é uma mistura de Rio de Janeiro e Salvador e, pra melhorar, é tudo barato! (Pra compensar a facada que são os pounds londrinos.)

As meninas são minhas amigas desde a infância, de verdade. Desde os dez, onze anos de idade. E isso diz muita coisa, por si só. Ter amigos de longa data proporciona um sentimento encantador de pertencimento. Você sabe exatamente onde está pisando e sabe que aquela pessoa vai saber o que quer dizer a sua cara de ódio ou de deslumbramento. E, no nosso caso, era quase sempre deslumbramento. Me despedi de todos eles com o coração na mão. Que vontade de ficar mais um pouquinho! Ou de voltar nas malas deles, ou de obrigá-los a ficar mais tempo comigo. Nunca um trajeto para um aeroporto me foi tão longo quanto aquele. Deixei parte do meu sorriso de bagagem extra pra voltar pra casa com elas.

E aí, como se já não fosse suficiente, julho chegou. O mês que eu menos queria que viesse. Porque as longas amizades podem ser pertencimento, mas as novas são redescobrimento. E a minha Holanda não teria sido a melhor de todas se não fosse a sorte que eu dei em ter uma host family incrível, mas, principalmente, amigas que fizeram cada um dos meus dias muito melhores.

Antes mesmo de chegar aqui, eu escolhi aleatoriamente algumas meninas também au pairs para tirar dúvidas e puxar papo no facebook. Quando eu cheguei, descobri que a Fabi era muito mais doce e divertida do que a menina que me fez mil encomendas antes mesmo de me conhecer; que a Talita era muito mais forte e abraçável (hehe..) do que a menina que dividiu comigo a ansiedade pelo embarque; e que a Lê, bem, ela não era só a menina que me salvou a pele ao me impedir de vir com a CI, mas a minha outra metade curitibana, a nova melhor amiga que estava guardada pra mim. 

Amanhã a Fabi se casa, no domingo a Talita vai embora, e na quinta a Fabi também. A Lelê fica mais um pouquinho (graçasaobomdeus!), mas vai se aventurar na Espanha por duas semanas e - pela primeira vez em quase nove meses - eu vou ficar sem nenhuma delas em Bussum. E não é que essa "solidão" me amedronte, mas sim a noção de como as nossas vidas vão pra rumos diferentes a partir de agora. 

E aí eu vou carregar comigo os pedacinhos delas, as histórias que vivemos juntas, as risadas sem fim, os piqueniques no chão da casa da Lê, os cafés na Hema. Vou levá-las na minha bagagem, assim como trouxe comigo tanto de tantos outros amigos incríveis. Minha vida não teria cor nenhuma sem vocês.


quarta-feira, 19 de junho de 2013

Antes de qualquer coisa, eu sinto que devo pedir desculpas aos amigos e demais leitores que passam por aqui. Especialmente aos que dizem: poxa, cadê post novo? Não vou mentir dando qualquer explicações, mas confesso que já comecei esse novo texto uma porção de vezes e não saía.

Do último post pra agora, uma coisa essencial mudou: a contagem. Parece engraçado, mas até agora eu contava pra frente - completei um mês, três meses, quatro... Só que agora a contagem ficou invertida - faltam quatro meses pra voltar pra casa. 

Mas ainda falta tanto pra fazer! Ainda faltam tantos lugares que eu queria ir, tanta coisa pra experimentar. O tempo encurtou mesmo e de repente eu quis fazer cada segundo valer ainda mais a pena. As últimas semanas, por exemplo, foram um turbilhão de atividades, gente chegando, gente saindo. Particularmente, devo dizer, acho que sou a au pair mais sortuda do mundo, porque nunca houve alguém para receber tanta visita gostosa quanto eu. 

E isso ajuda tanto! Sentir o calor da nossa gente, o gostinho de casa, o som da nossa língua, tudo isso faz ficar mais fácil. Até porque essas presenças nos trazem, acima de tudo, muito afeto! E fazem pensar que, por mais que ainda falte tanto aqui, é por conta desse afeto que ainda dá vontade de voltar pra casa.

Uns dias atrás eu disse pra minha irmã que não, nem o frio, nem as dificuldades, nem a língua, nem nada disso dá vontade de voltar. Mas ao mesmo tempo, também não dá vontade de ficar. Não dessa vez. Não hoje. Não assim.

Mas como diz a minha host, ainda não está na hora de pensar nisso. Por enquanto, posso me contentar em sorrir com o dia ensolarado as dez da noite, em me preocupar com a bicicleta estragada, em me empolgar ao fazer as malas mais uma vez, em nunca me cansar de resmungar sobre meus resfriados e afins, em me deixar corroer de ansiedade com as novas visitas que estão pra chegar. Me contentar e me encharcar da rotina. Deixar respingar tudo em mim. 


Ps: Estive pensando em uma porção de perguntas que os amigos e aspirantes a au pair sempre me fazem e pensei em fazer um post estilo "FAQ", com as coisas que vocês mais querem saber. Alguma curiosidade a mais, clique aqui nos comentários e manda bala! :)

quarta-feira, 29 de maio de 2013

- Faz uma matéria pra gente sobre a Holanda?
- Faço, ué, mas qual pauta? Você quer que eu fale sobre o quê?
- Sobre a Holanda.

Impossível compactar. Reduzi aos clichês do meu coração.
Leia mais em:
http://blogacontece.com.br/um-tour-por-nederland-famosa-holanda/

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Eu poderia falar nesse texto sobre como adorei Barcelona. Sobre como o clima era agradável, como é tudo lindo, como as cores e paladares me abasteceram os pulmões. Poderia descrever como a agitação cultural da cidade me encheu de ideias e como fiquei impressionada com a força da cultura catalã. Sobre o que aprendi sobre arquitetura integral e sobre as loucuras do Gaudí, graças ao meu guia querido e poeta das nuvens. Eu imaginava uma cidade vermelha, do sangue das touradas, e descobri uma cidade azul e verde, conurbada em natureza e entusiasmo.

Mas, apesar de tudo isso, decidi escrever sobre uma palavra que reaprendi por lá, o encantamento. É que a cada vez que um espanhol me foi apresentado, eles diziam: "encantado". Não diziam "prazer" ou "nice to meet you", porque, afinal de contas, isso quase sempre é uma grande mentira. Mas eles se dizem encantados. E acho, verdadeiramente, que é assim que a gente devia se sentir ao conhecer uma pessoa, um lugar, uma comida, um cheiro. Encantado.

Me mostrando a sua Barcelona, Gabriel me disse que gostaria de ver a cidade com os meus olhos, de quem a via pela primeira vez. Eu respondi que ele poderia fazer isso, e pensei que era só abrir os olhos todos os dias. É o que tenho feito aqui em Bussum, aqui na Holanda, aqui na vida. Em Goiânia, por onde passei todos os meus anos até então, eu tinha me esquecido da minha capacidade de encantamento e, agora, a reaprendi. Talvez porque numa experiência feito essa a gente se sinta instigado a apreciar. Talvez também seja a convivência com as crianças que, ainda de olhos e peito abertos, continuam sempre dispostas a ver.

Nos últimos dias de Holanda, descobri tanta espécie de flor como jamais pensei. Tanta cor nova, tanto tudo-novo a cada giro das rodas da minha bicicleta. Descobri ainda, todos os tons de laranja existentes, numa festa linda chamada Koninginnedag. Holandesa que não sou, poderia ter apenas me divertido e aproveitado as festas, os mercados de rua, as pessoas fantasiadas e tudo mais, mas havia uma coisa no ar que não me interrompia o encantamento. Os holandeses festejam, não só a rainha (ou, agora, o rei - leia mais no genial Ducs Amsterdam), mas o orgulho que sentem de serem filhos dessa terra. Nunca vi nada assim no Brasil. Ninguém se vestiria de verde-amarelo fora dos jogos da Seleção, pelo simples fato de que a gente se esquece de celebrar o lugar incrível de onde viemos. Quando os holandeses em plena Dam Square gritavam "Bedankt, Bea", eles agradeciam não pelas excentricidades de ter uma família real, mas pelo lugar laranja e mágico onde estão.

Ok. Vocês podem dizer que estou sendo equivocada e que os holandeses sequer se lembravam de patriotismo algum enquanto dançavam loucamente nos barcos-festa que cruzavam os canais de Amsterdam. Concordo. Mas está intrínseco, entendem? Pergunte a eles qualquer coisa sobre a Holanda e você vai ver o peito estufado, pronto pra briga. Na última semana, recebi uma carta do governo questionando o motivo de eu não ter completado meus estudos. É que sou registrada na cidade, mas não constam registros escolares ou coisa assim. Então, eles vêm bater na nossa porta pra saber por quê. E não é só isso, eles te dizem "olha, você não estudou, mas a gente quer te dar uma oportunidade de concluir a escola e, também, de arrumar um emprego". Dá para entender porque eles podem se orgulhar, e não estou falando só de tulipas e cervejas.

Não vou tatuar um mapa do Brasil em mim ou pregar um patriotismo esquecido nos anos de meus avós (se é que ele existiu!). Não quero uma família real no Brasil, nem achar que o que acontece aqui é mais bonito que lá. Imagino os queixos caídos dos holandeses se presenciassem nossos carnavais, nossas serenatas, nossos ritos. Eles não fazem ideia do que é uma praia de verdade! Mas, recuperados os instintos de me encantar, não posso mais deixá-los partir.

Quero carregar comigo tudo que acumulo por aqui, mas preencher ainda mais a bagagem com tudo que meus olhos já se cansaram de ver. Quero sentir os olhos exaustos que me encontram todos os dias, apreciar as velhas histórias que já sei de cor.

Quero, em espanhol, holandês ou português, a chance de abrir os olhos e me encantar todos os dias.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Duas coisas mudaram a minha percepção e acenderam meus sentidos nessa última semana.

Pra começar: o sol. No último final de semana, tive a impressão de que os holandeses festejavam o bom tempo (20 graus, diga-se de passagem). Foram pra praia, vestiram-se com cores mais alegres e saíram para sentar-se na porta de casa como fariam as velhinhas de Goiás Velho. Ao longo de toda a semana, deixamos as crianças brincarem tranquilamente como se a rua toda fosse parte da nossa casa. No sábado, fui com a host family ao Keukenhof - que apesar de ser um clichezão turístico para eles, foi encantador para mim. Nunca imaginei que houvessem tantos tipos de flores e tantas cores reunidas num só lugar. 

Mas, claro, estamos na Holanda, e a primavera não estava só lá. Foi incrível como, de repente, a cidade inteira se coloriu. A árvore do nosso quintal se vestiu de rosa e o caminho até a escola ganhou uma passarela de florzinhas rasteiras em vários tons de roxo. Por falar em caminho, me deixei perder por novos caminhos e descobri (com a Lê - companheira de aventuras) uma Bussum completamente nova, que ainda não me tinha sido apresentada. 

Sei que já falei aqui sobre como a veracidade das estações aqui na Europa me comove, mas não canso de dizer como isso é absolutamente mágico. Do dia para a noite, plam! foi como se tivéssemos nos mudado para uma nova cidade. (Ou será que foi o sol que me abriu novamente os olhos?) Eu amei o inverno, claro. Era tudo novidade e é tudo tão lindo e branquinho e parece que a vida passa até mais devagar. Mas agora entendo perfeitamente porque o brasileiro é (no geral) um povo tão sorridente e animado. Foi só abrir um solzinho, que toda a Holanda começou a sorrir.

O segundo fato aconteceu ainda hoje. Acordei por volta das cinco da manhã ouvindo os gritos do meu menino. Apesar de o meu quarto ser no andar de cima do deles, sempre consigo ouvir quando os dois choram a noite, afinal, passo o dia todo com o "radar" ligado e ele não consegue entender quando "estou off". A diferença aí foi que, nessa madrugada, o Lucas não chorava pela mãe, mas por mim. Foi tudo tão rápido que acho que ainda estava dormindo quando me vi ali, em pé na ponta da escada, decidida a acudir o choro do meu menino. Ele chamava com toda a força: Dooora, Dorraaa, Dooorrraa! Num minuto o choro cessou e eu voltei pra cama, sabendo que tinha sido só um pesadelo, nada de mais, coisa de criança. Demorei mais um bom tempo para pegar no sono de novo, esperando qualquer som ou movimentação que me mostrasse que ele havia acordado outra vez ou que precisava de mim.

"Meu menino". Onde foi que eu consegui parir um menino tão loiro assim ou uma neném de olhos tão azuis? Nem com um milagre da genética... Onde foi que me ensinaram a ter o sono frágil, a resolver todos os problemas do mundo com abraços e beijinhos, a cuidar como se eles fossem parte de mim? Logo eu, que nunca soube cuidar nem de bicho ou de planta... Virei mãe sem gestação e descobri, num segundo, como é ter o maior amor do mundo.

É difícil ter que tirar o sentimento de tudo que estou vivendo e a linha tênue que faz isso aqui em casa já se dissolveu há tempos. Isso não acontece com todo mundo, não é toda au pair que cai nessa cilada. Erro meu. Talvez o maior erro que cometi até agora. Não me lembrem que daqui a seis meses vou deixá-los para trás. Abandono de lar - isso é crime, não é? Deixar um pedaço do coração do outro lado do oceano.

Pode ser que esses dois fatos só tenham significado tanto porque estão aqui: bem no meio do meu ano, bem no dia em que completo seis meses fora de tudo que me havia de confortável e digno do meu amor. Esses acontecimentos vieram só me mostrar a cara da metade. Eu tenho uma metade em cada uma das mãos e penso em toda a mudança que me passou por dentro e por fora nos últimos seis meses - tudo me parece uma loucura! Você, leitor, pode estar cansado dessa minha contagem obcecada, mas é que não faz mesmo sentido, o tempo nunca me foi tão intenso e tão solúvel. 

Seis. Zes. Outros seis. Andere zes.


Obrigada a todo mundo que caminhou comigo até aqui. Que leu meus textos, que se encorajou ou que perdeu a vontade, que curtiu minhas fotos ou criticou minhas vontades. Mas, principalmente, obrigada aos que aprenderam (ou relembraram) junto comigo o significado de saudade. Uma palavra sem tradução e do tamanho do mundo. Uma palavra que me ajuda a ter tanto orgulho da língua portuguesa. A minha palavra preferida em holandês é geluk, que eu já gostava antes mesmo de ter aprendido a pronúncia. Espero que vocês continuem comigo, de longe ou de perto, de muito ou de pouquinho. E que geluk continue sendo, pelos próximos seis meses, a minha maior conquista nesse ano laranja.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Algumas coisas são impossíveis de contabilizar. Não dá pra contar quanta riqueza eu estou ganhando ou perdendo aqui. E o termo é riqueza mesmo, pela duplicidade de sentidos que ele implica. Eu sempre acho graça quando alguém questiona viagens ou intercâmbios, dizendo que "o fulano perdeu um semestre na faculdade porque estava na Conchinchina", ou "o beltrano abandonou um bom trabalho pra ir pra FimDoMundoTown", ou "o quê diabos essa menina acha que vai conseguir tentando aprender holandês?".

Será que a gente perde mesmo?

Claro que acho que não, se não eu não estaria aqui me encaixando em todas as críticas possíveis. Mas a questão é que acredito profundamente que isso vai muito além de não-perder. E se há alguma coisa que eu quero poder não contabilizar mesmo é o quanto vou ter ganhado ao final deste ano. Das minhas últimas jornadas, por exemplo, trouxe comigo uma moeda tcheca e o amor pela França. Pera lá, eu explico.

No feriado de Páscoa (ah! aqui a gente tem o domingo, mas também a segunda-feira de feriado), botei a mochila nas costas e fui pra Praga, a capital da República Tcheca. A cidade é deslumbrante, diferente de tudo o que eu já tinha visto até então, não só pela arquitetura maravilhosa, mas por peculiaridades como a moeda e a língua. Por lá, o seu dinheiro se multiplica, já que, quando você paga 30 coroas numa cerveja, a conversão faz plim! e você descobre que aquela foi a cerveja (maior e) mais barata da sua vida (cerca de 1,4 euros) - inclusive, falando nisso, por essas e outras os tchecos consomem o maior volume per capita de cerveja no mundo! A língua tcheca também é genial, uma coisa de bêbado (como diria a Helô, minha companhia querida nesse pedaço do Leste europeu), absurda e escrita com acentos circunflexos de ponta cabeça, além de outros sinais gráficos que eu praticamente desconhecia (e olha que eu moro num lugar onde se fala holandês!). Saiba mais e divirta-se clicando aqui (atenção! clica onde tem escrito "listen").

A Lennon Wall (eu faria um texto inteiro só pra ela, porque não dá pra explicar o impacto que tanta cor e diversidade me causaram!), a Charles Bridge e suas luzes, a Dancing House, os mercadinhos, o relógio astronômico... A cidade toda é linda, apesar de estar terrivelmente lotada de turistas que, como eu, queriam tentar extrair um pouco da atmosfera daquele lugar. Assim como senti em Berlim, a cidade é pura história e isso é notável em cada canto, em cada pedaço de revolução, em cada mudança política pela qual o povo da Boêmia passou. Eu até comentei que o mínimo que os tchecos podem fazer é ser mesmo poetas e filósofos ou qualquer outra categoria "intelectual", que é como uma retribuição por viver num lugar daqueles.

Umas semaninhas antes, coloquei o pé na estrada de novo em direção a Paris. E uma semana depois de Praga, novamente Reims. Se você visitar o blog mais para trás, vai ver que as duas são cidades repetidas, e pode até pensar que "figurinha repetida não completa o álbum", mas nesse caso, o ditado não tem razão. Nas duas vezes, o fato de o Lucas (o namorado!) estar morando na França foi a desculpa perfeita para fazer as malas mais uma vez. Mas caminhando com ele por uma das pontes que cortam o Sena, eu não podia deixar de dizer do meu amor pela França. Eu já sabia que isso aconteceria, afinal, não é coincidência esse meu sobrenome e a minha paixão pela língua francesa. Mas agora, aqui, assistindo as paisagens dos campos verdes que cercam a região de Champagne-Ardenne ou suspirando ao ver as luzes da Torre Eiffel se acenderem (eu vou sempre suspirar por ela!), eu percebo que não há mais saída. A França ganhou meu coração e, possivelmente, eu repetirei as figurinhas muitas outras vezes.

Meus hosts brincam que no final deste ano, eu vou ter conhecido mais lugares do que eles, que nasceram e moraram a vida toda nessa Europa-linda-de-meu-deus. Uns amigos holandeses (os que me deram carinho e carona rumo à Reims) disseram o mesmo e, na verdade, eu já conheço mais coisas do que eles. E, talvez, se eles fossem morar um ano no Brasil  conheceriam mais paisagens incríveis do que eu jamais vi na minha própria terra. E olha que eu já vi um bocado de Brasil, devo dizer! Inclusive, foi daí que veio essa minha vontade enorme de abraçar o mundo, porque ela me foi ensinada no berço - nas inúmeras viagens de carro, avião, ônibus, barco ou o que quer que ligasse dentro do meu pai o alarme de "vambora!". 

Mas ainda me cabe mais tanta coisa... Quero muito mais moedas, fotos, postais, amores-geográficos e lembranças infinitas, porque, pelo menos por enquanto, é isso que mata a minha fome.

E eu tenho muita, muita fome.

domingo, 24 de março de 2013

O clima aqui na Holanda é sempre a deixa perfeita pra puxar assunto com aquele amigo sumido ou de quem quer saber de como andam as minhas coisas por aqui. É o velho papo de elevador. E, bem, cá está um post papo de elevador...

A frase que eu mais disse na última semana, com certeza, foi: já deu, inverno! E a verdade é bem essa mesmo, eu cansei do inverno. Ok, a primavera chegou, mas cadê? O frio cansa e entristece. 

Tudo bem, existem algumas vantagens. A neve é linda e dá pra fazer guerrinha e boneco de neve e todas aquelas coisas de filme. Você também pode só ficar deitado debaixo das cobertas assistindo um filme e tomando chocolate quente. Mas aí não é vida real. (plam!) Na vida real, você tem que fazer todas as suas atividades cotidianas, mesmo que neve, que chova, ou que vente a trocentos quilômetros por hora. Na vida real, você não pode colocar o dedo mindinho pra fora de casa sem estar vestindo mil peças de roupa (e isso não tem nada da elegância que todo mundo imagina). Na vida real, fazer boneco de neve é difícil e você nem vai querer tentar fazer, porque não seria louco de ficar fora de casa por livre e espontânea vontade durante o tempo necessário pra tamanha engenharia. Na vida real, o locker da sua bike congela, sua roupa molha, e você já nem se lembra mais como são as suas pernas, de tanto tempo que passou sem vê-las. Na vida real, você anda com a bike sacolejando pelo vento até uma estação de trem, e quando sai do trem é recebido por uma fantástica chuva de bolinhas de gelo - isso quando não escorrega, cai e ganha uma cicatriz pra eternidade.

Você pode estar me achando uma rabugenta nesse momento, mas não é, não. É um consenso. Nos últimos dias, até a minha host (lindamente nativa e que vivia rindo de mim pelos meus dilemas com o frio) confessou que esse é o inverno mais longo de que ela se lembra. No outro dia, a nossa vizinha admitiu que não via a hora de o sol aparecer e todo mundo poder ser feliz e se divertir na rua, sem o risco de morrer congelado. Ok? Não sou só eu. Eles são só mais um pouquinho acostumados do que eu, que vim direto da panela fervente que é Goiás.

A expectativa pela chegada da primavera era visível. Tivemos umas temperaturas amenas, florzinhas selvagens começaram a colorir toda a cidade, e - de repente - todo mundo estava nas ruas, sorrindo, brincando nos parques e playgrounds, se entupindo de sorvetes. Mas foi tudo pegadinha do malandro, e não durou mais que uns 4 dias. (a reação foi bem essa aqui, ó) Eu, por minha vez, continuo fazendo uma força enorme pra manter a pose em cima da bike, manter os dedos descongelados, e a vida normal, mesmo quando a vontade é passar os dias todos como o de hoje - rodeada de cobertas e chás quentes. E claro, tô fazendo promessa pra São Pedro tirar o pé das minhas viagens e melhorar as coisas por essas bandas.

Por outro lado, uma das coisas mais incríveis por aqui é essa sazonalidade. A Europa tem mesmo as quatro estações do ano (nada das fake-estações brasileiras e muito menos do verão constante em Goiânia, que no máximo varia para "com chuva" ou "sem chuva") e tudo muda diante delas. As roupas, as comidas, os costumes, o clima. Aqui na Holanda, em específico, chega a ser curioso.

As barraquinhas de olliebollen você só encontra no final do ano e o stamppot é comida-de-inverno (mais informações num futuro post sobre a culinária holandesa!). Trocou a estação? Magicamente as coisas desaparecem e o restaurantinho de stamppot que eu adorava virou sorveteria. Inclusive, quanto sorvete apareceu de repente por aqui! E olha que, por enquanto, eu só vi o outono e o inverno.

Acho que, no fundo, todo o meu descontentamento com o inverno é só isso: ansiedade. Talvez seja só a sazonalidade do meu coração. Do tipo de quem já aprendeu a lição e quer logo passar pra próxima. De quem quer ver logo os campos floridos de tulipa e as crianças brincando nas ruas. De quem sabe que o tempo é curto pra tudo que se tem pra absorver, pra todos os sabores que se tem pra provar.

quarta-feira, 20 de março de 2013


“Why do you go away? So that you can come back. So that you can see the place you came from with new eyes and extra colors. And the people there see you differently, too. Coming back to where you started is not the same as never leaving.”

(Terry Pratchett)

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Eu fico esperando a hora de postar, como se minhas palavras só fossem ter graça diante de uma viagem incrível ou um apontamento interessante. Mas hoje resolvi que não, nem sempre.

Do último post pra cá, eu tive sim uma viagem linda. Fui pro Reino Unido, numa viagem de um final de semana só, mas conheci Edimburgo (a da foto), Durham e Newcastle Upon Tyne - respectivamente, a capital da Escócia e duas cidadezinhas fofas no norte da Inglaterra. E o que eu vi foi tudo aquilo que a gente lê sobre eles e acha que é exagero dos livros, filmes e seriados: a universidade de Newcastle, os táxis, os telefones públicos vermelhos, o sotaque maluco. Edimburgo é uma cidade peculiar, toda pintada em tons de verde musgo e coberta pelo som de uma gaita de fole que não dá pra saber se toca de verdade ou só dentro da gente. Durham é estar dentro dos cenários do Harry Potter e entender um pouquinho de onde veio toda a imaginação borbulhante da JK Rowling. Newcastle é se sentir em casa por estar na casa de alguém que é tão de casa. Explico: a companhia da vez era a Fernanda, minha prima que nunca precisou de sangue igual pra me ser tão querida.

Mas devo dizer que, apesar de maravilhosa, uma das coisas que mais marcou essa viagem foi o fato de eu estar passando mal. E muito, devo dizer. É até engraçado, porque em todas as minhas viagens até agora algo deu errado. Eu já passei mal, já me atrasei, já cancelaram meu trem, já entrei no trem errado, já já já e já milhares de coisas. E eu nunca me dei ao trabalho de contar nada disso por aqui, porque no final, é sempre pequeno perto de tudo de lindo que meus olhos viram. Mas na vida real, eu chego de viagem e já digo pras amigas: senta que lá vem história! - porque sempre tem alguma mini-tragédia pra contar.

Dessa vez, eu confesso que passei a viagem inteira resmungando, porque não dava pra acreditar que eu tinha chegado até lá e iria "desperdiçar" o momento daquele jeito. Eu tive de tudo um pouco: desmaio, sinusite, dor, diarreia, vômito, blábláblá. Consegui aproveitar bastante, mas aquela não era eu no meu estado normal e aquilo me irritou profundamente. E quando eu voltei: pam! Tive que me cuidar sozinha - e agora, finalmente, chegamos no x da questão desse texto.

Meus hosts tinham viajado também e as crianças chegariam só no dia seguinte pra ficar comigo. E não dava mais para esperar, porque nenhuma mágica ia me fazer ficar boa do dia pra noite, mas especialmente, porque não tinha minha família pra me medicar ou plantão da Unimed pra me atender a qualquer hora. Eu fiz uma jantinha-de-doente e passei a noite sozinha, fui ao médico e comprei remédios sozinha. Isso tudo, claro, em holandês, sem saber como funcionava nada do meu seguro, e obviamente, de bike.

No final - fiquem calmos! - deu tudo certo, eu sobrevivi e alguns dias depois já estava bem melhor. Mas fica aquela coisa de "me virei", sabe? Você se vira, mesmo que não saiba como isso aconteceu. É como diz o ditado, a necessidade faz o sapo pular. Você se vira, você aprende, e os dias vão passando numa velocidade que não se explica.

Na última semana eu completei quatro meses de Holanda. Quatro meses que são muito pouco pra quem ainda tem tanto pra ver, mas que já são tanto se analisadas as saudades do Brasil e os tantos laços criados por aqui. Em quatro meses, eu já consigo pedalar na chuva ou na neve e até com a bakfiets lotada e atéé (admirem-se!) ocupar uma das mãos com outra coisa que não seja a direção. Em quatro meses, eu já consigo aderir ao dutch-way-of-life e me planejar com mais antecedência e a ser mais objetiva. Em quatro meses, eu já amei e odiei minha host family, mas construí com eles um sentimento forte e sem nome, mas que eu sei que nunca vai ter fim.

Em quatro meses, quem sou eu chorando ao ver as fotos de todos os amigos juntos na formatura da minha melhor amiga? Quem sou eu trocando fraldas com uma mão só? Quem sou eu me curando da dor física ou da dor muda que é a saudade? Quem sou eu me apresentando como Dora? Quem sou eu pintando os cabelos de uma amiga numa tarde de sábado? Quem sou eu criando todos esses laços do outro lado do mundo? Quem sou eu descobrindo todas as vantagens e desvantagens de ser quem eu sou - não quem eu deveria ou poderia ser.

Quatro meses e ainda é só um terço. Um terço do ano ou de toda a chance que eu tenho pra descobrir: o mundo, a minha casa, a minha paz, a minha cara. Abro os braços pra me receber todos os dias.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Uma das coisas que sempre me interessou sobre os holandeses era a fama de eles serem super cabeça aberta. Claro, era um estereótipo. E como com todo estereótipo, eu tinha cá as minhas dúvidas sobre ele. Algumas das coisas que me disseram sobre a Holanda antes de eu vir mostraram-se totalmente enganosas. Mas, por sorte, essa fama de "open minded" não me decepcionou.

Na véspera da minha vinda, uma amiga da família disse para os meus pais: "Eu não deixaria minha filha ir pra Holanda nunca! Aquele lugar é uma loucura, só perdição." E essa é mesmo a Holanda - dos turistas.

A Holanda pra turista ver é basicamente a Red Light District em Amsterdam. É um coffee shop a cada cinco passos, são as luzes vermelhas das mulheres que se exibem e se prostituem dentro das janelinhas de vidro, são as baladas, as cervejas, e... só. No máximo, alguém vai se lembrar das casinhas coladas umas às outras. Mas apesar de essa ser a imagem vendida lá fora, os holandeses nem sequer se orgulham dessas coisas. Claro que tudo isso só funciona por uma razão da qual, aí sim, eles se gabam bastante: aqui tudo é feito direitinho, organizado e legalizado, sem dar chances pra virar bagunça, como poderia acontecer em lugares com uma cultura diferente da deles.

O problema é que os holandeses têm tanto mais para mostrar, para oferecer ao turista, que é até chato que seja essa a imagem "comercial" do país. Para acabar com isso, alguns grupos políticos daqui até tentam criar leis para acabar com os coffe shops e com a própria Red Light, que são super atrativos da capital. No último réveillon, o prefeito de Amsterdam, que é dessa ala mais conservadora, impediu, inclusive, que fossem feitas festas públicas na rua, com shows e tudo mais que pudesse atrapalhar o lindo sono das famílias holandesas. E apesar de esse cara ser um extremista, no geral, eles não se orgulham nem um pouco de ser a "terra da perdição", eles não fumam maconha loucamente, eles não não não e não para todos os estereótipos. Mas os holandeses não te julgam se você fizer qualquer uma dessas coisas. E, para mim, é aí que está o xis da questão.

No Brasil, a gente julga porque o cara do lado tá ouvindo uma música ruim, ou porque bebe demais, ou porque tá usando uma calça xadrez com blusa listrada, ou porque decidiu que é bissexual. Claro que isso é uma coisa absolutamente individual, e o julgamento quem constrói é a gente mesmo, com nossos preconceitos internos. Mas, por aqui, é bem naquela de ninguém vai se importar com o que você fizer mesmo.

Bussum, a cidade onde moro, é conhecida como a "Beverly Hills da Holanda", porque é um lugar onde mora muita gente rica, muito artista, coisas assim. Mas eu passo por eles todos os dias e nem sei! Não só pelo fato de que não sou daqui, mas porque eles não precisam desfilar em carros luxuosos e casas gigantescas. Em alguns bairros as casas são maiores, mais bem decoradas, mas ok, é só isso. Você não vê aquela disputa de quem tem a casa mais bonita do condomínio fechado ou quem tem o carro da moda. E, claro, de casacos de neve todo mundo parece que está vestido mais ou menos igual, não tem aquela discrepância de quem está usando uma calça da Calvin Klein ou da feirinha!

Eles também não são assim tão superiores a ponto de não julgar. Uma das minhas recentes descobertas, por exemplo, foi de que eles não são nem um pouco abertos quando o assunto é tatuagem. Ok, você pode ser preto, branco, azul, gay, hetero, usar roupa rasgada ou não, mas tatuagem pra eles é uma coisa "trash", como definiu uma holandesa que conheci ontem. O pai dela é todo tatuado, então ela cresceu achando isso normal. Mas contou que, na prática, não pode deixar nenhuma das suas três tatuagens à mostra enquanto está trabalhando e que dificilmente seria contratada por uma grande empresa daqui por conta disso.

Claro que por aqui existe gente esnobe, gente preconceituosa, gente chata. Isso existe em qualquer lugar. Mas eu nunca ouvi um pai brasileiro dizer com tanta naturalidade: "Poxa, meu filho tem uma tendência meio gay". E, diante da minha cara de espanto, ainda completar, rindo: "Hahaha, eu não me importo. O que vale é que ele seja um cara divertido, sabe? Prefiro que ele seja conhecido como 'aquele cara legal' do quê como 'aquele cara super inteligente' ou qualquer coisa assim. Quero que ele seja feliz - o resto, por mim, tanto faz".

Sou dessas que comenta se a menina do lado tem um cabelo muito feio e que anda desconfiada e com medo se tem alguém meio mal encarado andando por perto. Confesso. Não me esqueço de uma aula de antropologia que tive na faculdade, em que o professor falava sobre preconceitos e afirmou que o primeiro passo para se livrar de um era ter a consciência dele, sem a hipocrisia de dizer: "Sou muito bacana, não tenho preconceito com nada". Eu julgo e aposto que você também.

E essa é uma das coisas holandesas que quero carregar comigo sempre. É o sentimento de que, se a pessoa é feliz daquele jeito, tá tudo certo, tudo bem. O resto, por mim, tanto faz.

*Crédito da imagem: Google

sábado, 19 de janeiro de 2013

Eu tava bipolar em relação a esse post: ao mesmo tempo louca pra escrever e evitando isso ao máximo. Porque há uma possibilidade bem grande de chorar tudo de novo antes que o texto e a palavra acabem. Mas vou apostar na possibilidade oposta, de que as palavras e as lembranças saibam se guardar de um jeito mais gostoso que todo o resto.

Nessa última quinta-feira, me despedi da minha família pela segunda vez. E aí eu começo contando pelo final, de como achei que nunca mais ia parar de chorar quando me vi acenando sozinha e infinitamente para a Isa, Wilma e meu pai no aeroporto de Amsterdam. Eu juro que achei que nunca mais ia parar de chorar na vida. Mas parei, e não demorou tanto quanto parecia. Parei, porque - poxa vida!, quantas outras intercambistas têm a chance de matar as saudades no meio do caminho como eu tive? E ainda mais, quem é que tem a chance de ter uma família tão incrível quanto a minha?

Eles passaram uns 18 dias viajando pela Europa - Barcelona, Roma, Paris, Reims, Bruxelas, Bussum, Amsterdam. Gastaram muito mais que podiam, adoeceram de tanto frio e de tanto andar, e eu já tenho certeza que esses terão sido alguns dos dias mais felizes do meu ano laranja. Ninguém mais poderia me ofertar tanto sorriso, tanto amor.

Nosso primeiro encontro foi em Roma. Peguei meu final de semana de folga e meu primeiro avião aqui para encontrá-los no lugar mais quentinho dos últimos meses. Que delícia ver o sol! Eu não conseguia parar de me encantar com o céu azul e o solzinho que até me deixava tirar um pouco dos casacos. Tínhamos marcado de nos encontrar em Termini, a estação central de lá, e eu duvidei que meu pai não teria um ataque cardíaco de me imaginar pegando uma bike, um trem, um avião e um ônibus para encontrá-los. Mas ele sobreviveu a isso e a todos os outros meios de transporte e baldiações e caminhos com neve que me viu atravessando! Eu estava meio perdida naquela estação gigante e resolvi atravessar de um lado para o outro para tentar achar algum rosto menos italiano. Foi então que vi um homem de chapéu, andando engraçado, se sacudindo de um lado para o outro, e que não poderia ser ninguém menos que meu pai. Não me lembro mais o quê, mas sei que comecei a dar gritinhos e sai correndo para o abraço mais apertado e esperado da vida. Meu coração se encheu de combustível vezes três, a cada abraço.

Daí em diante, só sorri. Comi pizzas, massas, panetone, gelattos incríveis. Joguei moedinhas com a Isa na Fontana di Trevi, visitei o Coliseu (Jader, entrei por você!!), as ruínas do Fórum Romano, o Panteão, o Vaticano (na foto aí de cima), a Basílica de São Pedro, e todas aquelas ruas e monumentos sem fim. Roma é, de fato, uma cidade para se maravilhar (ou, para "comer, rezar, amar", se preferirem). Você vira uma humilde esquina, seguindo o caminho do mapinha, e pá! Do nada te aparece uma construção gigantesca, cheia de detalhes e de nada mais-nada menos que mais de dois mil anos de existência.

Quase perdi o voo de volta (não confie no transporte público italiano!), mas deu tudo certo no final e cheguei para mais uma semana de trabalho, enquanto eles partiam para Paris, onde fui encontrá-los novamente na outra sexta-feira. Andamos o dia todo, pude ver meu parisiense-favorito novamente (salve, Pedro!) e me apaixonei ainda mais pela cidade, agora acompanhada da guia mais bacana e divertida de todas e que consegue amar Paris a cada esquina, mesmo passando mal. E sim, finalmente, meus caros: fui na Torre Eiffel! (aplausos aqui..)


No dia seguinte, fomos pra Reims, a cidade do champagne e do Luquinhas. Além de uma Catedral de Notre Dame (essa da foto ao lado!) ainda mais bonita que a de Paris, a cidade tem um charme enorme e é muito mais bacana do que meu namorado humilde-em-descrições me deixava imaginar. Visitamos a cave do Champagne Pommery, a universidade e a casa do Lucas, e conseguimos a peripécia de fazer a família toda jantar um delicioso kebab. De lá, na manhã seguinte, partimos para cerca de cinco horas em Bruxelas - a menor parada do nosso roteiro. Apesar de estar quase morrendo congelada, conseguimos ver alguns pontos turísticos como a Grand Place (da foto abaixo!), o Manneken Pis e o Parque de Bruxelas, além de claro, todas as gostosuras belgas como chocolates, waffles, batatas fritas e cervejas.

De lá, trouxe meus lindos deslumbradinhos com a neve para essas terras que já estou chamando de minhas. Trabalhei só na segunda-feira, e tive o resto da semana toda de folga, já que meus hosts são incríveis e se solidarizaram com as minhas visitas. Andamos longamente pela neve em Amsterdam (-8 graus, minha gente!), jantamos com a super-querida família da Helô, fomos ao Madame Tussauds, às lojas de queijo, comemos comida tipicamente holandesa (vai vir um post só pra isso, eu juro), congelamos os dedos dos pés inúmeras vezes, compramos presentes e, o mais bacana de tudo, eles vieram na minha pequena Bussum conhecer a minha casa, minha rotina e a minha host family. Preciso dizer quanto amor explodia de dentro de mim?

Juntar essas duas famílias foi inacreditável! Ver a Wilma segurando a Valentine, a Isa se divertindo com as piadinhas do Thjis, meu pai fazendo mágicas para o Lucas e a Noor impressionando todo mundo com um jantar super lindo e chique, preparado especialmente praquele encontro foi... - sem palavras. Eles se entrosaram bem, todos se adoraram apesar da dificuldade linguística, e no fim, meu pai ainda conseguiu soltar umas emocionadas frases de agradecimento, completadas com a promessa dessa minha família dutch de que vai continuar cuidando assim, tão bem de mim. Se eu já não tinha dúvidas quanto ao afeto, agora é também uma questão de honra.

Eu não poderia estar mais feliz. Foi como estar de férias, como juntar meus sonhos todos numa mesma caixinha. Viajar junto faz as pessoas se conhecerem melhor, realça os defeitos e qualidades, e faz a gente se ver melhor também. A minha cumplicidade com a minha irmã, meu respeito e carinho pela minha madrasta, meu amor ilimitado pelo meu pai serão sempre uma parte essencial da bengala em que eu me apoio todos os dias. Quando tá difícil ou quando tá legal.

Não dá pra descrever o tamanho da minha saudade de casa, e do Brasil. De cada um de vocês que se deu ao trabalho de chegar até o final desse post imenso. Mas também não dá pra descrever o quanto de amor e gratidão estão em mim agora, especialmente por esses três, que fizeram meus dias tão maravilhosos durante toda a vida e ainda mais nessas últimas semanas. Obrigada por cada croissant, cada palhaçada, cada foto, cada centavo de euro, cada conversa, cada cada cada...

Como diz meu pai, já não quero mais pensar em "até outubro!" - outubro tá longe e dói. Por enquanto, prefiro pensar assim "tot ziens", "até a próxima!".

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013


Depois de uns dias de folga, voltei a trabalhar hoje e não conseguia parar de repetir: putz, já é janeiro. Dezembro chegou e passou feito brisa, tamanha a expectativa que eu tinha sobre ele. O clima de férias começou com um jantar de Natal que eu fiz em casa pras amigas daqui de Bussum. Fiz comida bonitinha, petiscos, uma finesse! E o mais engraçado é que eu estava trabalhando nesse dia: as crianças dormiam no andar de cima, enquanto a gente se empanturrava lá embaixo.

O convidado especial da noite foi o Lucas - não o meu pequeno, mas o namorado. E, como sempre, ele ganhou todos os corações possíveis. Acho que gastei quase um mês para conseguir que o Lucas (pequeno) me desse um pedacinho do abacaxi que ele comia, ou me desse beijo de boa noite, coisas assim. O Groot-Lucas (Lucas-Grande, como a gente ensinou o pequeno a chamar!), em compensação, já chegou na intimidade, ganhando comidinha na boca e tudo mais. Foi amor a primeira vista e os dois agora são melhores amigos.

Depois de experimentar um pouquinho da minha vida de au pair (já que ele trabalhou arduamente comigo durante o tempo que esteve aqui), eu e o Lucas fomos pra Berlim. A primeira coisa que eu disse quando voltei de lá foi que eu já queria voltar. Minhas amigas fizeram piada, dizendo que eu disse a mesma coisa de Paris. Mas não dá pra ser diferente...

Bom, o ponto negativo da viagem foi o Natal. Não pela data em si, mas pelos feriados (na Alemanha, é feriado de Natal nos dias 24 e 26 - aqui na Holanda, dias 25 e 26) que fecharam tudo na cidade. TUDO, Brasil. Essa Europa tem disso, não existe essa de cidade que nunca dorme, feito São Paulo ou NY. Em compensação, tirando esse detalhe de a ceia ter sido um kebab de rua, foi maravilhoso.

Berlim borbulha história. Cada esquina é uma página daquele teu livro do ensino médio, que você não deu bola direito e de repente faria tudo pra lembrar dos detalhes. Holocausto e Guerra Fria são só nomes próprios pra um sentimento que não tem nome. Caminhar pelo Campo de Concentração de Sachsenhausen é de embrulhar o estômago, é um calafrio na alma. Sem dúvidas, a energia mais sinistra que já senti na vida. E é impressionante a força da reintegração de uma cidade dividida por um muro, que era concreto, mas, mais ainda, moral.

Berlim é um redescobrir-se constante - entre os blocos do Memorial do Holocausto, entre os restos do Muro, nas cervejas, nas esquinas pouco iluminadas, nos homenzinhos do semáforo, nas conversa de quartos de hotel.

Voltei pra passar o Reveillon em casa, na Holanda, mas novamente em boa companhia. E devo dizer, que foi só o que salvou. Tive dias ótimos e fiz o que quase nunca faço, que é turistar de fato em Amsterdam, mas a "virada" em si foi o caos. Me avisaram antes e agora me sinto na obrigação de passar o aviso pra frente: não existe Amsterdam de verdade no Reveillon. A cidade se transformou no inferno na terra, com todos os seus males acentuados e jogados na nossa cara como se fosse um filme em 3D. As lojas fecham, os trens param, não tem festa pública (como a gente encontra em toda e qualquer cidadezinha do Brasil), os fogos são mixurucas, as festas e pubs ficam super caros e o frio e a chuva não sabem respeitar sequer os primeiros minutos do ano que começa.

Teria sido mais uma das minhas tragédias cômicas na Europa, se eu não tivesse um abraço-amigo pra fazer a contagem regressiva e estourar um champagne em plena Damrak à meia noite. Salve, Gabriel! Por ter sido o tempo todo uma excelente companhia e um exemplo da calma que eu preciso aprender a ter.

Outro fato interessante desses últimos dias foi a brasilidade. Berlim e Amsterdam explodiam em brasileiros - a cada museu, a cada sussurro, a cada rua atravessada. E a brasilidade, ah... a brasilidade salta sobre os nossos ombros. É impossível não conversar, não ficar amigo num segundo, não descobrir a vida toda do outro no segundo seguinte, não sorrir de ouvir a língua materna, não sentir esse sorriso interno que só a gente tem.

A chuva, que não deixou nem uma pontinha de mim à seco, levou com ela o 2012. E dessa vez, não tive o que pedir pro ano que entrou. Quero só agradecer. E quero a surpresa do dia-a-dia, como me tem sido ensinado por aqui - nesse ano laranja que começou não em primeiro de janeiro doismiletreze, mas em vinte de outubro de doismiledoze.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012


Na viagem à Paris fui pega de surpresa com o primeiro Christmas Market da minha vida. Estávamos andando pela Champs Elysees e eu já estava maravilhada o suficiente, quando a rua se encheu de luzinhas e barraquinhas. E, claro, churros. Todo mundo que passava por mim, carregava um pacotinho com doces: waffles, churros, algodão doce, crepes, maçã do amor. Foi mais que suficiente pra ganhar meu coração.

Daí para frente, descobri que os mercados de Natal são tradicionais aqui na Europa. Tem pra todo canto. E é divertido, porque cada um tem sua características. Alguns são super famosos e recebem turistas que vão até a cidade especialmente para sentir o clima natalino, como é o caso de Maastricht, aqui na Holanda, e Dusseldorf, na Alemanha. Alguns são mais divertidos e criativos e vendem todo tipo de buginganga e coisinhas criativas. Soube de mercados exclusivos de produtos orgânicos, outro exclusivos de flores e decorações para o Natal, e enfim, descobri que no fundo é uma desculpa para o pessoal montar uma feirinha mesmo.

Como não sou boba nem nada, resolvi botar minhas botas pra trabalhar e fui ver de perto o KerstMarkt (em holandês) de Maastricht. A cidade é a mais longe que eu poderia escolher dentro da Holandinha, o extremo sul do país, e fica a nada mais nada menos do que três horas (de trem!) da minha - já que eu moro no norte do país. Ainda no caminho percebi que a coisa não era brincadeira: o trem vinha tão cheio que fizemos quase o trajeto todo em pé ou sentados nas escadinhas entre os vagões. 

Eu tinha me preparado toda com mapas e anotações pra não errar o caminho da estação para o mercado, que fica na Vrijthof, a praça principal da cidade (que é bem grandinha, diga-se de passagem). Mas não precisei. Sabe aquela coisa de efeito boiada, de que é só seguir o fluxo da multidão? Pois então! Todo o caminho até a praça já transpirava Natal: as luzes, árvores, presentinhos decorando postes e até mesmo as lojas comuns, todas tocavam aquelas típicas canções natalinas que grudam nos ouvidos da gente. Numa dessas, assistimos até um coral natalino que cantava dentro de uma livraria. (Vale a pena ver umas fotos aqui!)

O KerstMarkt de Maastricht desapontou no quesito compras. Tínhamos deixado alguns presentes para comprar lá, mas foi em vão, porque quase não se viam banquinhas legais de fato. Em compensação, tinha pista de patinação no gelo (um abraço aqui para os que, assim como eu, não tem o menor talento), roda gigante, brinquedos pra criança pequena e criança grande que nem a gente, uma decoração linda e comidinhas tudo-de-bom (waffles com calda de cereja: te-quero-pra-sempre!).

No fim, eu só contei isso tudo para dizer que, finalmente, o Natal me pegou. Sempre fui dessas chatas que não curte muito as festas de fim de ano e que sempre arruma um motivo pra reclamar. Algumas vezes eu até tive os motivos, outras não e reclamei mesmo assim. Sempre detestei com todas as minhas forças essas canções natalinas. Acho que seria capaz de enforcar a Simone e o Ivan Lins ou quem mais me resolvesse cantar aquilo. Morria de raiva das luzinhas no prédio da frente que iluminavam meu quarto e me atrapalhavam a dormir. Tive alguns natais maravilhosos, claro, e isso aconteceu unicamente porque eu tenho uma família maravilhosa. Mas, mesmo assim, a minha implicância não passava.

Dessa vez, preciso admitir que passou. Os enfeites da árvore de Natal da minha casa são de chocolate e foram escolhidos a dedo por uma criança que nem sabe pra quê que isso serve, mas que ficou feliz mesmo assim. Apesar do inverno, Bussum e todos os lugares por que passei nos últimos dias se encheram de cor e alegria enfeitados de luzinhas e árvores de Natal (ah, elas são naturais, é importante explicar!) e eu pude, finalmente, oferecer meus sorrisos todos pra elas. 

Acho que mudei de ideia sobre o Natal. E talvez seja porque os bons motivos pra se ter um feliz Natal estão (quase) todos longe de mim. A saudade abre o coração da gente.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Crédito: Letícia Pomaleski - mais esperta que eu, foi fotografar
Depois de alguns dias sofrendo na expectativa e conferindo a previsão do tempo a cada duas horas, hoje - de fato - nevou. Não fui pro meio da neve ser feliz, nem tirei fotos, nem fiz um boneco com nariz de cenoura. Fiquei olhando a chuvinha virar gelo da janela, plácida. Aos poucos, a mesa que fica no jardim foi mudando de cor, até parecer que vestia uma capa de chuva totalmente branca. Não me atrevi a sair pra pedalar e confesso que pedi pra todos os santos que a neve tivesse diminuído até a hora da minha aula. A prece deve ter sido mesmo forte, porque algumas horinhas depois... fim. A chuva fina de todos os dias veio e derreteu meu jardim branco.

Eu devo ter repetido mil vezes no último final de semana que estava com medinho da neve. E quando ela foi embora, poxa, eu fiquei desapontada. Tem um num-sei-o-quê de paz de espírito na forma com que aquilo acontece. Ainda bem que a previsão do tempo me mostra mais dias assim ainda essa semana. E, afinal, é só o começo. Winter is coming, agora é inquestionável.

Enquanto ele não chega de vez, eu vou fazendo os dias por aqui.

Fui pra Paris passar um final de semana e, quem diria, vi o Mickey, mas não fui na Torre Eiffel. Explico: não contava com isso, mas passei um dia na EuroDisney (que tava toda lindinha e decorada de Natal!). E além de ter me divertido horrores por lá, andei muito, comi maravilhosamente bem, fui num samba, vi o carrossel da Amelie, a Shakespeare and Company e a pirâmide do Louvre, senti o vento correr o Sena, passeei no Christmas Market da Champs Elysees e, sabe do melhor? Reencontrei duas pessoas maravilhosas e que me fizeram me apaixonar: por eles e pela cidade. Porque o amor pode estar num kebab que se come depressa, ou em dividir a casa a vida e as canções. A minha Paris vai ser pra sempre mais bonita que a dos outros.

De lá pra cá, a vida ganhou novo gás e mais saudades. Conheci novas pessoas e lugares aqui na Holanda mesmo. Fui em duas exposições bacanérrimas em Amsterdam (alô, Eye-lindo e Toetanchamon-divo!) e vi um espetáculo maravilhoso, em plena Dam (a praça famosa e cheia de turistas de Ams), debaixo de um frio como nunca tinha sentido igual. Fui numa balada de verdade (orgulhem-se de mim, amigos!), numa boate gay com uma festa temática de Sinterklaas. Conheci Haarlem, que é a capital da província de Noord-Holland (que é o "estado" em que se situa tanto Amsterdam, como a minha cidade) e onde se fala o holandês mais bem falado do país. E dormi na casa da Letícia, como fazem mesmo as amigas - fofocando até tarde, quebrando galhos e descobrindo que tudo pode ter mais graça quando dá pra dividir com quem se quer bem, com gente do bem.

E no fim, sabe o quê é? Quanto mais eu vejo do mundo, mais me apaixono pelas pessoas.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Eu poderia fazer um post lindo e emotivo falando do último final de semana em Paris (calma, ele virá). Eu poderia falar sobre o amor, sobre o tempo, sobre a comida, ou sobre remédios e consolos infantis. Eu poderia até mesmo nem falar nada, mas hoje foi preciso.

Meu primeiro mês de Holanda foi comemorado logo cedo, por volta das oito da manhã. Um pequenino loiro e sonolento me presenteou, meio a contragosto, e com o sorriso escondido mais gostoso da vida.

Não é sempre fácil. A saudade aperta a cada segundo, tudo é lembrança do Brasil e de cada uma das pessoas maravilhosas que me preenchem os dias. E passou-se só um mês. Seja sempre bem vinda, vida.
 

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